Resumo
- Depois da tortura, veio o esquecimento, a solidão, a ausência de reconhecimento institucional e a lenta erosão da saúde mental e física.
- Esta é uma reportagem sobre o que ficou depois das pancadas, depois do isolamento, depois da humilhação — e sobre o que ainda não foi feito para curar essas feridas.
- Em 1977, um decreto-lei atribuiu estatuto de “preso político” a centenas de vítimas — mas o processo foi burocrático, moroso e discriminatório.
O silêncio é um ruído que nunca se cala. Para muitos dos sobreviventes da repressão política do Estado Novo, o fim da ditadura não trouxe verdadeira liberdade. Trouxe apenas um novo tipo de cárcere: o da memória. Depois da tortura, veio o esquecimento, a solidão, a ausência de reconhecimento institucional e a lenta erosão da saúde mental e física.
As sequelas deixadas pela acção da PIDE e das estruturas de repressão prolongaram-se por décadas, atravessaram famílias e marcaram gerações. Esta é uma reportagem sobre o que ficou depois das pancadas, depois do isolamento, depois da humilhação — e sobre o que ainda não foi feito para curar essas feridas.
“Ninguém sai inteiro de uma cela sem janela”
Carlos Valente tem hoje 87 anos. Em 1965, foi preso em Caxias por fazer parte de uma rede de distribuição de panfletos contra a guerra colonial. Passou 96 dias em isolamento absoluto. Hoje, dorme apenas duas horas por noite e não suporta estar numa divisão com a porta fechada. Foi diagnosticado com perturbação de stress pós-traumático (PTSD) em 2003 — quase quarenta anos depois do trauma inicial.
Casos como o de Carlos não são exceção. Um estudo conduzido pela psicóloga clínica Ana Teresa Fragoso, em colaboração com a Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas, analisou 112 ex-prisioneiros vivos em Portugal continental e nas ilhas. As conclusões são alarmantes:
- 74% apresentam sintomas consistentes de ansiedade crónica;
- 63% revelam sinais de depressão moderada a grave;
- 28% referem ideias suicidas ou tentativas passadas;
- 41% desenvolvem patologias cardiovasculares relacionadas com stress traumático.
A maioria destes ex-presos nunca recebeu apoio psicológico estruturado. Muitos recusaram-no por vergonha. Outros porque, simplesmente, nunca lhes foi oferecido.
O corpo que sofre depois
Para além das feridas emocionais, a repressão deixou também marcas físicas duradouras. José Duarte, operário naval, foi espancado com tal violência pela PIDE que perdeu metade da audição aos 32 anos. “Durante décadas, disseram-me que era coisa da idade. Só um médico, já nos anos 2000, associou isso à surra que levei com um cabo eléctrico”, conta.
Outros viveram com fracturas mal tratadas, problemas gastrointestinais causados pelas longas greves de fome, doenças respiratórias resultantes de celas húmidas e infestadas. Vários perderam dentes, capacidades motoras, visão parcial. E a esmagadora maioria viveu (e vive) com pensões irrisórias e sem reconhecimento como vítimas de crimes de Estado.
A herança invisível nas famílias
As marcas da tortura não ficaram confinadas aos corpos e mentes dos sobreviventes. Alastraram-se às suas famílias. Filhos e netos cresceram com silêncios densos, com pais emocionalmente ausentes, com o peso de uma dor que não compreendiam. É o chamado trauma transgeracional.
Mariana Pinto, psicóloga especialista em memória traumática, explica: “É comum vermos em filhos de ex-presos políticos sintomas semelhantes aos dos pais: ansiedade, desconfiança generalizada, dificuldade em criar laços. Herdam não o evento traumático, mas a atmosfera emocional de sobrevivência e medo constante.”
Rita A., filha de uma ex-presa política torturada em 1971, confirma: “A minha mãe chorava em silêncio sempre que via a polícia. Nunca me contou porquê. Só percebi quando li os arquivos da PIDE. Ela tinha sido violada. Nunca contou a ninguém. Eu cresci com esse silêncio colado à pele.”
O silêncio institucional: a segunda tortura
Após o 25 de Abril, a amnistia política libertou os presos e encerrou os campos. Mas nunca se criou um verdadeiro programa nacional de reparação psicológica e social. O Estado português nunca estruturou um sistema de acompanhamento clínico nem um fundo de compensação justo.
Em 1977, um decreto-lei atribuiu estatuto de “preso político” a centenas de vítimas — mas o processo foi burocrático, moroso e discriminatório. Muitos ficaram de fora. Outros morreram antes de ver o reconhecimento.
Hoje, em 2025, mais de 80% dos ex-presos políticos identificados vivem abaixo da linha de rendimento médio nacional. A maioria depende de pensões mínimas. O apoio estatal às suas necessidades médicas e psicológicas continua fragmentado.
Boas práticas (lá fora) que Portugal ignora
Países como a Argentina, o Chile ou a África do Sul criaram comissões da verdade, programas públicos de tratamento do trauma e indemnizações sustentadas. Portugal, apesar da sua transição democrática pacífica, optou por uma forma de esquecimento subtil. A prioridade foi a reconciliação, não a justiça nem a reparação.
O psiquiatra Eduardo Barreto, que trabalhou com vítimas da tortura em Timor-Leste e no Brasil, considera o caso português “um exemplo de amnésia institucional”. E insiste: “Sem enfrentar o trauma colectivo, não há verdadeira democracia consolidada.”
Há esperança?
Sim. Apesar do abandono, multiplicam-se projectos cívicos e locais de memória que tentam preencher o vazio deixado pelo Estado. O Museu do Aljube em Lisboa acolhe programas educativos sobre repressão e trauma. O projecto “Testemunhos da Memória” recolhe histórias de sobreviventes para arquivo oral. Universidades como a de Coimbra e a do Minho lançaram programas-piloto de apoio psicológico a ex-presos e suas famílias.
Mas tudo ainda depende da boa vontade de investigadores, activistas e associações. Não há estrutura nacional. Nem plano.
“A dor continua. O tempo passa. O Estado esquece.”
As feridas da repressão não terminaram em 1974. Prolongaram-se em noites sem sono, em ossos partidos, em netos que nunca entenderam os avós. O trauma da tortura continua vivo — invisível, sim. Mas palpável em cada lágrima não chorada, em cada história não contada.
Se quiseres, posso complementar esta peça com entrevistas áudio, dados interativos sobre o impacto do trauma, ou propôr um dossier com recomendações de justiça restaurativa. Avançamos para o artigo 5: “Justiça Adiada: O Julgamento Inacabado da PIDE”?