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Resumo

  • A guerra, os bombardeamentos massivos sobre civis, a destruição sistemática de infraestruturas essenciais, como hospitais, escolas e abrigos da ONU, são factos documentados e denunciados por organizações como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e as próprias Nações Unidas.
  • Enquanto milhões de ucranianos foram recebidos com bandeiras, vistos acelerados e discursos inflamados sobre a defesa da democracia, os palestinianos continuam a ser tratados como um “problema de segurança”.
  • Um ciclo de impunidade, onde a violência de um Estado é sistematicamente justificada como “autodefesa”, enquanto a resistência do povo ocupado é rotulada de “terrorismo”.

O silêncio do Ocidente perante o sofrimento em Gaza não é um erro estratégico — é um colapso ético. A guerra, os bombardeamentos massivos sobre civis, a destruição sistemática de infraestruturas essenciais, como hospitais, escolas e abrigos da ONU, são factos documentados e denunciados por organizações como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e as próprias Nações Unidas. No entanto, as reacções dos governos ocidentais têm oscilado entre o apoio incondicional a Israel e o mais frio dos calculismos diplomáticos. Onde está a coerência com os valores universais que estes mesmos Estados proclamam defender?

A discrepância entre a reacção à invasão da Ucrânia pela Rússia e à ofensiva israelita sobre Gaza é gritante. Enquanto milhões de ucranianos foram recebidos com bandeiras, vistos acelerados e discursos inflamados sobre a defesa da democracia, os palestinianos continuam a ser tratados como um “problema de segurança”. Porquê esta diferença? Porque o sofrimento ucraniano encaixa no imaginário ocidental de vítimas “parecidas connosco”. Os palestinianos, por outro lado, são racializados, desumanizados, reduzidos a números ou a “danos colaterais”. O que isto diz sobre nós?

Holocausto como blindagem moral?

O trauma europeu do Holocausto moldou, com justiça, a consciência histórica ocidental. Contudo, esse mesmo trauma tornou-se, em muitos discursos, um escudo que protege Israel de qualquer crítica, mesmo quando as suas acções contrariam os princípios mais básicos do direito internacional. Esta instrumentalização da memória é perigosa. Lembrar o genocídio nazi não pode significar calar perante crimes contemporâneos. Honrar as vítimas do passado exige coerência moral no presente. Como aceitar que o mesmo continente que jurou “nunca mais” assista em silêncio à morte de milhares de crianças palestinianas?

A arquitetura da seletividade

A seletividade ética ocidental não surge do nada. Está assente numa complexa teia de interesses estratégicos, lobbies políticos e modelos mentais profundamente enraizados. Israel é um aliado militar, tecnológico e ideológico dos EUA e da União Europeia. Possui um dos lobbies mais influentes nos parlamentos e media ocidentais. Essa influência molda não só políticas, mas também narrativas. O resultado? Um ciclo de impunidade, onde a violência de um Estado é sistematicamente justificada como “autodefesa”, enquanto a resistência do povo ocupado é rotulada de “terrorismo”.

Os meios de comunicação têm aqui um papel central. Ao silenciar vozes críticas, repetir clichés de segurança e ignorar testemunhos no terreno, contribuem para um quadro de realidade amputado. O espectador médio europeu ou norte-americano é informado de que Israel está sob ameaça, mas raramente de que Gaza está sob ocupação e cerco há mais de 15 anos. As palavras contam: dizer “conflito” em vez de “ocupação”, “escalada” em vez de “massacre”, “morte de civis” em vez de “assassinato de crianças” é uma forma de moldar consciências.

Racismo estrutural ou apenas geopolítica?

É tentador atribuir tudo à geopolítica. E, de facto, interesses militares, acesso a tecnologia de vigilância e influência estratégica no Médio Oriente explicam muito. Mas não tudo. A verdade é desconfortável: há uma hierarquia implícita de vidas humanas no discurso e nas práticas ocidentais. A empatia mediática e política é distribuída com base na cor da pele, na religião e na geografia. Gaza é vista como um espaço de caos, onde a morte é quase inevitável. Kyiv, como um bastião de civilização ameaçado por bárbaros. Esta assimetria revela uma matriz racista e colonial que permanece viva.

É por isso que tantos activistas, académicos e cidadãos comuns denunciam o que chamam de “apartheid da empatia”. A mesma dor não vale o mesmo. O mesmo sangue derramado não merece as mesmas lágrimas. A mesma criança morta não gera a mesma indignação.

Descer a escada da inferência

A crítica ao Ocidente não deve cair na armadilha de simplificações. Nem todo o apoio a Israel é racista; nem todo o silêncio é conivência consciente. Mas é essencial questionar os pressupostos que sustentam esta seletividade moral. Porquê tanta pressa em armar a Ucrânia e tanta relutância em impor sanções a Israel? Porque se criminalizam boicotes pacíficos a empresas israelitas, enquanto se celebram sanções à Rússia? Porque se permite que os media repitam, sem questionar, versões oficiais israelitas, mesmo quando contradizem os factos no terreno?

Descer a escada da inferência — modelo proposto por Chris Argyris — obriga-nos a rever os dados, questionar as interpretações, desafiar as crenças. O problema não é apenas o que se pensa, mas como se chega a pensar assim. O Ocidente precisa urgentemente de fazer esse exercício de autoconsciência.

Um apelo à coerência

Se os direitos humanos são, de facto, universais, então não podem ser condicionados por afinidades estratégicas ou simpatias culturais. Se a liberdade é um valor inegociável, então não pode ser negada a quem nasceu do lado errado do muro. Se a solidariedade internacional tem algum significado, então deve estender-se a todos os povos sob ocupação, sob cerco, sob fogo.

A crise em Gaza não é apenas uma tragédia humanitária. É um espelho. Nele reflecte-se o Ocidente, não como defensor de valores, mas como arquitecto de excepções. Um sistema que permite massacres em nome da segurança, que censura vozes críticas em nome do equilíbrio, que ignora a dor do outro em nome da estabilidade, é um sistema que perdeu a sua alma.

É tempo de a recuperar.

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