Fernando Alexandre residências universitárias: quando o poder volta a culpar os pobres - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • Na cerimónia sobre ação social no ensino superior, em Lisboa, o ministro avisou que as residências agora renovadas “daqui a cinco anos vão estar todas degradadas” e ligou essa degradação ao facto de estarem ocupadas por estudantes de meios mais desfavorecidos, estendendo a ideia a hospitais e escolas públicas.
  • um ministro da Educação não pode falar dos estudantes pobres como fator de risco para a degradação de edifícios, mesmo que depois envolva a frase em notas de rodapé sobre modelos de gestão.
  • Cerca de duas dezenas de estruturas estudantis sublinharam que a degradação das residências resulta do “subfinanciamento crónico da ação social” e da ausência de uma estratégia consistente de investimento e manutenção.

As declarações de Fernando Alexandre sobre residências universitárias e “pessoas de rendimentos mais baixos” não são um deslize menor, nem apenas “frases descontextualizadas”. São a verbalização, crua, de uma visão do serviço público onde a pobreza aparece como risco e não como prioridade. Na cerimónia sobre ação social no ensino superior, em Lisboa, o ministro avisou que as residências agora renovadas “daqui a cinco anos vão estar todas degradadas” e ligou essa degradação ao facto de estarem ocupadas por estudantes de meios mais desfavorecidos, estendendo a ideia a hospitais e escolas públicas. 

A polémica não nasceu por acaso: nasceu porque muita gente reconheceu naquele discurso um preconceito antigo, que conhece bem.

O que está mesmo em causa nas palavras de Fernando Alexandre

O problema não é só a frase “quando metemos pessoas de rendimentos mais baixos a beneficiar do serviço público, sabemos que se deteriora”. O problema é a lógica que ela revela: os serviços públicos degradam-se porque são usados pelos que têm menos voz, não porque o Estado deixa de investir, fiscalizar e manter. 

Horas depois, o ministro tentou corrigir o tiro. Disse ser “totalmente falso” que tivesse responsabilizado os alunos carenciados e explicou que falava de gestão e subfinanciamento quando os serviços ficam “apenas com pessoas que não têm voz”.  A pirueta semântica não apaga, porém, o essencial: quem está no Governo sabe que cada palavra conta. E sabe, ou devia saber, que repetir em público a associação “pobres → serviços degradados” reforça exatamente o estigma que diz querer combater.

É aqui que a crítica tem de ser frontal: um ministro da Educação não pode falar dos estudantes pobres como fator de risco para a degradação de edifícios, mesmo que depois envolva a frase em notas de rodapé sobre modelos de gestão.

Os estudantes respondem: não é falta de dinheiro, são as paredes que caem

Enquanto o país discutia as “intenções” do ministro, as associações de estudantes lembraram aquilo que vivem todos os dias: quartos com infiltrações, cozinhas sem condições, casas de banho a precisar de obras há anos. Cerca de duas dezenas de estruturas estudantis sublinharam que a degradação das residências resulta do “subfinanciamento crónico da ação social” e da ausência de uma estratégia consistente de investimento e manutenção. 

Pensemos numa cena banal. A Joana, 19 anos, primeira geração da família a chegar à universidade, entra num quarto onde o aquecedor não funciona e a janela não fecha bem. O teto tem manchas de humidade antigas. O roupeiro emperra. A direção da residência sabe, o relatório de inspeção também, o orçamento é que nunca chega. Anos depois, alguém olha para o edifício degradado e conclui: “é o que acontece quando estão lá só alunos pobres”. Não é ficção; é assim que o preconceito se alimenta da negligência.

Sim, Fernando Alexandre tem razão numa coisa: quando os serviços públicos passam a ser vistos como solução “para pobres”, a pressão política para os manter em bom estado diminui. Mas ao dizer isso sem sublinhar, em cada frase, que o problema é o abandono político e financeiro – não quem lá vive – o ministro dispara para o alvo errado. Pobres, não são eles o problema; é o modo como o Estado decide tratá-los.

Entre a “geração rasca” e as escolas em ruínas

Portugal conhece bem esta música. Nos anos 90, um editorial baptizou os estudantes de “geração rasca”, transformando um protesto estudantil num problema de carácter de toda uma geração.  Hoje, o risco é semelhante: trocar um debate sério sobre habitação estudantil, desigualdade e investimento público por mais um rótulo sobre quem nasceu com menos.

Ao mesmo tempo, o próprio Governo anuncia 850 milhões de euros para requalificar 237 escolas, no âmbito de um plano mais vasto que abrange 451 estabelecimentos, com obras previstas entre 2026 e 2029.  A mensagem implícita é clara: a rede escolar está degradada sobretudo por falta de investimento acumulado. Ninguém sugeriu que as escolas estão em ruínas porque foram frequentadas por alunos pobres. Porque seria absurdo.

Então por que razão, quando falamos de residências universitárias, o discurso desliza tão facilmente para a ideia de que o problema está em “colocar lá” estudantes desfavorecidos? A resposta é incómoda: porque continua socialmente aceitável insinuar que os pobres estragam o que é público, em vez de admitir que o Estado falhou em protegê-lo.

“Foi mal interpretado”? A responsabilidade de quem governa

Alguém poderá perguntar: não estará a crítica a ser excessiva? Não terá o ministro apenas explicado, de forma desastrada, que os serviços usados por grupos com menos poder político costumam ser os primeiros a sofrer cortes? A dúvida é legítima.

Mas um ministro da Educação tem recursos, equipa e tempo para escolher melhor as palavras – e para reconhecer, sem rodeios, quando erra. Em vez disso, Fernando Alexandre preferiu dizer que foi mal interpretado, apesar de as suas frases estarem gravadas e transcritas.  É um padrão conhecido: quando a realidade incomoda, culpa-se o mensageiro, seja o jornalismo, sejam os adversários políticos.

Concedamos, ainda assim, o óbvio: a ideia de misturar estudantes de diferentes estratos sociais nas residências é defensável e até desejável; combater guetos de pobreza é parte de qualquer política de igualdade séria. O problema não é esse. O problema é fazê-lo à custa de repetir um imaginário em que os pobres “estragam” o que tocam.

Democracia não rima com culpa de pobres

Quando sindicatos como a Fenprof classificam estas declarações de “profundamente graves” e “inaceitáveis num Estado democrático comprometido com a igualdade de oportunidades”, não estão a exagerar – estão a lembrar o óbvio: a forma como falamos de quem tem menos diz tudo sobre a qualidade da nossa democracia. 

Num país onde tantos estudantes ainda desistem de estudar por não conseguirem pagar rendas, passes e manuais, ouvir o ministro da Educação falar das residências em termos que soam a desconfiança social é mais do que um erro de comunicação. É um sinal político.

Porque, no fim, a questão é simples: ou assumimos que residências universitárias, escolas e hospitais são pilhas de tijolo que os pobres desgastam, ou percebemos que são um compromisso coletivo – e que se degradam quando quem governa decide, explicitamente ou por omissão, que não vale a pena cuidar deles.

Quando quem manda culpa os pobres pelas paredes que caem, é a própria democracia que começa a rachar.

You May Also Like

O Efeito Colateral da Crítica: Como a Imprensa Ajudou o Chega

Partilha
Partilha Resumo Cada debate televisivo acalorado, cada título de jornal com frases…