Resumo
- Cita-se a “tradição católica” como âncora de autoridade e de “ordem moral”, ao mesmo tempo que se promove a exclusão de ciganos, refugiados e muçulmanos.
- Estas afirmações têm incomodado certos sectores católicos mais alinhados com a nova direita, que preferem um catolicismo de trincheira, puramente cultural e identitário, ao compromisso com a justiça social e os direitos humanos.
- A tradição cristã — como a judaica e a islâmica — nasceu do confronto com o abuso de poder, não da sua justificação.
Quando o sagrado é transformado em slogan, perde-se a liberdade da fé.
Nos últimos anos, Deus voltou ao debate político — não como tema de reflexão espiritual, mas como argumento de combate. Em comícios e redes sociais, candidatos erguem crucifixos, citam versículos, reclamam a bênção divina sobre programas partidários. Não se trata de um ressurgimento da fé pública no sentido ético ou comunitário. Trata-se, antes, de um fenómeno mais inquietante: a instrumentalização da religião ao serviço de projectos populistas e autoritários.
A esta realidade, vários estudiosos chamam a “domesticação de Deus”: uma tentativa de transformar o transcendente num aliado conveniente do poder, subvertendo o papel crítico, profético e libertador das tradições religiosas.
Um Deus útil ao poder
Em Portugal, o partido Chega tem sido o exemplo mais explícito deste uso táctico da religião. Invoca-se a “cultura cristã” para atacar o multiculturalismo, a imigração e os direitos das minorias. Cita-se a “tradição católica” como âncora de autoridade e de “ordem moral”, ao mesmo tempo que se promove a exclusão de ciganos, refugiados e muçulmanos.
“É um Deus com função política e disciplinadora”, observa a teóloga Maria Antónia Teixeira, professora da Universidade Católica. “Não se trata de fé vivida, mas de uma figura simbólica moldada às necessidades do partido. É o que chamamos de domesticação: Deus deixa de ser livre e incómodo, e passa a servir a retórica do poder.”
Este fenómeno não é exclusivo do Chega. Tem paralelos claros no bolsonarismo brasileiro, no trumpismo evangélico, e nas novas direitas europeias, que invocam o “judaico-cristianismo” como barreira contra o Islão e os valores progressistas.
Papa Francisco: um grito contra a manipulação
Face a este uso distorcido da religião, o Papa Francisco tem sido uma das vozes mais firmes e consequentes. Na encíclica Fratelli Tutti (2020), alertou contra “as formas de populismo que manipulam a fé para fins de dominação”. No documento Evangelii Gaudium, já em 2013, escrevia: “A Igreja não deve tornar-se uma ONG espiritual nem permitir que o Evangelho seja colonizado por interesses ideológicos.”
Mais recentemente, em declarações sobre o avanço da extrema-direita na Europa, Francisco foi claro: “Não se pode ser cristão e xenófobo. Não se pode amar Cristo e desprezar o estrangeiro. Não se pode invocar Deus e semear o ódio.”
Estas afirmações têm incomodado certos sectores católicos mais alinhados com a nova direita, que preferem um catolicismo de trincheira, puramente cultural e identitário, ao compromisso com a justiça social e os direitos humanos.
Religião ou moral de conveniência?
O risco maior deste processo de domesticação é a criação de uma “religião política” — uma moral de conveniência, esvaziada de transcendência, que apenas reforça os preconceitos dominantes.
“É uma religião sem Deus e sem misericórdia”, diz o pastor luterano Anselmo Ramires. “Serve para legitimar o medo, o racismo, o patriarcado. Mas não para transformar o mundo segundo os critérios do Reino de Deus.”
Este tipo de religião moralista, reduzida a slogans sobre família, autoridade e ordem, ignora os elementos centrais da fé: o perdão, o cuidado com os pobres, a dignidade de todos os seres humanos, crentes ou não.
A liberdade de Deus
O teólogo e filósofo francês Jean-Luc Nancy escreveu que “a fé ou é livre ou não é fé”. A história da religião está repleta de momentos em que a fé se opôs aos poderes do mundo: Moisés frente ao faraó, os profetas frente aos reis injustos, Jesus frente ao império romano. A tradição cristã — como a judaica e a islâmica — nasceu do confronto com o abuso de poder, não da sua justificação.
Por isso, usar a religião como muleta do Estado, ou como justificação para políticas de exclusão, é uma traição à própria essência da fé.
A islamóloga portuguesa Samira Bensaïd sublinha esse ponto: “No Islão, Deus é o Misericordioso. Quando um político invoca a religião para dividir, punir ou humilhar, está a profanar o nome de Deus.”
Um alerta para os crentes
Este fenómeno coloca um desafio ético urgente às comunidades de fé: resistir à tentação da influência fácil, da bênção ao poder, da acomodação ao discurso dominante.
“Se os crentes aceitarem esta instrumentalização, tornam-se cúmplices da mentira”, alerta o rabino Natan Eliezer, da Comunidade Judaica de Lisboa. “A religião deve ser fermento, não decoração. Voz crítica, não eco do poder.”
Num tempo em que o populismo procura vestir-se de cruz, meia-lua ou estrela de David, é imperativo que os fiéis de todas as tradições recordem a lição fundamental: Deus não é propriedade de nenhum partido. Deus não serve a nenhum trono.