Presos políticos: a frase de Ventura e o que está mesmo em disputa - Sociedade Civil
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Resumo

  • O que não encaixa é a simetria — a tentativa de transformar turbulência de transição num espelho de um sistema montado para reprimir.
  • se tudo foi “parecido”, então a memória da ditadura perde singularidade, e a democracia passa a ser descrita como continuação do abuso — só com outras cores.
  • quando um historiador entra num frente-a-frente com um líder populista, o formato tende a premiar a performance, não a prova.

Na sessão solene dos 50 anos da Constituição, no Palácio de São Bento, André Ventura lançou a frase que tinha tudo para virar munição de rede social: “Pouco tempo depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que antes do 25 de Abril.” Houve aplausos na bancada do Chega e, no mesmo instante, um gesto com peso simbólico: alguns deputados constituintes levantaram-se e saíram, entre eles Jerónimo de Sousa e Helena Roseta.

Dias depois, José Pacheco Pereira respondeu em público e lançou um desafio: um debate “baseado em factos e documentos”, com regra simples — cada afirmação, documentada. Ventura aceitou, com data marcada para segunda-feira, às 22h00, na CNN Portugal.

O choque, porém, não está nos decibéis. Está no enquadramento: o que se compara quando se diz “presos políticos”? E com que ambição política?

A palavra “preso político” como arma de arremesso

A discussão parece numérica; é semântica e, logo, moral. Ventura comprime o tempo (“pouco tempo depois”) e estica a definição conforme o terreno: ora fala da metrópole, ora invoca o “império”; ora mistura prisões ligadas ao turbilhão do pós-25 de Abril com a lógica de um regime que viveu décadas de polícia política, censura e punição organizada.

Pacheco Pereira escolhe outra escada. Não nega a violência no pós-25 de Abril; recusa a equivalência. E atira um dado para o centro da mesa: entre 1945 e 1974, refere mais de 12 mil presos políticos, além de milhares detidos nas colónias.

A dúvida do leitor surge aqui, com razão: “Se houve prisões arbitrárias e maus-tratos no PREC, por que motivo não contam da mesma forma?” Contam. O que não encaixa é a simetria — a tentativa de transformar turbulência de transição num espelho de um sistema montado para reprimir.

A técnica da falsa equivalência

Ventura faz uma operação que não é nova na extrema-direita europeia: deslocar o centro moral do debate. Em vez de “ditadura vs. democracia”, propõe “violência de esquerda vs. violência de direita”. E nesse tabuleiro, “tortura é tortura” serve como martelo: tudo fica achatado, sem escala, sem duração, sem estrutura.

Daquela promessa, restou o eco: se tudo foi “parecido”, então a memória da ditadura perde singularidade, e a democracia passa a ser descrita como continuação do abuso — só com outras cores.

A concessão honesta: a história portuguesa do pós-25 de Abril não cabe em hinos. Houve abusos, houve arbitrariedade, houve medo. O país carregou feridas e vinganças. Dizer isto não reabilita a ditadura; impede que se finja pureza retrospectiva.

O confronto mediático e o risco do formato

O terceiro plano é o da televisão. Ventura ganha barulho: frases curtas, choque, lista de casos, indignação pronta para recorte. Pacheco Pereira ganha densidade: método, arquivo, critério, contexto. Em estúdio, o primeiro vive do clipe; o segundo vive da demonstração.

Mas há um risco real: quando um historiador entra num frente-a-frente com um líder populista, o formato tende a premiar a performance, não a prova. E a prova dá trabalho — exige que alguém pergunte, sem medo de aborrecer: que período exato está a ser comparado? que território? que definição? que fonte?

Isto não é um duelo sobre “quem gritou menos”. É uma disputa sobre a memória democrática. E, no fim, uma regra mantém-se: democracia não é nostalgia. É responsabilidade.

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