chega
Partilha

Resumo

  • Num país marcado historicamente pelo combate à censura e pela valorização da liberdade de imprensa, o surgimento de uma força política que sistematicamente manipula o discurso público, distorce factos e cavalga ondas emocionais com mensagens contraditórias levanta sérias questões sobre a integridade do debate democrático.
  • Até que ponto o Chega está a importar – e a nacionalizar – o manual de propaganda do Kremlin.
  • Ao replicar este modelo, o Chega evita o contraditório não silenciando o adversário, mas afogando-o num mar de declarações sucessivas e contraditórias.

A propaganda russa moderna, descrita pela RAND Corporation como “firehose of falsehood”, assenta em quatro pilares fundamentais: repetição, volume, emoção e desrespeito pela consistência ou verdade factual. Em Portugal, o partido Chega, liderado por André Ventura, tem vindo a aplicar com precisão surpreendente estes mesmos métodos, adaptando-os ao contexto político e mediático nacional.

Num país marcado historicamente pelo combate à censura e pela valorização da liberdade de imprensa, o surgimento de uma força política que sistematicamente manipula o discurso público, distorce factos e cavalga ondas emocionais com mensagens contraditórias levanta sérias questões sobre a integridade do debate democrático. Até que ponto o Chega está a importar – e a nacionalizar – o manual de propaganda do Kremlin?

Volume e saturção: o ruído como arma política

Desde as presidenciais de 2021 até às mais recentes campanhas legislativas, Ventura tornou-se omnipresente. Televisões, redes sociais, conferências de imprensa diárias, vídeos em directo e declarações polémicas criam um ambiente de saturação mediática.

Este método, descrito pelos analistas da RAND como um dos eixos centrais da propaganda russa, visa ocupar tanto espaço que as mensagens alternativas não consigam vingar. Ao replicar este modelo, o Chega evita o contraditório não silenciando o adversário, mas afogando-o num mar de declarações sucessivas e contraditórias.

O próprio André Ventura reconheceu numa entrevista em 2023: “Se não falarmos hoje, alguém vai ocupar esse espaço. Eu ocupo-o primeiro.” Não se trata apenas de falar — trata-se de falar mais, mais alto e mais vezes.

A verdade como acessório: quando a factualidade é opcional

A análise aos discursos públicos do Chega revela um padrão consistente: afirmações factualmente incorrectas são feitas com desfaçatez, mesmo após terem sido desmentidas. A técnica é simples e eficaz — dizer o que “soa” bem ao ouvido do eleitor, mesmo que não seja verdade.

Exemplos são abundantes. Desde declarações infundadas sobre o número de imigrantes ilegais a insinuações sobre o envolvimento de estrangeiros em crimes específicos — frequentemente desmentidas por fact-checkers — Ventura raramente recua. Quando confrontado, ignora, contorna ou muda de tema, voltando ao ataque noutra frente qualquer.

Este desprezo pela veracidade é central no modelo “firehose”: ao injectar desinformação repetidamente no espaço público, torna-se difícil para o público distinguir o que é real do que é fabricado. “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” — o velho princípio goebbelsiano — ganha, aqui, nova vida digital.

Contradições como táctica: confundir para controlar

Outro traço distintivo da propaganda russa é a inconsistência estratégica. Os seus autores não se preocupam em manter coerência entre mensagens. Pelo contrário, a mudança constante de versões serve para baralhar, dividir e desmobilizar.

O Chega adopta esse mesmo princípio com eficácia notável. Ventura pode, num mês, defender a prisão perpétua e, semanas depois, relativizar essa medida em nome de um “debate amplo”. Pode denunciar o sistema judicial como corrupto e, no dia seguinte, defender decisões judiciais que lhe são favoráveis. O objectivo não é coerência — é imprevisibilidade e controlo narrativo.

A incoerência programática não penaliza o partido; pelo contrário, liberta-o. Sem amarras ideológicas fixas, o Chega move-se entre discursos radicais e moderação calculada, conforme o público e o momento.

Emoção como combustível: raiva, medo, ressentimento

Um dos trunfos da propaganda russa — e, agora, do Chega — é a capacidade de activar emoções intensas nos receptores da mensagem. A razão é secundária quando o medo, a raiva ou o ressentimento estão em jogo.

Ventura é perito em provocar indignação. Seja ao atacar “a elite de Lisboa”, “os imigrantes criminosos” ou “os privilegiados do sistema”, o discurso é cuidadosamente desenhado para criar antagonismo. A audiência, já emocionalmente predisposta, não questiona os dados; reage ao estímulo.

Segundo o relatório da RAND, “mensagens com forte carga emocional, mesmo quando falsas, têm maior probabilidade de ser partilhadas e acreditadas”. Nas redes sociais, este fenómeno traduz-se em viralidade — e Ventura sabe-o. As suas publicações mais extremas são também as mais amplificadas, o que lhe garante visibilidade mesmo fora do circuito informativo tradicional.

Pergunta retórica inevitável: como travar esta espiral?

Se a mentira se tornou método, a emoção substitui o argumento e a contradição vira táctica, como pode a democracia defender-se sem cair na armadilha de amplificar aquilo que combate?

A resposta não é simples. Exige vigilância informada, literacia mediática, responsabilização jornalística e investimento sustentado em jornalismo de investigação. Exige, sobretudo, que os media e os cidadãos recusem ser cúplices — ainda que involuntários — de uma estratégia pensada para minar o próprio conceito de verdade.

Conclusão: o preço da imitação

O Chega não inventou estas técnicas. Mas adoptou-as com eficácia perturbadora, traduzindo para o contexto português uma engenharia comunicacional testada noutras latitudes — com resultados devastadores.

A “mangueira de falsidades” não é só uma metáfora russa. É, cada vez mais, uma realidade portuguesa. E quanto mais tempo o sistema mediático e político fingir que se trata apenas de estilo ou retórica populista, mais difícil será restaurar os alicerces do discurso democrático.

Afinal, a mentira que escorre todos os dias pode até parecer inofensiva. Até ao dia em que já ninguém consegue encontrar o chão por onde anda.

🤔📣

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

“Liberdade para odiar?” — O Chega e a negação dos crimes de ódio no Código Penal português

Partilha
O debate em torno da criminalização dos chamados “crimes de ódio” voltou ao centro das atenções políticas e jurídicas em Portugal. E fê-lo, não por via do reforço da tutela penal sobre comportamentos discriminatórios, mas pela oposição aberta de um dos partidos mais vocalmente à direita: o Chega. Segundo a informação disponibilizada na sua página oficial, o partido liderado por André Ventura defende a não consagração dos crimes de ódio como tipo penal autónomo. Esta não é uma mera nuance jurídica: é um posicionamento ideológico estruturante, que valoriza a liberdade de expressão em detrimento da penalização de discursos e motivações consideradas discriminatórias. O partido entende que qualquer tentativa de criminalizar o “ódio” corre o risco de transformar o Código Penal num instrumento de censura ideológica.

Voto jovem fragmenta-se em seis meses: Chega afunda do 1º ao 5º lugar e a direita perde monopólio

Partilha
O Chega caiu de 30,1% para 12,5% entre eleitores dos 18 aos 34 anos. A direita mantém vantagem, mas já não tem dono no voto jovem.

Portugal e a Guerra em Gaza: Cúmplices, Neutros ou Corajosos?

Partilha
Entre o silêncio diplomático e a pressão popular, o Estado português mantém uma linha ambígua face à catástrofe humanitária em Gaza. A União Europeia hesita, e os partidos dividem-se. Há coragem política para chamar os factos pelo nome?