Resumo
- No plano simbólico, Ventura importa o tom combativo de Salvini nas ruas, a construção de inimigos culturais de Orbán e o estilo provocador e disruptivo de Trump nos debates televisivos.
- Em vez de centrar o discurso na imigração islâmica — como acontece em França ou Itália —, Ventura aposta fortemente em temas como a criminalidade associada a comunidades ciganas, a crítica à corrupção endémica e a defesa de um nacionalismo cristão.
- Com o Chega consolidado como terceira força no Parlamento, a questão é se a democracia portuguesa resistirá a uma política que prospera no conflito permanente e na desconfiança sistemática.
Lisboa — André Ventura não inventou o populismo, mas moldou-o à medida da política portuguesa. O seu estilo — agressivo, personalista e centrado na criação de inimigos — insere-se num manual global já testado por líderes como Donald Trump, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro. A originalidade do chamado “venturismo” está na adaptação dessas táticas à história, às fragilidades e ao imaginário cultural de Portugal.
A fórmula parte de um princípio simples: transformar a política num campo de batalha moral, onde o líder se apresenta como o único capaz de defender “o povo” contra elites corruptas, minorias “privilegiadas” e instituições “capturadas”. Ventura, tal como Trump e Bolsonaro, constrói uma narrativa na qual o sistema é intrinsecamente injusto e só a sua liderança pode “limpar” o país.
Importar e adaptar
Especialistas em política comparada identificam paralelos diretos entre a comunicação do Chega e de movimentos populistas internacionais. Há o uso sistemático de redes sociais para contornar a mediação jornalística, a simplificação extrema das propostas e a dramatização constante de conflitos. No plano simbólico, Ventura importa o tom combativo de Salvini nas ruas, a construção de inimigos culturais de Orbán e o estilo provocador e disruptivo de Trump nos debates televisivos.
Mas a adaptação ao contexto nacional é decisiva. Em vez de centrar o discurso na imigração islâmica — como acontece em França ou Itália —, Ventura aposta fortemente em temas como a criminalidade associada a comunidades ciganas, a crítica à corrupção endémica e a defesa de um nacionalismo cristão. A nostalgia seletiva do Estado Novo, explorada em alusões subtis ou discursos inflamados, dá um toque local que ressoa junto de uma parte do eleitorado.
A máquina de mobilização permanente
Outra característica herdada do manual global é a campanha contínua. Não há pausas entre ciclos eleitorais: cada polémica, cada debate e cada aparição pública são usados para reforçar a marca pessoal do líder. A agenda política é pautada por temas de alto impacto emocional, muitas vezes independentes da realidade factual, mas eficazes para mobilizar seguidores.
Trump fez disso um espetáculo diário no Twitter; Bolsonaro transformou as transmissões em direto em rituais de fidelização; Ventura segue a mesma lógica, multiplicando publicações, vídeos e frases curtas que circulam em massa. Esta presença constante alimenta a perceção de proximidade e mantém viva a mobilização — mesmo fora de períodos eleitorais.
O preço democrático da estratégia
A eficácia eleitoral do “venturismo” é inegável, mas o custo para a qualidade democrática também é apontado por investigadores. “Estes modelos minam consensos fundamentais, atacam árbitros independentes como tribunais e comunicação social e enfraquecem a confiança nas regras do jogo”, alerta a cientista política Helena Morais.
Com o Chega consolidado como terceira força no Parlamento, a questão é se a democracia portuguesa resistirá a uma política que prospera no conflito permanente e na desconfiança sistemática. A história de outros países mostra que, quando o manual global do populismo se instala, revertê-lo exige mais do que eleições: implica reconstruir a confiança cívica e as pontes entre diferentes visões de sociedade.
E, num país que até há poucos anos se orgulhava da ausência de uma extrema-direita forte, esta pode ser a prova mais difícil desde o 25 de Abril.