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Resumo

  • A insistência em termos como “subsídio-dependentes”, “imigrantes ilegais”, “bandos de ciganos” ou “limpeza étnica inversa” molda a forma como os media relatam a realidade — e como o público a interpreta.
  • “Quando alguém diz que os ciganos são um problema de segurança, ou que os imigrantes estão a roubar empregos, está a preparar o terreno para políticas repressivas — e para comportamentos violentos”, afirma Sónia Pereira, ex-Alta Comissária para as Migrações.
  • É quem ele passou a representar para um segmento da população — especialmente jovens homens inseguros, socialmente frustrados, à procura de um modelo de força”, explica o psicólogo Hugo Almeida, especializado em masculinidades e discurso político.

Lisboa, 28 de Julho de 2025
À mesa do jantar, nas filas dos supermercados, nas caixas de comentários das redes sociais. O discurso racista, há não muito tempo recatado, marginal ou subterrâneo, emerge hoje em Portugal com um à-vontade inquietante. A legitimação pública dessa linguagem e dos seus pressupostos tem um nome central no cenário político: Chega.

Liderado por André Ventura, o partido de extrema-direita construiu a sua ascensão promovendo uma narrativa que divide os portugueses entre “bons cidadãos” e “inimigos internos”. A retórica contra ciganos, migrantes, beneficiários de apoios sociais ou comunidades racializadas já não é apenas retórica: tornou-se norma para uma parte significativa da sociedade. E isso tem efeitos concretos.

Quando o preconceito ganha aval institucional
“Aquilo que antes era dito em voz baixa ou com vergonha, hoje é proclamado com orgulho”, afirma Maria José Vicente, socóloga do Observatório das Desigualdades. “As pessoas sentem-se autorizadas a discriminar porque veem os seus preconceitos validados por figuras com estatuto institucional. Ventura não criou o racismo — mas deu-lhe uma casa, um púlputo e um microfone.”

Este fenómeno é conhecido internacionalmente como licença moral. Um termo da psicologia social que descreve a forma como os indivíduos, ao verem comportamentos discriminatórios promovidos por figuras de autoridade, se sentem libertos das normas sociais que os contêm.

A nível empírico, os sinais são cada vez mais visíveis. O número de denúncias por discriminação racial recebidas pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) aumentou 72% entre 2019 e 2024. Muitas das queixas referem episódios em contextos quotidianos: escolas, transportes públicos, serviços de saúde.

Um novo léxico de exclusão
O impacto do Chega ultrapassa o conteúdo das suas mensagens. Está na forma como muda o vocabulário político e mediático. A insistência em termos como “subsídio-dependentes”, “imigrantes ilegais”, “bandos de ciganos” ou “limpeza étnica inversa” molda a forma como os media relatam a realidade — e como o público a interpreta.

“O Chega impôs à comunicação social uma nova gramática de confronto”, diz Rui Nunes, jornalista e editor de política. “Se não usamos os mesmos termos, somos acusados de censura ou conivência. Mas se os usamos, normalizamos a sua ideologia.”

Este dilema tem afectado particularmente as redações dos principais meios de comunicação, muitas das quais hesitam entre o dever de informar e o risco de amplificar propaganda discriminatória.

Violência simbólica e efeitos reais
Os discursos proferidos em sessões parlamentares ou em comícios são, por vezes, desvalorizados como “opiniões”. Mas os especialistas alertam: a linguagem constrói realidade.

“Quando alguém diz que os ciganos são um problema de segurança, ou que os imigrantes estão a roubar empregos, está a preparar o terreno para políticas repressivas — e para comportamentos violentos”, afirma Sónia Pereira, ex-Alta Comissária para as Migrações. “É um tipo de violência simbólica que, a prazo, gera violência física.”

De facto, vários casos recentes de agressões com motivação racial invocaram slogans do Chega ou frases ditas pelo seu líder. Em Coimbra, em Abril deste ano, um homem foi espancado numa praça pública enquanto os agressores gritavam “Portugal para os portugueses” — uma das frases mais repetidas nos comícios do partido.

O papel dos “pais simbólicos”
Na psicologia política, fala-se do conceito de “pai simbólico”: figuras de autoridade cuja aprovação molda comportamentos sociais. Para muitos jovens, André Ventura cumpre esse papel. É visto como alguém que “diz as verdades”, que “não tem medo”, que “põe ordem”.

“O problema não é só o que Ventura diz. É quem ele passou a representar para um segmento da população — especialmente jovens homens inseguros, socialmente frustrados, à procura de um modelo de força”, explica o psicólogo Hugo Almeida, especializado em masculinidades e discurso político.

Este perfil de identificação tem paralelo noutros contextos internacionais: Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Orbán na Hungria. O padrão repete-se. Um líder carismático e autoritário fornece uma visão maniqueísta do mundo e uma saída para a frustração social — direccionada quase sempre contra os mais vulneráveis.

E a resposta democrática?
Perante este cenário, a resposta das instituições democráticas portuguesas tem sido, em grande parte, tímida. O Parlamento tem recusado aplicar sanções disciplinares firmes a deputados do Chega por declarações ofensivas. Os grandes partidos oscilam entre o confronto directo e o silêncio estratégico, receando dar palco ao adversário.

Mas o custo desse silêncio pode ser alto. “O que está em causa não é apenas o discurso, mas os limites da democracia portuguesa”, adverte Maria José Vicente. “Se permitirmos que o racismo institucional se normalize por medo ou cálculo político, perdemos todos.”

O Conselho Nacional de Ética para as Ciências Sociais publicou recentemente um parecer alertando para a necessidade de reforçar os mecanismos de monitorização do discurso político. Propõe a criação de um observatório independente e a revisão das normas de responsabilização parlamentar por linguagem discriminatória.

O racismo não nasce nas urnas — mas legitima-se nelas
Nas próximas eleições legislativas, o Chega poderá vir a ser o segundo partido mais votado, segundo sondagens recentes. Isso coloca uma questão crucial: o voto pode tornar o racismo aceitável?

A resposta democrática, afirmam os especialistas, não deve passar pela censura ou pela proibição. Mas pela visibilidade do contraditório, pela pedagogia pública e pela revalorização do contrato democrático.

“Estamos a enfrentar uma batalha cultural — e o campo de batalha é a linguagem”, conclui Rui Nunes. “Ou reafirmamos o valor da dignidade humana, ou ficamos reféns de quem a despreza.”

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