Resumo
- O vídeo, partilhado milhares de vezes, reacende o debate sobre o “choque de culturas” na Europa.
- “Estamos a assistir a uma guerra sem quartel pelo controlo do imaginário social”, afirma João Gouveia, perito em ética da IA na Universidade do Minho.
- O estudo revela que plataformas como X, Telegram e TikTok são particularmente vulneráveis à difusão destes conteúdos, seja por falta de moderação eficaz, seja por algoritmos que favorecem o choque emocional.
Investigação revela uso crescente de tecnologias automatizadas por redes radicais — vídeos falsos, segmentação emocional e microtargeting agravam polarização.
Uma mulher muçulmana é filmada a rir-se durante um funeral cristão. O vídeo, partilhado milhares de vezes, reacende o debate sobre o “choque de culturas” na Europa. Só que o vídeo é falso — uma montagem produzida com inteligência artificial, sem base na realidade. Este é apenas um entre centenas de exemplos documentados por uma nova investigação europeia que traça o mapa digital da manipulação populista.
O relatório, coordenado pelo European Digital Media Observatory (EDMO), revela como a extrema-direita está a sofisticar os seus métodos: bots que simulam debate, algoritmos que amplificam conteúdos polarizadores e deepfakes criados para gerar indignação ou medo. A tecnologia, longe de ser neutra, tornou-se arma política.
A máquina da manipulação
Na Hungria, páginas geridas por redes anónimas difundem montagens em que opositores políticos aparecem a insultar o povo. Em Itália, perfis falsos replicam em massa mensagens com “fatos” distorcidos sobre imigração e criminalidade. Em França, um vídeo viral com Macron a elogiar um partido neonazi circulou durante dias antes de ser desmentido.
“Estamos a assistir a uma guerra sem quartel pelo controlo do imaginário social”, afirma João Gouveia, perito em ética da IA na Universidade do Minho. “A extrema-direita percebeu que, com IA generativa, pode criar emoções à medida do seu público-alvo — e fazer parecer autêntico o que é fabricado.”
O estudo revela que plataformas como X, Telegram e TikTok são particularmente vulneráveis à difusão destes conteúdos, seja por falta de moderação eficaz, seja por algoritmos que favorecem o choque emocional.
Segmentação para o medo
Outro dos mecanismos identificados é o microtargeting emocional: anúncios políticos, pagos ou disfarçados, que exploram ansiedades individuais — medo do desemprego, insegurança nas cidades, declínio cultural — com mensagens adaptadas ao perfil psicológico de cada utilizador.
“Trata-se de uma nova forma de propaganda, invisível, mas extremamente eficaz”, explica Helena Mártires, investigadora em comunicação política. “Os utilizadores não têm consciência de que estão a ser manipulados — e isso é o mais perigoso.”
A extrema-direita usa também modelos de linguagem (semelhantes ao ChatGPT) para gerar comentários automáticos que dão a ilusão de consenso popular. Em fóruns e caixas de comentários, estes textos repetem argumentos simplistas com aparência de espontaneidade.
Que fazer?
Perante esta realidade, os especialistas apelam à regulação urgente, mas também à capacitação cidadã. O AI Act, aprovado este ano pelo Parlamento Europeu, estabelece limites ao uso de IA para manipulação política, mas ainda enfrenta dificuldades na aplicação concreta.
“As empresas tecnológicas não podem continuar a lucrar com a destruição da esfera pública”, afirma João Gouveia. “Precisamos de auditorias obrigatórias, transparência algorítmica e rastreabilidade das campanhas digitais.”
Mas a batalha não é só institucional. Organizações como a AI for Democracy e a Coalition for Ethical Tech propõem iniciativas de verificação cívica, formação para literacia digital e o desenvolvimento de ferramentas anti-deepfake acessíveis a todos.
Como recorda Mártires: “A tecnologia é apenas um espelho das escolhas humanas. Cabe-nos decidir se queremos uma democracia aumentada pela inteligência artificial — ou destruída por ela.”