Resumo
- Este mapeamento — baseado em fontes abertas, investigações jornalísticas e relatórios de segurança — revela um continente em que a extrema-direita armada deixou de ser uma relíquia do passado para se tornar uma ameaça bem organizada e transnacional.
- Apesar de várias proibições, ressurgem com novas siglas e estruturas, mantendo a lógica do confronto físico e da limpeza étnica “espiritual”.
- A Bulgária apresenta o caso do grupo Vazrazhdane, ligado a estruturas russas e com treino documentado em zonas remotas.
Uma rede em expansão, com ideologias convergentes, símbolos partilhados e métodos importados. Eis os principais grupos paramilitares de extrema-direita activos na Europa.
Já não se escondem. Desde os arredores de Lisboa até às florestas da Finlândia, multiplicam-se grupos que combinam estética militar, discursos supremacistas e preparação para o conflito. São milícias neonazis, muitas vezes legalmente registadas como associações cívicas ou culturais, mas cuja acção concreta reflecte uma agenda belicista e anti-democrática.
Este mapeamento — baseado em fontes abertas, investigações jornalísticas e relatórios de segurança — revela um continente em que a extrema-direita armada deixou de ser uma relíquia do passado para se tornar uma ameaça bem organizada e transnacional.
Portugal: discreto mas presente
Em território português, a acção das milícias neonazis tem sido mais discreta, mas não inexistente. Grupos como o Escudo Identitário ou células da Nova Ordem Social já foram alvo de operações policiais, com apreensões de armamento ilegal, literatura de ódio e provas de contactos com organizações estrangeiras.
Investigadores da Universidade do Minho alertam para a radicalização online como principal via de recrutamento. “Há uma geração que vive na sombra digital, absorve ideologia sem filtros e se prepara para a acção, mesmo que simbólica”, diz o professor Luís Nunes.
França, Alemanha e os bastiões históricos
Na Alemanha, o movimento Der Dritte Weg (O Terceiro Caminho) combina nostalgia nazi com actividades paramilitares. Organiza marchas, treinos de sobrevivência e acções de propaganda racial. A polícia alemã desmontou em 2024 um esquema de treino conjunto com ex-soldados do KSK (unidade de elite).
Em França, os Zouaves Paris e o Bastion Social actuam como braços musculados de uma extrema-direita jovem e violenta. Apesar de várias proibições, ressurgem com novas siglas e estruturas, mantendo a lógica do confronto físico e da limpeza étnica “espiritual”.
Europa Central: o novo epicentro
Hungria e Eslováquia tornaram-se centros nevrálgicos do neonazismo armado. A Légió Hungária realiza acampamentos anuais com treinos de combate, marchas ritualizadas e discursos abertamente racistas. O partido ĽSNS, embora fora do parlamento, continua a apoiar iniciativas paramilitares locais.
A Bulgária apresenta o caso do grupo Vazrazhdane, ligado a estruturas russas e com treino documentado em zonas remotas. Na Polónia, a Falanga actua como ponte entre catolicismo ultraconservador e nacionalismo armado.
Países Nórdicos: o choque do Norte
A Escandinávia não está imune. Na Finlândia e Suécia, o Nordic Resistance Movement representa a face mais organizada e ideologicamente dura do neonazismo contemporâneo. Usa uniformes, organiza patrulhas e já foi associado a ataques violentos contra minorias e jornalistas.
Apesar de proibido na Finlândia, continua activo online e através de associações satélite. Um dos seus membros cometeu um homicídio em Helsínquia, levando as autoridades a reavaliar os critérios de monitorização.
Conexões e rede europeia
Estes grupos não operam isoladamente. Há encontros anuais — como o Shield and Sword Festival na Alemanha ou acampamentos na Eslováquia — onde partilham estratégias, formam alianças e constroem um imaginário comum. O símbolo Black Sun, runas germânicas e slogans como “Europa Branca” surgem em diversas geografias.
Canais no Telegram, fóruns fechados e redes como Odysee ou VK (plataforma russa) mantêm a ligação constante entre núcleos dispersos. A ideologia é transnacional, apesar das variações locais: anti-imigração, culto da violência, revisionismo histórico e desprezo pela democracia liberal.
Um mapa em construção
O que emerge deste levantamento é uma Europa vulnerável a um fenómeno que já não pode ser tratado como marginal. A militância neonazi armada evoluiu, adaptou-se ao século XXI e sabe usar tanto a floresta como o servidor.
Responder a esta ameaça requer vigilância integrada, políticas de prevenção, cooperação judicial e, sobretudo, coragem política para nomear o problema.
Enquanto isso, de Lisboa a Helsínquia, as botas marcham — discretas, mas decididas.