Resumo
- Especialistas em direito da concorrência e associações de consumidores sublinham que a decisão judicial abre agora caminho para indemnizações inéditas em Portugal, avaliadas em mais de cinco mil milhões de euros.
- A Autoridade da Concorrência tinha sancionado 12 instituições financeiras por práticas restritivas de mercado entre 2002 e 2013, acusando-as de partilharem informação sensível sobre taxas de juro e spreads.
- O tribunal decidirá depois sobre a responsabilidade civil dos bancos e o valor a atribuir a cada cliente.
Apesar da anulação das coimas de 225 milhões de euros aplicadas ao chamado “Cartel da Banca”, o caso está longe de estar encerrado. Especialistas em direito da concorrência e associações de consumidores sublinham que a decisão judicial abre agora caminho para indemnizações inéditas em Portugal, avaliadas em mais de cinco mil milhões de euros.
A Autoridade da Concorrência tinha sancionado 12 instituições financeiras por práticas restritivas de mercado entre 2002 e 2013, acusando-as de partilharem informação sensível sobre taxas de juro e spreads. Em julho, o Tribunal da Relação de Lisboa anulou as coimas por prescrição, mas manteve válida a prova recolhida no processo. Isso significa que os clientes bancários — famílias com crédito à habitação ou ao consumo e pequenas e médias empresas endividadas — continuam a poder reclamar compensações.
Caminho aberto para ações coletivas
A associação Ius Omnibus já anunciou que vai avançar com ações populares contra os bancos visados, permitindo que qualquer consumidor com créditos ativos nesse período se junte ao processo. “A anulação das coimas não apaga o dano causado. Os consumidores continuam a ter o direito de ser ressarcidos”, afirmou a presidente da associação, citada em comunicado.
Segundo cálculos preliminares, os prejuízos para clientes e empresas podem ultrapassar os cinco mil milhões de euros, valor muito superior ao montante das coimas anuladas. Para cada contrato de crédito, o impacto médio pode traduzir-se em centenas ou milhares de euros.
Como funciona a indemnização?
Os lesados não precisam de avançar individualmente para tribunal. A lei portuguesa permite ações coletivas que concentram milhares de queixas, simplificando os procedimentos. O tribunal decidirá depois sobre a responsabilidade civil dos bancos e o valor a atribuir a cada cliente.
Juristas ouvidos por este jornal alertam, contudo, que o processo será moroso. “Estamos a falar de litígios complexos, com provas financeiras e milhões de clientes envolvidos. Mas a novidade é que, pela primeira vez, os consumidores têm um instrumento eficaz para equilibrar forças com os grandes bancos”, sublinhou um especialista em direito do consumo.
Impacto direto no bolso dos clientes
Se os tribunais derem razão às associações, quem teve crédito à habitação durante a década em causa poderá recuperar parte dos juros pagos a mais. O mesmo se aplica a créditos pessoais ou linhas de financiamento empresarial. Pequenas e médias empresas que recorreram ao crédito bancário nesse período também estão entre os potenciais beneficiários.
A questão central é clara: a anulação das multas não absolve os bancos nem elimina a possibilidade de compensação. Pelo contrário, reforça o papel dos tribunais civis em garantir justiça aos consumidores.
Será esta a oportunidade histórica para milhares de famílias portuguesas verem devolvido o que consideram ter pago injustamente? A resposta ficará nas mãos dos tribunais nos próximos anos.