Resumo
- Uma pessoa pode considerar que a reforma beneficia empresas e ainda assim apoiá-la — porque considera que as empresas precisam, ou porque acredita no efeito de cascata para o emprego, ou simplesmente porque acha que é hora de mudar.
- Os eleitores AD são o único grupo onde a maioria apoia a reforma — 52% segundo a Pitagórica.
- 38,5% dos inquiridos defende que o Governo deve chegar a acordo simultaneamente com Chega e PS para aprovar a reforma.
Três sondagens, três retratos: o que os portugueses pensam realmente do pacote laboral
Pitagórica e Intercampus mediram a opinião sobre o pacote Trabalho XXI em três momentos. Os números não são intermutáveis. Aprender a lê-los é o pré-requisito para qualquer debate honesto.
A frase corre o país desde meados de abril: "quase 80% dos portugueses rejeitam o pacote laboral". Foi pronunciada por Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, num debate da Associação Causa Pública, e foi fortemente aplaudida pela plateia. A frase não está completamente errada. Também não está completamente certa. Esta é uma daquelas situações em que a precisão importa mais do que o aplauso.
Existem três sondagens publicadas e depositadas na Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) sobre o anteprojeto Trabalho XXI. Cada uma faz uma pergunta diferente. Cada uma mede um aspeto diferente. E cada uma chega a uma resposta diferente sobre o que os portugueses pensam.
O que cada sondagem mede
A primeira é da Pitagórica, encomendada pela TVI, CNN Portugal, TSF e Jornal de Notícias. Trabalho de campo entre 11 e 19 de dezembro de 2025, depois da greve geral de 11 de dezembro. Mil entrevistas telefónicas, margem de erro de 3,16% para um nível de confiança de 95,5%, direção técnica de Rita Marques da Silva.
A pergunta central foi: "Considera que Portugal precisa de uma reforma laboral?". A resposta dividiu o país. 37% consideram que precisa ou precisa muito. 49% rejeitam — repartidos entre 26% que não querem reforma alguma e 23% que querem caminho diferente do proposto pelo Governo. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, a oposição sobe para 53%. Entre eleitores AD, 52% defende a reforma. Entre eleitores Chega, 42%.
A segunda sondagem é da Intercampus, para o Correio da Manhã, Negócios, CMTV e NOW. Publicada a 22 de dezembro, com universo da população portuguesa com 18 ou mais anos, recenseada e residente em Portugal Continental. A pergunta foi diferente: o equilíbrio da legislação laboral portuguesa. 61,2% considera que a lei está mais do lado dos patrões. 17,5% diz que está mais do lado dos trabalhadores. E 60,4% considera que os sindicatos tiveram razão em convocar a greve geral, ainda que apenas 24,2% tenha aderido efetivamente.
A terceira sondagem é também da Intercampus, para os mesmos clientes, publicada a 17 de abril deste ano. A pergunta foi mais explícita: as alterações propostas vão beneficiar mais as empresas ou os trabalhadores? Resposta: 77,3% acham que vão beneficiar mais as empresas. E 76,6% defendem que deveriam, pelo contrário, beneficiar mais os trabalhadores.
A diferença entre rejeitar e desconfiar
Eis o ponto onde a frase de Sérgio Monte se torna imprecisa. Os 77,3% não rejeitam a reforma. Acham que ela favorece desproporcionadamente um lado. Não é exatamente a mesma coisa. Uma pessoa pode considerar que a reforma beneficia empresas e ainda assim apoiá-la — porque considera que as empresas precisam, ou porque acredita no efeito de cascata para o emprego, ou simplesmente porque acha que é hora de mudar.
A pergunta óbvia é qual o número mais próximo de "rejeitar a reforma". A resposta sincera: nenhuma das três sondagens fez essa pergunta. A mais próxima é a Pitagórica de dezembro, com 49% que rejeitam — número significativo mas longe dos 80%.
A confusão entre os números é quase inevitável quando se discute sondagens em política partidária. Mas há um efeito acumulativo importante: as três sondagens, com perguntas diferentes, apontam todas no mesmo sentido. A maioria dos portugueses inclina-se contra o pacote, ou pelo menos contra a sua direção. Onde diferem é na intensidade.
A geografia política da reforma
As três sondagens permitem traçar um mapa político preciso de quem está com o Governo e quem está contra. Os eleitores AD são o único grupo onde a maioria apoia a reforma — 52% segundo a Pitagórica. Os eleitores Chega ficam em 42% a favor. Os eleitores PS, BE e PCP rejeitam quase em bloco — mais de dois terços contra, embora as amostras parciais não permitam números precisos.
A sondagem da Intercampus de abril detetou um efeito menos óbvio mas politicamente determinante: 38,5% dos inquiridos defende que o Governo deve chegar a acordo simultaneamente com Chega e PS para aprovar a reforma. É uma maioria relativa que rejeita tanto a aprovação à direita pura como a paralisação. E 64,5% considera que o chumbo do Orçamento do Estado para 2027 obrigaria a eleições antecipadas — sinal de que o eleitorado já incorporou a possibilidade de o pacote laboral derrubar o Governo.
As limitações que o jornalismo tem de assumir
Nenhuma das sondagens é, isoladamente, suficiente. Os clientes da Intercampus em duas das três fontes pertencem ao mesmo grupo (Cofina). Não é viés — sondagens depositadas na ERC seguem regras técnicas auditáveis — mas é facto a registar. As fichas técnicas estão publicamente disponíveis no site da ERC para quem quiser conferir.
E falta uma dimensão que poucos média sublinham: nenhuma sondagem mede com precisão o efeito da informação sobre a opinião. A pergunta central da Pitagórica foi feita em dezembro, no auge da campanha sindical contra o pacote, e antes das cedências do Governo em compra de férias e dispensa para amamentação. A Intercampus de abril foi feita já com a versão revista da proposta. Não é razoável comparar diretamente os resultados de quatro meses como se fossem fotografias do mesmo objeto.
Há ainda uma terceira limitação, mais filosófica: medir opinião sobre uma reforma com mais de 100 alterações é como medir opinião sobre uma orquestra perguntando se a música agrada. Pode-se aprovar a percussão e detestar os sopros — e os sondados não têm, na maioria dos casos, conhecimento técnico para distinguir.
Numa cervejaria do Bairro do Restelo, no almoço, um quadro intermédio com filhos pequenos resumiu o problema ao SociedadeCivil.pt: "A licença parental até seis meses interessa-me. O afastamento da reintegração assusta-me. Numa sondagem só posso dizer 'sim' ou 'não' à pergunta que me fizerem".
A esta complexidade, as sondagens não respondem.