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Resumo

  • E hoje, como Secretário do recém-renomeado Departamento de Guerra, é ele quem comanda a transformação simbólica e estratégica do Pentágono.
  • os que rejeitam códigos de conduta humanitária, vêem as Convenções de Genebra como “travas burocráticas” e acreditam que o poder se mede pela capacidade de destruir — não de construir.
  • A Human Rights Watch já expressou preocupação com “a normalização de um discurso que trata o uso da força como primeiro recurso”.

O novo rosto da máquina militar americana não é um general nem um diplomata. É um ex-oficial da Guarda Nacional, comentador televisivo e autor de livros de guerra cultural. Chama-se Pete Hegseth. E hoje, como Secretário do recém-renomeado Departamento de Guerra, é ele quem comanda a transformação simbólica e estratégica do Pentágono. A sua doutrina? Letalidade. Sem filtros. Sem complexos.

Hegseth não esconde ao que vem. Para ele, “o papel do Exército não é reflectir a sociedade, mas esmagar o inimigo”. Uma frase que resume não só a sua visão da guerra, mas também a sua leitura da América: uma nação em decadência, que só pode ser restaurada pela força — e pela disposição para matar.


De guerrilheiro ideológico a comandante institucional

Pete Hegseth serviu no Iraque e no Afeganistão como capitão da Guarda Nacional. Mas foi após a farda que se tornou uma figura nacional. Como comentador na Fox News, transformou-se num ícone conservador: anti-globalista, anti-“woke”, ultranacionalista. Atacou políticas de diversidade no exército, denunciou “marxismo cultural” nas academias militares e exigiu “um regresso ao ethos guerreiro”.

Em 2023, Trump nomeou-o Secretário da Defesa. Poucos meses depois, Hegseth liderou a mudança simbólica que viria a rebaptizar o Pentágono como Department of War. Mas o gesto não foi isolado. Fez parte de uma visão estratégica: recentrar a missão das Forças Armadas na “capacidade de infligir destruição letal”. Foi o próprio Hegseth quem cunhou o conceito que hoje guia a doutrina americana: letalidade máxima como política de Estado.


Letalidade como virtude, dissuasão como fraqueza

Nos discursos de Hegseth, a palavra “letal” substituiu termos como “dissuasão”, “equilíbrio” ou “resiliência”. Para ele, não basta ser forte — é preciso mostrar-se disposto a usar a força. “Só um exército preparado para matar sem hesitação é levado a sério pelos seus inimigos”, declarou numa conferência em Fort Bragg.

Este discurso encontra eco num segmento cada vez mais ruidoso do aparelho de segurança dos EUA: os que rejeitam códigos de conduta humanitária, vêem as Convenções de Genebra como “travas burocráticas” e acreditam que o poder se mede pela capacidade de destruir — não de construir.

Críticos da doutrina alertam para os riscos: erosão do direito internacional, aumento de abusos em operações externas, radicalização da cultura militar. A Human Rights Watch já expressou preocupação com “a normalização de um discurso que trata o uso da força como primeiro recurso”.


Um pentágono ideológico: limpeza interna e guerra cultural

Desde que assumiu o cargo, Hegseth promoveu mudanças internas drásticas. Cancelou formações sobre diversidade e inclusão. Substituiu altos quadros civis por militares de carreira com posições políticas alinhadas. Ordenou a revisão de currículos em academias militares, removendo conteúdos sobre história racial, feminismo e estudos de género.

“O exército americano não é laboratório de engenharia social”, declarou numa audição no Congresso. “É uma força de combate.” O resultado é um Pentágono cada vez mais alinhado com a agenda política trumpista — e menos plural.

Organizações de veteranos LGBTQ+, mulheres militares e minorias étnicas denunciaram retrocessos nos direitos internos. O Military Religious Freedom Foundation alertou para o crescimento de “fundamentalismo cristão nas estruturas de comando”, encorajado pelo novo discurso dominante.


Geopolítica à imagem de Hegseth: punho fechado, fronteira erguida

Na arena internacional, a doutrina Hegseth traduz-se em agressividade diplomática. O Departamento de Guerra deixou de participar em fóruns multilaterais sobre desarmamento. As relações com a ONU e a NATO tornaram-se tensas. A retórica usada nos documentos oficiais abandonou o léxico da “segurança partilhada” para adoptar expressões como “supremacia operacional” e “preempção letal”.

Analistas do Center for International Policy alertam: esta visão coloca os EUA em rota de colisão não só com adversários, mas com aliados históricos. A descredibilização da diplomacia compromete acordos futuros e pode empurrar outras potências para lógicas de confronto.


Hegseth é popular — e isso importa

Apesar das críticas, Pete Hegseth goza de elevada popularidade junto da base republicana. Os seus discursos têm milhões de visualizações. Os seus livros são bestsellers. E, talvez mais relevante, é visto como potencial vice-presidente numa eventual candidatura de Trump em 2028.

A popularidade de Hegseth revela uma mudança de fundo: a legitimação pública de uma visão do Estado centrada na violência como identidade. A guerra já não é excepção — é norma.


Conclusão: quando a força se torna fim, e não meio

A doutrina Hegseth não é apenas uma política militar. É uma visão de mundo. Uma ideologia que transforma o exército em modelo de sociedade. Que desconfia da democracia, do pluralismo, da contenção. E que vê na letalidade não um mal necessário — mas uma virtude moral.

Essa visão pode ganhar votos. Mas não constrói paz. E um país que educa os seus soldados apenas para matar, acaba por esquecer como proteger.

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