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Resumo

  • Segundo o estudo, 58 % dos perfis que interagem com a conta oficial do partido Chega na rede X são falsos, usados para amplificar mensagens sobre “imigração descontrolada” e difundir sondagens manipuladas em grafismos que imitam jornais de referência a e desinformação online.
  • A 3 de Maio de 2024, um grupo de duas dezenas de homens encapuzados invadiu uma casa na Rua do Bonfim, Porto, e agrediu 13 migrantes de origem magrebina com bastões e martelos.
  • No relatório divulgado esta semana, a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância assinala uma “forte subida do discurso de ódio online dirigido a migrantes” em Portugal e pede respostas mais rápidas da justiça .

Entre 2018 e 2023 as autoridades passaram de 63 para 344 queixas por discriminação e incitamento ao ódio. Investigadores ligam o pico de violência a campanhas digitais que criam a ilusão de “invasão” estrangeira.

Escalada estatística

Os crimes de ódio nunca foram tão numerosos em Portugal. Dados da Direcção-Geral da Política de Justiça confirmam 344 ocorrências em 2023, face às 63 registadas cinco anos antes — uma subida de 444 % que reforça a trajectória ascendente iniciada em 2016  . O último Relatório de Segurança Interna acrescenta que 2024 quebrou outro máximo, com 421 casos, sobretudo agressões racistas e ataques contra a comunidade LGBTI  . Que forças empurram estes números para recordes anuais?

A máquina da desinformação

Um relatório académico obtido pelo PÚBLICO traça um retrato inédito do ecossistema digital que alimenta a hostilidade contra migrantes. Segundo o estudo, 58 % dos perfis que interagem com a conta oficial do partido Chega na rede X são falsos, usados para amplificar mensagens sobre “imigração descontrolada” e difundir sondagens manipuladas em grafismos que imitam jornais de referência a e desinformação online.pdf](file-service://file-NDXpJ3vEArZFotM9k5muDf). “Trata-se de uma operação de influência deliberada que distorce a percepção de apoio popular”, concluem os autores. Bots, canais de Telegram e algoritmos de recomendação convergem para tornar visíveis conteúdos extremos a públicos que, de outro modo, não os procurariam.

Da rede à rua: violência em crescendo

A 3 de Maio de 2024, um grupo de duas dezenas de homens encapuzados invadiu uma casa na Rua do Bonfim, Porto, e agrediu 13 migrantes de origem magrebina com bastões e martelos. O Ministério Público abriu três inquéritos por ofensas à integridade física qualificadas e crime de ódio  . Menos de 14 meses depois, em 19 de Junho de 2025, a Polícia Judiciária desmantelou o Movimento Armilar Lusitano, milícia neonazi que acumulava explosivos, impressoras 3D e listas de alvos “não brancos”; seis suspeitos ficaram detidos, quatro em prisão preventiva  . Coincidência? Ou sinal de que o discurso online reduz inibições e abre “janela de oportunidade” para actores violentos?

Bruxelas levanta a voz

O alerta não vem apenas de Lisboa. No relatório divulgado esta semana, a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância assinala uma “forte subida do discurso de ódio online dirigido a migrantes” em Portugal e pede respostas mais rápidas da justiça  . A ECRI aponta “banalização” de comentários xenófobos por figuras públicas e sublinha o risco de radicalização de grupos de extrema-direita, tendência que acompanha o crescimento do Chega.

O ciclo que transforma palavras em golpes

Especialistas descrevem quatro etapas que conectam cliques a agressões físicas:

Normalização e desumanização – slogans como “grande substituição” repetem-se até baixarem o limiar moral da violência. Amplificação algorítmica – redes de bots e recomendações empurram teorias conspirativas para utilizadores indiferentes. Percepção distorcida de ameaça – fact-checks mostram que estrangeiros representam apenas 21 % das condenações por violação, mas o mito espalha-se mais depressa do que o dado. Janela para a acção extremista – movimentos como o Armilar Lusitano interpretam o “clima” digital como sinal verde e partem para o ataque.

Será possível cortar este circuito antes do próximo pico de violência?

O que fazer?

Organizações de verificação portuguesa, como Polígrafo e Observador Fact-Check, multiplicam debunkings, mas reconhecem a “guerra assimétrica” contra conteúdos gerados por IA. A ECRI recomenda regulamentar plataformas, financiar literacia mediática e garantir meios à PJ para monitorizar redes em tempo real. O Governo admite rever o Código Penal após o verão.

Conseguirão políticas públicas e jornalismo travar o ódio antes que volte a sair dos ecrãs? A resposta, dizem os investigadores, depende da rapidez com que a sociedade civil ocupe o espaço informativo com dados verificáveis e narrativas inclusivas. Porque, como recorda a directora da APAV, “cada insulto não contestado abre a porta ao próximo murro”. 📉💬🛑

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