Resumo
- Não é a primeira vez que movimentos da sociedade civil tentam quebrar bloqueios e chamar a atenção do mundo.
- Ignorar o valor simbólico da flotilha é ignorar a própria história recente de Portugal, que já esteve do lado da coragem.
- Como pode o Governo falar em “catástrofe humanitária” e, ao mesmo tempo, virar as costas a quem tenta levar alimentos e medicamentos a Gaza.
Portugal virou as costas a Gaza. Paulo Rangel pode esconder-se atrás do direito internacional, mas a verdade é esta: quando vidas humanas estão em risco, a neutralidade é omissão. E a omissão, neste caso, é cumplicidade.
O ministro dos Negócios Estrangeiros declarou que o Estado “não tem nada que proteger, nem acompanhar” na Flotilha Global Sumud. Frase fria, burocrática, mas reveladora: Portugal decidiu que não vale a pena assumir posição firme perante um dos maiores desastres humanitários do nosso tempo.
O peso da história
Não é a primeira vez que movimentos da sociedade civil tentam quebrar bloqueios e chamar a atenção do mundo. O apartheid caiu também graças à pressão de cidadãos comuns. Timor-Leste resistiu porque houve quem ousasse desafiar a indiferença internacional. Ignorar o valor simbólico da flotilha é ignorar a própria história recente de Portugal, que já esteve do lado da coragem.
Espanha mostra coragem, Portugal refugia-se
Enquanto Madrid se comprometeu a proteger diplomatas e cidadãos espanhóis envolvidos na missão, Lisboa esconde-se atrás de notas multilaterais. Resultado: Portugal surge como o parceiro tímido da União Europeia, aquele que assina comunicados mas nunca se arrisca a ir além da retórica.
Como pode o Governo falar em “catástrofe humanitária” e, ao mesmo tempo, virar as costas a quem tenta levar alimentos e medicamentos a Gaza? A contradição é gritante.
O silêncio que protege Israel
Rangel recusa usar a palavra “genocídio”. Prefere expressões brandas, técnicas, asséticas. Mas cada palavra importa. Evitar a palavra certa serve, no fundo, para não incomodar Israel e para preservar relações diplomáticas. Não é prudência: é cálculo político à custa de milhares de vidas.
Partidarizar a tragédia
Em vez de responder ao drama humanitário, o ministro preferiu acusar PS e Bloco de “populismo”. É a fuga mais fácil: transformar uma questão de direitos humanos em guerrilha partidária. Mas não foi o BE nem o PS que lançaram bombas sobre Gaza. A verdadeira pergunta é: que papel deve Portugal desempenhar quando a fome é usada como arma de guerra?
A escolha errada
Três cidadãos portugueses, entre eles uma deputada, arriscaram a vida para denunciar o bloqueio. Não pediram que o Estado liderasse a missão. Pediram apenas que não os deixasse sozinhos. O Governo respondeu com frieza e desdém.
Portugal tinha algo a proteger: a sua credibilidade internacional. Ao virar costas à flotilha, Paulo Rangel não defendeu o país de riscos jurídicos. Enterrou-o no pântano da irrelevância.