Resumo
- Paulo Rangel declarou que “o Estado português não tem nada que proteger, nem acompanhar” — como se a fome em Gaza fosse apenas uma nota de rodapé diplomática e como se a presença de cidadãos portugueses numa missão humanitária fosse irrelevante.
- Num tempo em que imagens de crianças famintas e hospitais destruídos circulam todos os dias, a diplomacia portuguesa reduz-se a tecnicalidades jurídicas.
- Ao lavar as mãos, o Governo português falha não apenas os seus cidadãos a bordo da flotilha, mas falha também o princípio que deveria orientar a política externa.
Há momentos na história em que a neutralidade não é prudência. É cumplicidade. A posição do Governo português face à Flotilha para Gaza é um desses momentos.
Enquanto Espanha decidiu proteger os seus cidadãos e assumir que a legalidade internacional tem de ser defendida, Portugal optou pelo recuo. Paulo Rangel declarou que “o Estado português não tem nada que proteger, nem acompanhar” — como se a fome em Gaza fosse apenas uma nota de rodapé diplomática e como se a presença de cidadãos portugueses numa missão humanitária fosse irrelevante.
É moralmente inaceitável. Num tempo em que imagens de crianças famintas e hospitais destruídos circulam todos os dias, a diplomacia portuguesa reduz-se a tecnicalidades jurídicas. Rangel prefere discutir imunidades parlamentares em vez de defender o valor universal da vida humana. O seu discurso pode ser juridicamente cauteloso, mas politicamente é devastador: Portugal aparece como um país tímido, incapaz de assumir uma voz clara pela paz.
O défice aqui não é apenas diplomático. É moral. Ao lavar as mãos, o Governo português falha não apenas os seus cidadãos a bordo da flotilha, mas falha também o princípio que deveria orientar a política externa: estar do lado dos mais vulneráveis.
A solidariedade não é “inusitada”, como disse o ministro. O inusitado é um Estado que, perante uma catástrofe humanitária reconhecida pelo próprio, decide afastar-se e refugiar-se no conforto da inação.
Portugal já foi um país que se orgulhava de estar “do lado certo da história”, do Timor-Leste à abolição da pena de morte. Hoje, perante Gaza, hesita, esconde-se, evita confrontos. Mas a paz não se constrói com silêncio. Constrói-se com coragem.
Este episódio expõe a crise moral da nossa diplomacia. Uma crise que não se resolve com notas conjuntas da União Europeia, nem com declarações calculadas para não ofender Israel. Resolve-se com escolhas. Espanha escolheu proteger. Portugal escolheu omitir-se.
E a omissão, num momento como este, é uma escolha política — e uma escolha moralmente errada.