Democracia em risco? Porque Abril ainda importa em 2026 - Sociedade Civil
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Resumo

  • O 25 de Abril de 1974 derrubou a ditadura, acabou com a censura, abriu caminho ao fim da Guerra Colonial e permitiu construir uma democracia com eleições livres, partidos, imprensa plural, direitos fundamentais e Constituição.
  • desconfiança nos partidos, abstenção, percepção de corrupção, precariedade, crise da habitação, desigualdades territoriais, serviços públicos sob pressão e jovens que duvidam de conseguir viver melhor do que os pais.
  • Hoje, em muitos actos eleitorais, a abstenção é elevada e a política parece distante de parte da população.

O 25 de Abril de 1974 derrubou a ditadura, acabou com a censura, abriu caminho ao fim da Guerra Colonial e permitiu construir uma democracia com eleições livres, partidos, imprensa plural, direitos fundamentais e Constituição. Cinquenta anos depois, a pergunta já não é apenas o que Abril fez por Portugal. É outra, mais incómoda: o que está Portugal disposto a fazer pela democracia que herdou?
A liberdade política tornou-se tão normal que parece natural. Vota-se, protesta-se, critica-se o Governo, publica-se nas redes, lêem-se jornais, organizam-se partidos, fazem-se greves, discutem-se direitos. Mas nada disto é automático. Antes de Abril, muitas destas acções podiam ser proibidas, censuradas, vigiadas ou punidas.
A democracia não acaba apenas com tanques na rua. Também pode enfraquecer devagar, por dentro, quando os cidadãos deixam de confiar, participar, verificar, discutir e defender instituições comuns.
Abril não é só passado
O 25 de Abril é muitas vezes tratado como memória: cravos, canções, Salgueiro Maia, Largo do Carmo, senhas radiofónicas, multidões em Lisboa. Tudo isso importa. Mas Abril não é apenas património. É uma infra-estrutura invisível da vida quotidiana.
Está no jornal que publica uma investigação sem pedir autorização ao Estado. Está no cidadão que critica um ministro sem receio da polícia política. Está na mulher que vota, trabalha e se divorcia com direitos iguais. Está no trabalhador que faz greve. Está no estudante que aprende a ditadura como passado, não como presente. Está no tribunal que pode travar o poder. Está no partido da oposição que concorre para governar.
Abril importa porque a liberdade não vive nos monumentos. Vive no uso.
O risco da memória domesticada
Há uma forma confortável de celebrar Abril: repetir frases, cantar “Grândola”, colocar cravos na lapela e transformar a revolução numa cerimónia previsível. Esta memória tem valor, mas é insuficiente. Quando uma data se torna apenas ritual, perde capacidade de incomodar.
O 25 de Abril foi ruptura, não decoração. Derrubou um regime que censurava, prendia, vigiava e mandava jovens para uma guerra colonial. Recordá-lo sem falar de censura, PIDE/DGS, Guerra Colonial, presos políticos, pobreza, emigração e desigualdade é transformar História em postal.
Poderiam argumentar que insistir no passado divide o país. A resposta é simples: não é o passado que divide; é a sua falsificação. Uma democracia deve poder discutir a sua história com conflito, mas não com amnésia.
Populismo e desencanto
A democracia portuguesa enfrenta sinais de desgaste: desconfiança nos partidos, abstenção, percepção de corrupção, precariedade, crise da habitação, desigualdades territoriais, serviços públicos sob pressão e jovens que duvidam de conseguir viver melhor do que os pais.
Este desencanto é terreno fértil para discursos populistas. Quando a política parece incapaz de resolver problemas concretos, cresce a tentação de respostas simples: culpar minorias, atacar instituições, desacreditar jornalistas, reduzir a complexidade a inimigos e prometer autoridade rápida.
A crítica aos partidos é legítima. A indignação com salários baixos, rendas impossíveis ou serviços públicos degradados também. Mas uma coisa é exigir melhor democracia. Outra é desistir dela.
O Estado Novo também prometia ordem. O preço era silêncio.
Desinformação: a nova censura não usa lápis azul
Antes de Abril, a censura cortava notícias antes de chegarem aos leitores. Hoje, a ameaça à informação funciona muitas vezes ao contrário: não é a falta de mensagens, é o excesso manipulado delas. Mentiras, boatos, vídeos descontextualizados, falsas citações, propaganda emocional e campanhas coordenadas circulam a enorme velocidade.
A censura antiga escondia. A desinformação moderna confunde.
O resultado pode ser parecido: cidadãos menos capazes de distinguir factos de manipulação, mais desconfiados de tudo, mais vulneráveis a quem grita com mais força. Quando todos os factos parecem suspeitos, ganha quem tem mais recursos para inundar o debate.
