Resumo
- No Portugal cinzento da ditadura, onde a moral católica ditava papéis rígidos para homens e mulheres, houve quem rompesse o silêncio e enfrentasse o medo — mesmo com tudo contra si.
- Centenas de mulheres participaram activamente na resistência ao Estado Novo, desafiando a censura, a repressão e o modelo patriarcal imposto por Salazar.
- Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, combateu o analfabetismo, defendeu os direitos das trabalhadoras e alertou para a situação das mulheres rurais com As Mulheres do Meu País (1948) — obra de investigação e denúncia social que o regime tentou silenciar.
No Portugal cinzento da ditadura, onde a moral católica ditava papéis rígidos para homens e mulheres, houve quem rompesse o silêncio e enfrentasse o medo — mesmo com tudo contra si. Centenas de mulheres participaram activamente na resistência ao Estado Novo, desafiando a censura, a repressão e o modelo patriarcal imposto por Salazar. Foram presas, perseguidas, exiladas. Mas não caladas.
A polícia política do regime — a temida PIDE — não fazia distinções quando sentia o poder da desobediência. E se é verdade que a maioria dos detidos políticos eram homens, também é verdade que muitas mulheres pagaram um preço elevado por ousarem pensar, organizar, escrever, educar ou amar de forma livre.
Entre a prisão e o papel de mãe: um duplo castigo
Para muitas, a repressão assumiu uma violência específica. “Não nos prendiam só por militância — prendiam-nos por sermos mulheres que não obedeciam ao papel que nos estava reservado”, explica a investigadora Helena Santos, autora de um estudo sobre mulheres presas políticas entre 1933 e 1974.
As celas femininas de Caxias acolheram dezenas de resistentes. Algumas grávidas. Outras com filhos pequenos que ficaram sem mãe durante meses ou anos. A pressão psicológica era redobrada. As torturas, adaptadas ao género: humilhações sexuais, chantagem com os filhos, isolamento prolongado.
Maria Lamas, a pioneira incansável
Figura ímpar da luta pela emancipação feminina e pelos direitos cívicos, Maria Lamas (1893–1983) foi escritora, jornalista, tradutora e activista. Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, combateu o analfabetismo, defendeu os direitos das trabalhadoras e alertou para a situação das mulheres rurais com As Mulheres do Meu País (1948) — obra de investigação e denúncia social que o regime tentou silenciar.
Vigiada pela PIDE, foi detida, interrogada e impedida de exercer funções públicas. Mesmo assim, continuou a publicar, a traduzir obras feministas e a dar voz às que não tinham voz.
Catarina Eufémia, símbolo da luta operária
Morta a tiro por um tenente da GNR em 1954, aos 26 anos, Catarina Eufémia tornou-se símbolo da resistência camponesa no Alentejo. Trabalhadora rural e mãe de três filhos, foi assassinada em plena jornada de protesto por melhores salários.
A sua morte foi abafada pela imprensa, mas ecoou no país e no estrangeiro. A memória de Catarina foi recuperada pelo movimento antifascista e pelas artes: poemas, murais, canções e marchas evocam o seu nome como metáfora viva da resistência.
Sophia de Mello Breyner, palavra como combate
Embora não tenha sido presa, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) usou a sua obra poética como acto de resistência. Nos anos 60 e 70, foi uma das vozes mais activas na denúncia da repressão e na defesa da liberdade.
A sua poesia recusa a neutralidade estética. “Vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar”, escreveu num dos seus textos mais emblemáticos. Colaborou com movimentos cívicos, manifestos de oposição e foi deputada à Assembleia Constituinte após o 25 de Abril.
Outras vozes que desafiaram o silêncio
Júlia Correia, operária têxtil presa por actividades sindicais. Maria Alda Nogueira, professora e militante do PCP, detida durante mais de uma década. Zita Seabra, activista e dirigente estudantil, vigiada pela PIDE. Maria Isabel Aboim Inglês, pedagoga que desafiou o sistema de ensino com ideias progressistas.
Estas e muitas outras mulheres não cabem nos livros escolares nem nas estátuas públicas. Mas sem elas, a luta contra o Estado Novo seria incompleta. Foram clandestinas, editoras, transportadoras de panfletos, portadoras de mensagens cifradas, professoras de liberdade.
Legado de coragem e pedagogia urgente
Hoje, o reconhecimento do papel das mulheres na resistência continua a ser desigual. Os nomes masculinos dominam os arquivos, os discursos, os memoriais. Mas a História começa a corrigir essa omissão. Projectos como o Memória das Mulheres na Resistência procuram recolher testemunhos, reconstruir percursos, devolver protagonismo.
Para as gerações mais novas, conhecer estas mulheres é essencial. Não apenas para honrar o passado, mas para perceber que a liberdade — como a igualdade — não foi um presente. Foi conquistada. Com sacrifício, inteligência e coragem.