Resumo
- A relação entre o partido de André Ventura e setores evangélicos, apesar do seu impacto eleitoral e social, continua a ser um assunto quase invisível no espaço mediático.
- “O problema é que os jornalistas conhecem mal o mundo evangélico, que é muito diverso e fechado”, explica a investigadora em media Teresa Oliveira.
- Essa ausência contribui para a ideia de que o fenómeno é secundário, quando, na realidade, pode estar a redefinir equilíbrios eleitorais em regiões como Setúbal e Loures.
Quando o relatório Chega e Evangélicos em Portugal foi publicado, o tema recebeu tímida cobertura nos grandes jornais. Algumas peças em páginas interiores, referências rápidas em programas de debate televisivo e pouco mais. A relação entre o partido de André Ventura e setores evangélicos, apesar do seu impacto eleitoral e social, continua a ser um assunto quase invisível no espaço mediático.
Este silêncio não é inocente: reflete tanto a dificuldade dos media em lidar com o universo evangélico, ainda pouco conhecido, como o receio de reforçar estigmas sobre uma minoria religiosa.
Jornais: notas de rodapé em vez de manchetes
Na imprensa escrita, o Chega surge regularmente em destaque, mas raramente associado à sua aproximação aos evangélicos. Reportagens sobre comícios ou tensões parlamentares dominam, enquanto a mobilização religiosa aparece apenas como nota marginal.
“O problema é que os jornalistas conhecem mal o mundo evangélico, que é muito diverso e fechado”, explica a investigadora em media Teresa Oliveira. “Sem fontes internas, as redações evitam aprofundar.”
Televisões: fé fora do ecrã
Nos canais generalistas, a religião quase não aparece fora do contexto católico. Quando surgem notícias sobre evangélicos, estão geralmente ligadas a casos de escândalo no Brasil ou a curiosidades culturais. A ligação com o Chega raramente é explorada em grande reportagem.
Essa ausência contribui para a ideia de que o fenómeno é secundário, quando, na realidade, pode estar a redefinir equilíbrios eleitorais em regiões como Setúbal e Loures.
Rádios e digitais: exceções que confirmam a regra
Algumas rádios locais e plataformas digitais ligadas à comunidade evangélica cobriram a relação com o Chega, mas muitas vezes de forma favorável ao partido. Já iniciativas independentes de jornalismo digital publicaram análises mais críticas, mas com alcance reduzido.
No TikTok e no YouTube, o vazio deixado pelos media tradicionais é ocupado por contas como “Chega Mais pra Cristo”, que disseminam propaganda religiosa-política sem contraditório.
Normalização ou tabu?
Para alguns analistas, esta ausência mediática contribui para normalizar a presença do Chega em púlbitos evangélicos. Para outros, é um reflexo de autocensura: receio de ser acusado de atacar a liberdade religiosa.
“O jornalismo português ainda não percebeu a dimensão do fenómeno”, defende Teresa Oliveira. “Ignorar pode ser mais perigoso do que noticiar.”
O papel dos media na democracia
A cobertura tímida levanta uma questão central: estarão os media a falhar na sua função de escrutínio? Ao evitar mergulhar no tema, deixam espaço livre para que narrativas partidárias se consolidem sem contraditório.
E a pergunta final é contundente: será o silêncio jornalístico cúmplice involuntário da instrumentalização da fé pelo Chega?
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