Resumo
- Termos como “nós”, “os nossos” e “o povo de verdade” deixam de designar a comunidade cívica definida pela Constituição e passam a ser marcas de pertença étnica implícita.
- Esta lógica de insinuar sem demonstrar — de deixar a audiência concluir que um nome diferente equivale a um privilégio ilícito — é uma forma de retórica racista.
- E quando um deputado diz que são “zero portugueses”, está a negar não apenas a cidadania legal dessas crianças, mas a própria possibilidade de pertencerem a um nós comum.
No plenário da Assembleia da República, André Ventura atirou a frase como um dardo: “Eles são zero portugueses.” O alvo eram crianças com nomes que não soavam ao imaginário lusitano dominante. A afirmação não era um deslize. Era um acto deliberado de definição simbólica: traçar uma fronteira entre quem é considerado “nós” e quem é colocado no cesto dos “outros”.
A gramática da exclusão — tal como tem sido cultivada pelo Chega — reconfigura palavras quotidianas para servir um projecto identitário radical. Termos como “nós”, “os nossos” e “o povo de verdade” deixam de designar a comunidade cívica definida pela Constituição e passam a ser marcas de pertença étnica implícita. O adverbio “zero” é usado como lapíde: elimina nuances, questiona a cidadania legal e tenta reescrever o que significa ser português.
Num discurso que privilegia dicotomias simples, os nomes tornam-se provas e as palavras transformam-se em sentenças. No episódio da lista de matrículas, a mera leitura de apelidos de origem africana ou árabe foi apresentada como evidência de uma suposta injustiça contra os “nativos”. Esta lógica de insinuar sem demonstrar — de deixar a audiência concluir que um nome diferente equivale a um privilégio ilícito — é uma forma de retórica racista.
O discurso apaga deliberadamente a infância. As crianças evocadas deixam de ser alunos ou filhos e passam a ser “outros” sem direitos. Em vez de os proteger, a narrativa usa-os como instrumentos de guerra cultural. E quando um deputado diz que são “zero portugueses”, está a negar não apenas a cidadania legal dessas crianças, mas a própria possibilidade de pertencerem a um nós comum.
A forma é tão importante quanto o conteúdo. A linguagem do populismo identitário é feita de frases curtas, afirmações absolutas e repetições. É calculadamente simples para circular nas redes sociais e sedimentar uma sensação de urgência. Palavras como “nunca”, “sempre” ou “zero” eliminam a complexidade e criam uma ilusão de clareza moral. Esta técnica, importada de movimentos populistas europeus, recodifica o debate público em termos emocionais em detrimento da razão e dos factos.
O silêncio das instituições agrava o problema. Nem a Mesa da Assembleia da República nem a Comissão de Ética condenaram publicamente a declaração. A passividade permite que esta nova gramática do ódio se torne normal. Quando ninguém contradiz, a mensagem é clara: há cidadãos de primeira e outros que são “zero”.
Mas as palavras não são inofensivas. Elas constroem realidades. Ao legitimar o discurso de que certos portugueses são menos portugueses que outros, abre-se a porta ao bullying nas escolas, ao assédio nas ruas e à exclusão económica. É o Estado de direito que fica mais frágil quando se aceita que um cargo público negue a identidade de crianças cidadãs.
Enfrentar esta linguística da exclusão exige mais do que boas intenções. Exige reacção institucional, educação para a cidadania e responsabilização política. Porque quando as palavras criam um “nós” e um “eles” intransponíveis, é a ideia de comunidade que se estilhaça. E nenhuma democracia sobreviverá se aceitar que há cidadãos reduzidos a zero.