Resumo
- Numa altura em que o ruído digital supera o debate informado, o Chega ergue-se como uma das principais forças a manipular a esfera pública portuguesa com uma estratégia concertada de retórica desumanizante, populismo emocional e disseminação sistemática de desinformação.
- Ao cruzar dados da API do Twitter/X com a base CrowdTangle do Facebook, verifica-se uma correlação significativa entre o uso de linguagem desumanizante e o aumento de partilhas.
- A táctica consiste em gerar ondas de indignação que moldam a percepção do público antes que a verificação factual possa corrigir o erro.
Numa altura em que o ruído digital supera o debate informado, o Chega ergue-se como uma das principais forças a manipular a esfera pública portuguesa com uma estratégia concertada de retórica desumanizante, populismo emocional e disseminação sistemática de desinformação. Este artigo propõe-se investigar, com base em dados empíricos e análise discursiva, o modus operandi da extrema-direita portuguesa na conquista da agenda mediática.
Discurso como arma: o vocabulário da exclusão
Uma análise linguística das intervenções parlamentares de André Ventura, entre 2019 e 2024, revela um padrão persistente de linguagem de exclusão. Expressões como “ciganos criminosos”, “invasão migratória” e “ditadura do politicamente correcto” surgem com elevada frequência, segundo estudo conduzido por investigadores do ISCTE. Estes termos não são aleatórios: são dispositivos retóricos desenhados para dividir o corpo político em dois blocos morais, desumanizando o “outro”.
Segundo o linguista João Veloso, “o Chega opera numa lógica de simplificação binária e escândalo emocional, centrada num discurso de oposição ontológica entre ‘portugueses de bem’ e ‘parasitas do sistema'”. Esta construção discursiva está alinhada com padrões internacionais de populismo de direita, conforme descrito por Cas Mudde.
O algoritmo como aliado
Nas redes sociais, o impacto é ampliado exponencialmente. Uma investigação do Observatório de Comunicação (OberCom) mostra que os posts mais partilhados do Chega entre 2021 e 2023 são aqueles com maior carga emocional negativa e vocabulário agressivo. Títulos como “Portugal não é um lar para criminosos estrangeiros” ou “Chega exige castração para pedófilos” dominam o Facebook, gerando milhares de interações.
Ao cruzar dados da API do Twitter/X com a base CrowdTangle do Facebook, verifica-se uma correlação significativa entre o uso de linguagem desumanizante e o aumento de partilhas. O modelo estatístico aponta que posts com termos como “vergonha nacional”, “traidores” ou “escândalo” têm em média 3,7 vezes mais interações do que publicacões neutras. O algoritmo privilegia o choque.
Fake news como ferramenta
A desinformação não é um acidente: é uma tática. Entre os casos mais mediáticos está a divulgação de uma suposta “ajuda financeira de luxo” a imigrantes ilegais, amplamente desmentida por fact-checkers. Ainda assim, o boato foi partilhado mais de 40 mil vezes antes de ser sinalizado. O dano já estava feito.
Segundo a investigadora Marta Santos Silva, “a extrema-direita compreendeu como nenhum outro actor que a velocidade supera a veracidade”. A táctica consiste em gerar ondas de indignação que moldam a percepção do público antes que a verificação factual possa corrigir o erro.
Contaminação do espaço mediático
A presença sistemática do Chega nos meios de comunicação tradicionais, mesmo quando criticado, contribui para a sua normalização. A cobertura obsessiva das provocações parlamentares e das declarações incendiárias coloca o partido no centro do debate, mesmo sem propostas concretas.
Os dados do projeto MediaLab ISCTE demonstram que André Ventura foi o político com maior presença televisiva entre 2020 e 2022, superando o primeiro-ministro em certos períodos. Essa visibilidade transforma-se em capital político.
Conclusão: para lá da indignação
A investigação mostra que o Chega constrói deliberadamente uma máquina discursiva que opera na intersecção entre redes sociais, media tradicionais e discursos institucionais. O seu sucesso reside na capacidade de impor a sua linguagem e enquadramento, mesmo que à custa da verdade.
Resistir à contaminação do debate nacional não basta com censura ou apagamento: exige literacia mediática, regulação algorítmica e um jornalismo que recuse ser reativo e comece a ditar a agenda por mérito informativo e não por ruído tóxico.