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Resumo

  • Esta “economia de demolição”, como lhe chama o documento, sustenta-se em empresas de construção civil, fornecedoras de maquinaria pesada e consórcios de engenharia que lucram com a devastação de territórios palestinianos e com a posterior reconstrução, frequentemente sob controlo israelita.
  • Apesar de denúncias recorrentes por parte de organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional, a Caterpillar mantém as suas exportações para Israel, justificando que não controla o uso militar que é feito dos seus equipamentos.
  • A sueca Volvo, a britânica JCB, a sul-coreana Hyundai e a japonesa Hitachi também fornecem equipamentos de engenharia e demolição a Israel ou a empresas envolvidas na ocupação.

Enquanto caem bombas sobre Gaza, há um outro som que ecoa entre os escombros: o ruído ensurdecedor das escavadoras. A destruição sistemática de habitações, escolas, hospitais e infraestruturas básicas palestinianas não é apenas uma consequência colateral da guerra – é um sector de negócio com lucros reais, contratos assinados, máquinas vendidas e exportações em alta. E por trás dessas máquinas, há nomes conhecidos: Caterpillar, Volvo, Hyundai, JCB, Hitachi.

O mais recente relatório das Nações Unidas, From economy of occupation to economy of genocide, é claro: a economia da destruição é uma componente central do regime de ocupação e ataque à Faixa de Gaza. Esta “economia de demolição”, como lhe chama o documento, sustenta-se em empresas de construção civil, fornecedoras de maquinaria pesada e consórcios de engenharia que lucram com a devastação de territórios palestinianos e com a posterior reconstrução, frequentemente sob controlo israelita.


Caterpillar: o ícone da destruição

A empresa norte-americana Caterpillar é, há décadas, uma das protagonistas deste cenário. Os seus bulldozers D9 foram modificados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) com blindagens adicionais, sendo utilizados em operações de demolição de casas palestinianas, abertura de caminhos em zonas densamente povoadas e destruição de infraestruturas subterrâneas.

Apesar de denúncias recorrentes por parte de organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional, a Caterpillar mantém as suas exportações para Israel, justificando que não controla o uso militar que é feito dos seus equipamentos. No entanto, essa posição ignora as obrigações legais das empresas em contextos de conflito, conforme estipulado pelos Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos.

“Um bulldozer Caterpillar não é apenas uma máquina – é uma arma de deslocação forçada”, resume o activista norte-americano Jeff Halper, fundador da Israeli Committee Against House Demolitions (ICAHD).


Máquinas com selo europeu e asiático

O envolvimento não se limita aos EUA. A sueca Volvo, a britânica JCB, a sul-coreana Hyundai e a japonesa Hitachi também fornecem equipamentos de engenharia e demolição a Israel ou a empresas envolvidas na ocupação. Muitas dessas máquinas foram avistadas em operações de demolição em Jerusalém Oriental, na Cisjordânia e, mais recentemente, em incursões terrestres em Gaza.

Segundo o relatório da ONU, estas empresas integram consórcios que participam em concursos públicos israelitas para “requalificação” urbana de zonas palestinianas após demolições. Um exemplo é o bairro de Silwan, em Jerusalém Oriental, onde centenas de casas foram demolidas para dar lugar a parques arqueológicos e projectos turísticos – com maquinaria europeia e financiamento internacional.

A destruição tornou-se, assim, um mercado regulado, com cadernos de encargos, subempreitadas e retornos garantidos para os accionistas.


O ciclo perverso: destrói, reconstrói, lucra

O modelo é perverso mas eficaz. A mesma empresa que fornece as escavadoras para demolir pode ser chamada a reconstruir. Em Gaza, por exemplo, as operações de reconstrução após os bombardeamentos de 2021 e 2014 envolveram empresas israelitas ou internacionais com ligação ao complexo militar-industrial. Com financiamento de organismos internacionais ou de países doadores, estes contratos tornam-se oportunidades de negócio mascaradas de ajuda humanitária.

O resultado é um ciclo de dependência e lucro: destrói-se com maquinaria importada; reconstrói-se com fundos internacionais; volta-se a destruir. E cada fase representa uma nova oportunidade de negócio.

A ONU alerta que este ciclo não é neutro – é cúmplice. A reconstrução que não está assente em justiça ou responsabilização institucionaliza a impunidade.


Responsabilidade e silêncio empresarial

Apesar das provas acumuladas e da pressão da sociedade civil, poucas empresas responderam pelos seus actos. Algumas, como a JCB, foram alvo de processos legais no Reino Unido por cumplicidade em violações do Direito Internacional, mas a ausência de legislação vinculativa torna difícil a sua responsabilização.

A Caterpillar foi retirada de certos fundos de pensões éticos na Noruega e nos Países Baixos, mas continua listada em bolsas de Wall Street e em carteiras de investimento ESG. As auditorias internas são frequentemente opacas ou ineficazes, servindo apenas como estratégia de relações públicas.

“Enquanto os tribunais estiverem fechados às vítimas palestinianas, a demolição continuará a ser um negócio imune ao direito”, afirmou Raji Sourani, director do Centro Palestiniano para os Direitos Humanos, em conferência da ONU.


Fotografias de um crime económico

As imagens não mentem: filas de escavadoras empurram escombros em bairros outrora habitados; crianças palestinianas brincam entre carcaças de edifícios com marcas de pneus industriais; estradas abertas a sangue e betão servem como rotas militares. O impacto é palpável, físico, irreversível.

Jornalistas e fotógrafos no terreno documentaram o uso repetido de marcas específicas de maquinaria, muitas vezes ainda com logótipos visíveis. São essas provas que sustentam o apelo da ONU à suspensão imediata de fornecimentos por parte de empresas envolvidas.


Conclusão: destruir para facturar

A ocupação da Palestina tem os seus arquitectos, os seus engenheiros e os seus operadores de máquinas. Mas tem também os seus investidores, conselhos de administração e contratos assinados a milhares de quilómetros de distância. O genocídio, nesta economia, não é um acto súbito – é um processo construído tijolo a tijolo, contrato a contrato.

Denunciar é necessário, mas não basta. É preciso parar as máquinas.


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