Palantir alimenta ICE, hospitais NHS e ataques em Gaza - Sociedade Civil
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Resumo

  • a deportação de imigrantes nos Estados Unidos, a gestão de dados clínicos no NHS britânico e o apoio operacional a estruturas militares e de segurança.
  • Os dois fazem o que a indústria chama fusão de dados — pegam em registos dispersos, transformam-nos em rede pesquisável e produzem aquilo a que a Palantir chama ontologia, um modelo de relações entre pessoas, objetos e eventos.
  • Em abril de 2025, o Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos assinou um contrato de 29,8 milhões de dólares com a Palantir para desenvolver o ImmigrationOS, sistema de rastreio de imigrantes sem documentos.

A empresa fundada por Peter Thiel e Alex Karp tornou-se infraestrutura simultânea de três frentes — imigração nos Estados Unidos, dados clínicos no Reino Unido, operações militares em Israel. O motor analítico é o mesmo; mudam os operadores.

A Palantir Technologies opera em três frentes em simultâneo: a deportação de imigrantes nos Estados Unidos, a gestão de dados clínicos no NHS britânico e o apoio operacional a estruturas militares e de segurança. O software é apresentado com nomes diferentes, mas assenta na mesma lógica.

Foundry serve usos comerciais e civis. Gotham serve defesa e intelligence. Os dois fazem o que a indústria chama fusão de dados — pegam em registos dispersos, transformam-nos em rede pesquisável e produzem aquilo a que a Palantir chama ontologia, um modelo de relações entre pessoas, objetos e eventos. Aplicada a um hospital, gere camas. Aplicada a uma cidade fronteiriça, apoia detenções.

O contrato ICE

Em abril de 2025, o Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos assinou um contrato de 29,8 milhões de dólares com a Palantir para desenvolver o ImmigrationOS, sistema de rastreio de imigrantes sem documentos. Organizações de direitos humanos classificaram-no como infraestrutura de vigilância e risco para direitos fundamentais.

Pelo verão de 2025, as redes sociais americanas encheram-se de imagens de agentes mascarados a deter pessoas na rua e a empurrá-las para carrinhas descaracterizadas. O ImmigrationOS faz a parte invisível desse processo: cruza dados dispersos para apoiar prioridades de fiscalização. Decide, por aproximação algorítmica, quem entra primeiro no radar.

O caso NHS

Do outro lado do Atlântico, o NHS britânico adjudicou à Palantir um contrato de até 330 milhões de libras para a Federated Data Platform, em novembro de 2023. A contestação interna cresceu. A campanha “No Palantir in the NHS”, apoiada por organizações de direitos digitais e profissionais de saúde, pediu a rescisão do contrato.

A Palantir diz não ter interesse nos dados clínicos britânicos. A defesa é relevante, mas insuficiente para os críticos. O debate não é apenas sobre quem lê os dados. É sobre dependência tecnológica: quem desenha a infraestrutura que torna esses dados pesquisáveis, cruzáveis e acionáveis.

A terceira frente

A última frente é a mais difícil de documentar e a mais grave. A Palantir está em Israel há anos e expandiu o seu envolvimento estratégico após 7 de outubro de 2023. Investigações da imprensa internacional e registos do OECD AI Incidents Monitor descrevem o uso de sistemas da empresa por agências militares e de segurança em contextos com impacto letal.

O registo da OCDE não equivale a uma sentença nem a posição oficial dos Estados-membros. É uma base de incidentes construída a partir de informação pública. Ainda assim, a sua inclusão mostra que o tema saiu da esfera da suspeita e entrou na documentação internacional sobre danos de IA.

A ferramenta diz-se neutra

A pergunta óbvia é se uma empresa pode separar com clareza o uso civil do uso militar do mesmo software. A resposta institucional da Palantir é que cada cliente é responsável pela utilização que faz. A resposta dos críticos é técnica: o motor é o mesmo, a arquitetura é a mesma, o que muda é quem aperta o botão.

Esta tese vai ser testada nos tribunais europeus, em parlamentos e em sistemas públicos que começam a perceber que contratar software pode significar contratar uma forma de governar.

A neutralidade do software é a forma moderna de não escolher lado.

Fontes

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