A liberdade de expressão não dispensa responsabilidade informativa. Pelo contrário. Uma democracia com imprensa livre, mas sem literacia mediática, fica exposta a novas formas de intoxicação pública.
A abstenção como sinal de alarme
Depois da ditadura, votar era uma conquista. As primeiras eleições livres mobilizaram massivamente os portugueses. Hoje, em muitos actos eleitorais, a abstenção é elevada e a política parece distante de parte da população.
Não se deve tratar quem se abstém como ignorante ou preguiçoso. A abstenção pode expressar desinteresse, protesto, desconfiança, dificuldades práticas, afastamento social ou sentimento de que o voto não muda a vida. Mas deve preocupar.
Uma democracia sobrevive com conflito. Tem mais dificuldade em sobreviver com indiferença. Quando muitos deixam de participar, minorias organizadas ganham peso desproporcionado e o sistema perde ligação à sociedade.
O voto não resolve tudo. Mas sem voto, outros decidem por quem fica em casa.
Jovens: herdeiros sem memória directa
Os jovens nascidos depois de 2000 não têm memória da ditadura. Conhecem Abril pela escola, pela família, pelos media e pelas redes sociais. Para eles, a liberdade pode parecer paisagem natural.
O desafio não é culpá-los por não terem vivido o que não podiam viver. É explicar melhor. Falar de Abril em linguagem que ligue passado e presente: censura e redes sociais; PIDE e vigilância; Guerra Colonial e racismo; emigração “a salto” e precariedade; salário mínimo e trabalho digno; habitação precária antes e crise da habitação hoje.
A memória democrática não passa sozinha de geração em geração. Tem de ser ensinada, discutida e actualizada.
Direitos conquistados também podem recuar
Uma das ilusões mais perigosas é acreditar que os direitos, depois de conquistados, ficam garantidos para sempre. A História mostra o contrário. Liberdades podem ser restringidas em nome da segurança. Minorias podem ser atacadas em nome da maioria. Jornalistas podem ser intimidados em nome do “povo”. Tribunais podem ser pressionados em nome da eficácia. Escolas podem ser usadas para doutrinação em nome da tradição.
Abril não vacinou Portugal contra todos estes riscos. Deu-lhe instituições para os enfrentar.
A Constituição, os tribunais, a imprensa livre, os partidos, as autarquias, os sindicatos, as associações e os cidadãos activos são barreiras. Mas barreiras abandonadas enferrujam.
Democracia também é vida material
Defender Abril não pode significar apenas defender símbolos. A democracia precisa de responder à vida concreta. Um jovem que trabalha e não consegue pagar casa, uma família sem médico de família, um trabalhador pobre, um idoso isolado, um estudante sem quarto, um imigrante explorado, um cidadão do interior sem transportes — todos vivem a democracia a partir das suas condições materiais.
Se a liberdade política não se traduzir em dignidade, a promessa democrática perde força. O Estado Novo não deve ser romantizado por causa das falhas do presente, mas o presente também não deve esconder-se atrás de Abril para evitar responsabilidades.
Celebrar a democracia exige melhorá-la. Caso contrário, a memória transforma-se em álibi.
O que o cidadão pode fazer
A defesa da democracia não pertence apenas a políticos, tribunais ou jornalistas. Começa em actos comuns: votar, informar-se em fontes credíveis, desconfiar de conteúdos manipulados, participar em associações, exigir contas ao poder local e nacional, respeitar adversários, defender direitos de minorias e distinguir crítica legítima de ataque às regras do jogo.
Também passa por conversar com quem pensa diferente. A democracia não exige unanimidade. Exige que o conflito não destrua o espaço comum.
Antes de Abril, discordar podia ser perigoso. Hoje, o perigo é esquecer como discordar sem desumanizar.
Porque Abril ainda importa em 2026
Abril importa em 2026 porque há sempre quem prefira uma democracia cansada a uma democracia exigente. Há quem use a liberdade para atacar as bases da liberdade. Há quem confunda autoridade com autoritarismo, ordem com silêncio, povo com unanimidade, crítica com traição.
O 25 de Abril não deve ser usado como propriedade de um partido, de uma geração ou de uma família ideológica. É património democrático comum, embora nascido de uma luta concreta contra uma ditadura concreta.
A melhor forma de honrar Abril não é repetir que a liberdade é bonita. É usá-la com responsabilidade: votar, fiscalizar, protestar, estudar, informar, discordar, proteger os mais vulneráveis e recusar nostalgias autoritárias.
A democracia portuguesa não está condenada ao declínio. Mas também não está garantida por decreto.
Abril abriu a porta. Cada geração decide se a mantém aberta.

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