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Resumo

  • Com o crescimento da extrema-direita em Portugal, e particularmente do partido Chega, o multiculturalismo tornou-se alvo directo de desconfiança, manipulação e rejeição.
  • A retórica populista apela a uma “Portugalidade cristã” que, em nome da tradição, recusa a diversidade cultural e religiosa do país actual.
  • Em Fevereiro deste ano, um grupo de líderes religiosos de diferentes confissões assinou em Lisboa a Carta de São Vicente, em defesa do pluralismo, da liberdade religiosa e do acolhimento.

A retórica populista desafia os princípios religiosos do acolhimento e da fraternidade.


Lisboa, 19 de Julho de 2025 – Nos textos sagrados das três grandes religiões monoteístas, o estrangeiro não é ameaça. É irmão, hóspede, figura sagrada. O mandamento de amar o outro, independentemente da sua origem, está no coração da fé judaica, cristã e islâmica. No entanto, esse princípio milenar está hoje sob fogo cruzado, em nome da identidade nacional.

Com o crescimento da extrema-direita em Portugal, e particularmente do partido Chega, o multiculturalismo tornou-se alvo directo de desconfiança, manipulação e rejeição. A retórica populista apela a uma “Portugalidade cristã” que, em nome da tradição, recusa a diversidade cultural e religiosa do país actual.

Mas que fé é esta que rejeita o próximo?


Fraternidade ou fronteira?

“Portugal é um país cristão, e deve continuar a sê-lo.” Esta frase tem sido repetida por André Ventura, em comícios e entrevistas. Mas no seu discurso político, a referência ao cristianismo parece menos inspirada pelos Evangelhos do que por uma ideia de supremacia cultural.

O Papa Francisco, ao contrário, tem insistido: “A fraternidade não exclui ninguém.” Na encíclica Fratelli Tutti, lembra que a verdadeira fidelidade à fé implica o acolhimento do diferente — do migrante, do pobre, do marginalizado. “O imigrante não é um problema a resolver, mas um irmão a acolher.”

Este princípio é ecoado no Islão: o Profeta Muhammad recomendava cuidar do forasteiro como se fosse da família. E no Judaísmo, a Torá é explícita: “Não oprimirás o estrangeiro, pois foste estrangeiro na terra do Egipto.”

Esses mandamentos espirituais entram hoje em colisão com as propostas de políticas migratórias restritivas, campanhas de medo e estigmatização de minorias promovidas pela nova direita.


A religião como escudo e como alvo

Nas comunidades religiosas compostas por imigrantes — muçulmanos do Magrebe e Guiné, cristãos da Nigéria, evangélicos brasileiros, hindus de Goa —, a fé é muito mais do que uma crença: é ponto de apoio, espaço de dignidade e rede de sobrevivência.

“Somos uma comunidade de oração e de resistência”, diz o imã Omar Farid, da Mesquita do Martim Moniz. “Ensinamos os nossos filhos a respeitar este país, que também é o nosso. Mas sentimos que, para alguns, nunca seremos portugueses.”

Na Igreja de Todos os Povos, uma comunidade evangélica em Setúbal, a pastora Carla Ramos acompanha famílias de origem africana ameaçadas de despejo. “O problema não é a religião, é a cor da pele e o sotaque. Quando os políticos dizem ‘Portugal primeiro’, há quem nos oiça como ‘tu não és bem-vindo’.”

Este sentimento é partilhado por muitos jovens de segunda geração, nascidos em Portugal, com fé activa e cidadania formal, mas olhados com suspeita. A retórica do Chega, ao sugerir que “os verdadeiros portugueses” pertencem a uma matriz cultural única, exclui na prática todos os que escapam ao modelo normativo branco, cristão, ocidental.


A resposta inter-religiosa

Apesar da gravidade do discurso de ódio, surgem sinais de resistência ética. Em Fevereiro deste ano, um grupo de líderes religiosos de diferentes confissões assinou em Lisboa a Carta de São Vicente, em defesa do pluralismo, da liberdade religiosa e do acolhimento. Entre os signatários estavam o arcebispo D. Manuel Clemente, o rabino Natan Eliezer e o sheikh Youssef Mesbah.

“A religião não pode ser usada para dividir”, diz a teóloga evangélica Margarida Lopes, uma das impulsionadoras da iniciativa. “Quando a fé se transforma num marcador de exclusão, deixou de ser fé. Tornou-se ideologia disfarçada de espiritualidade.”

Nas palavras da própria carta: “Negar a dignidade do outro em nome de Deus é uma blasfémia.”


Entre a cruz e o voto

O paradoxo agrava-se quando se verifica que parte do eleitorado que apoia políticas anti-imigração é, precisamente, praticante de religiões que pregam a inclusão. Como se a cruz servisse para excluir, não para abraçar. Como se os sermões sobre o Bom Samaritano não tivessem tradução no boletim de voto.

Para o sociólogo da religião Rui Abrantes, trata-se de um fenómeno de dissociação ética: “As pessoas votam com medo, não com consciência. A fé é vivida ao domingo, mas os valores que a sustentam não entram na esfera política. É uma crise de coerência.”


A escolha entre humanidade e indiferença

O multiculturalismo não é uma ideologia. É uma realidade. Portugal do século XXI é diverso — nas ruas, nas escolas, nas celebrações religiosas, nas músicas e nas línguas. Fingir o contrário é não só impraticável, mas perigoso.

Como recorda o padre José Félix, da Paróquia da Penha de França: “Ou fazemos da diversidade um dom, ou fazemos dela um campo de batalha. Mas a escolha é nossa. E ser cristão — ser crente — é escolher a humanidade.”

Quando a política tenta erguer muros onde a fé mandaria abrir portas, é dever dos crentes — e dos cidadãos — recusar a instrumentalização e afirmar o que une: a dignidade inviolável de cada pessoa, seja qual for o seu nome, a sua origem ou o seu Deus.


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