Resumo
- ” A frase, dita por André Ventura no plenário da Assembleia da República, referia-se a um grupo de crianças com nomes não lusófonos, filhos de imigrantes.
- legitima o bullying nas escolas, encoraja o assédio online a famílias imigrantes, fragiliza o sentido de pertença de milhares de crianças racializadas.
- Quando o líder de um partido afirma que um grupo de crianças é “zero português”, está a questionar o conceito constitucional de cidadania.
Lisboa, 1 de Agosto de 2025 — “Eles são zero portugueses.” A frase, dita por André Ventura no plenário da Assembleia da República, referia-se a um grupo de crianças com nomes não lusófonos, filhos de imigrantes. Não foi um lapso. Foi uma escolha lexical deliberada, uma afirmação performativa: declarar quem pertence e quem não pertence.
Esta gramática da exclusão tem crescido no discurso do Chega. O léxico é simples, binário e emocional. Recorre a contrastes nítidos — “nós vs. eles”, “portugueses de bem vs. criminosos”, “crianças portuguesas vs. filhos de imigrantes” — para instaurar uma lógica de conflito permanente. A linguagem, aqui, não serve para argumentar. Serve para excluir.
Nós, os nossos, o povo de verdade
Ventura não fala de “cidadãos”. Fala de “os nossos”. De “os portugueses de verdade”. A identidade nacional deixa de ser um conceito jurídico ou cultural e passa a ser um marcador étnico e simbólico. “Quem controla a linguagem, controla o centro simbólico do debate”, explica a linguista Beatriz Roldão. “Quando Ventura diz que os outros são zero portugueses, tenta colonizar a ideia de portugalidade.”
Nomes como prova, palavras como sentença
No episódio da lista de nomes, a linguagem não foi apenas descritiva. Foi acusatória. Os nomes — Youssef, Fatou, Mohammed — eram usados como indícios de fraude, como sinais de que algo estava errado. Não era preciso dizer mais. Bastava enunciar. “A linguagem do populismo identitário baseia-se na insinuação”, observa o sociólogo Mauro Azevedo. “Nome estrangeiro? Então não é português. Logo, é privilegiado. Logo, é injusto.”
O apagamento da infância
Outro elemento da retórica é a recusa em reconhecer a infância como espaço protegido. Quando Ventura afirma que “essas crianças são o rosto da discriminação contra os portugueses”, inverte os papéis: transforma vítimas em ameaças, menores em símbolos de agressão cultural. A pedagoga Teresa Faria resume: “As palavras usadas para falar destas crianças são de confronto, não de cuidado.”
Um discurso formatado para a colisão
As frases curtas, ritmadas e redundantes são construídas para gerar impacto emocional imediato: “A escola é deles, não nossa”; “os portugueses ficam para trás”; “já nem na pátria mandamos”. Este estilo, inspirado em populismos europeus, não busca informar, mas criar fricção constante e mobilizar ressentimentos.
O silêncio cúmplice das instituições
Apesar da gravidade, a Assembleia da República continua sem qualquer resposta formal. A Comissão de Ética não agiu. O presidente do Parlamento não condenou o uso dos nomes. O silêncio institucional legitima a nova linguagem da exclusão.
Palavras que não são só palavras
“Eles são zero portugueses” não é apenas retórica. É uma agressão simbólica com efeitos concretos: legitima o bullying nas escolas, encoraja o assédio online a famílias imigrantes, fragiliza o sentido de pertença de milhares de crianças racializadas. É também um desafio à Constituição, que garante a identidade pessoal como direito inviolável. Quando o líder de um partido afirma que um grupo de crianças é “zero português”, está a questionar o conceito constitucional de cidadania.