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Resumo

  • A edição de 2025 do relatório anual de direitos humanos dos Estados Unidos, publicada pelo Departamento de Estado sob a segunda presidência de Donald Trump, está a ser denunciada por especialistas e organizações internacionais como um instrumento de apagamento institucional.
  • Em edições anteriores, as agências da ONU — como o OCHA (Coordenação de Assuntos Humanitários), a UNRWA (Agência de Apoio aos Refugiados Palestinianos) ou a OMS — eram fontes citadas com regularidade.
  • A HRW analisou o relatório em detalhe e concluiu que foram removidas mais de 85% das fontes externas anteriormente utilizadas para descrever a situação em Gaza e na Cisjordânia.

A edição de 2025 do relatório anual de direitos humanos dos Estados Unidos, publicada pelo Departamento de Estado sob a segunda presidência de Donald Trump, está a ser denunciada por especialistas e organizações internacionais como um instrumento de apagamento institucional. Mais do que omissões pontuais, o documento representa uma eliminação sistemática de fontes credíveis, em particular as provenientes das Nações Unidas, da Amnistia Internacional, da Human Rights Watch (HRW) e de outras organizações humanitárias.

Esta prática, inédita na história recente dos relatórios norte-americanos, levanta uma pergunta central: porque decidiu Washington apagar as provas mais sólidas das atrocidades cometidas em Gaza?


Uma limpeza seletiva com objetivos políticos

Em edições anteriores, as agências da ONU — como o OCHA (Coordenação de Assuntos Humanitários), a UNRWA (Agência de Apoio aos Refugiados Palestinianos) ou a OMS — eram fontes citadas com regularidade. Nos relatórios de 2023 e 2024, por exemplo, o nome “UNRWA” aparece mais de 30 vezes na secção dedicada aos Territórios Palestinianos Ocupados. Em 2025? Desaparece por completo.

A HRW analisou o relatório em detalhe e concluiu que foram removidas mais de 85% das fontes externas anteriormente utilizadas para descrever a situação em Gaza e na Cisjordânia. O mesmo sucedeu com citações da Amnistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras, Save the Children e Comité Internacional da Cruz Vermelha.

“A exclusão deliberada de fontes independentes transforma o relatório numa peça de propaganda.”
Sarah Leah Whitson, Democracy for the Arab World Now (DAWN)


Silenciar o horror: o caso da fome e da deslocação

Organizações internacionais afirmam de forma unânime que Israel tem utilizado a fome como arma de guerra, bloqueando a entrada de alimentos e destruindo sistematicamente infraestruturas civis. A OCHA, em boletins semanais, alertou para a catástrofe humanitária: mais de 1,9 milhões de palestinianos deslocados, centenas de milhares a viver sem acesso a água potável e com desnutrição infantil acima dos 35%.

Estes dados constam de relatórios públicos, com mapas, fotografias de satélite e testemunhos no terreno. Ainda assim, o Country Report dos EUA para 2025 não menciona a palavra “fome” nem uma única vez na secção de Israel/Palestina. A deslocação forçada é referida de forma vaga como “movimentos de população resultantes do conflito”, sem qualquer referência à responsabilidade de quem a impôs.


A ONU no banco dos réus

Desde o início do conflito em Gaza, várias figuras da Administração Trump intensificaram os ataques à ONU, acusando-a de “antissemitismo institucional” e de “complicidade com o terrorismo”. Marco Rubio, Secretário de Estado, foi mais longe ao afirmar que “as agências da ONU são veículos de desinformação ao serviço do Hamas”.

Estas declarações abriram caminho para uma reorientação doutrinária: fontes onusinas passaram a ser consideradas “não confiáveis” e, por isso, excluídas dos relatórios. Vários funcionários do Departamento de Estado confirmaram à imprensa norte-americana que receberam ordens para eliminar todas as menções à UNRWA, ao OCHA e à Relatora Especial Francesca Albanese.

“A ordem era clara: apagar tudo o que viesse da ONU. Mesmo que fosse factual.”
Ex-analista do Bureau of Democracy, Human Rights and Labor, sob anonimato


Um padrão de censura ideológica

A limpeza de fontes não se limita a Gaza. Em outras secções do relatório — como as que se referem à Arábia Saudita, Egipto ou El Salvador — observam-se padrões semelhantes: supressão de dados sobre tortura, repressão política ou violência policial, sempre que estes tenham origem em fontes consideradas “inconvenientes”.

Por outro lado, as secções sobre China, Venezuela ou Irão mantêm um elevado número de citações — incluindo de fontes anteriormente consideradas “parciais” ou “não verificadas”.

“O relatório deixou de ser um instrumento de denúncia universal. Passou a ser um reflexo do alinhamento geoestratégico dos EUA.”
Kenneth Roth, ex-diretor da HRW


Impacto diplomático: desconexão com a realidade

Organismos internacionais já começaram a reagir. A Alta Comissária Adjunta das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Nada Al-Nashif, alertou para o risco de “erosão da confiança nos mecanismos de reporte oficiais” e apelou à “revisão independente” da metodologia do relatório norte-americano.

Entretanto, em Genebra, a Relatora Especial Francesca Albanese exigiu explicações formais após ser deliberadamente omitida de qualquer referência no documento dos EUA, apesar de ter apresentado relatórios extensivos sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza.

“Não se trata de um debate académico. É o apagamento deliberado de provas. E esse apagamento legitima o sangue.”
Francesca Albanese, relatora da ONU


Consequências: quando o silêncio mata

O Country Report é uma referência mundial. É usado por juízes, legisladores, agências de asilo e jornalistas. Ao apagar as fontes mais fiáveis sobre Gaza, os EUA não estão apenas a reescrever o passado recente — estão a condicionar decisões futuras com base numa versão higienizada da realidade.

O apagamento da ONU é, na prática, um ataque ao sistema multilateral. Mas é sobretudo uma traição à verdade — e às vítimas.

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