Combater desinformção em Portugal: soluções reais (e as que falham) depois das presidenciais - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • 1) Transparência com linguagem de genteQuando a CNE ou a ERC comunicam, a informação tem de ser legível e partilhável.
  • Funciona rotular cedo e de forma visível — não em notas escondidas — tudo o que imita jornalismo sem o ser.
  • O relatório aponta sinais de simultaneidade/coordenação no universo Meta na segunda volta, o que reforça a necessidade de auditoria externa às plataformas quando há padrões anómalos de ampliação.

O relatório do LabCom/UBI (ODEPOL) termina com uma ideia que soa óbvia mas raramente é praticada: o combate à desinformação exige esforço coordenado entre reguladores, plataformas, media e sociedade civil. Não é frase de fecho, é diagnóstico. Em 2026, conteúdos desinformativos somaram 8.392.713 visualizações e centenas de milhares de interações. A velocidade do dano foi maior do que a velocidade da resposta.
A pergunta útil, portanto, não é “quem falhou?”. É “o que funciona mesmo quando o feed quer o contrário?”.

O que funciona: respostas que entram no mesmo ecossistema

1) Transparência com linguagem de gente
Quando a CNE ou a ERC comunicam, a informação tem de ser legível e partilhável. Um esclarecimento em formato de despacho não compete com um vídeo de 12 segundos. E o relatório mostra que o vídeo dominou (70,6%). Se a mentira usa vídeo, a correção também tem de usar vídeo — curto, claro, sem moralismo.

2) Cortar o oxigénio à camuflagem
A ERC já alertou para conteúdos com grafismos semelhantes aos de órgãos de comunicação, precisamente porque isso “empresta” credibilidade e engana pela aparência. Funciona rotular cedo e de forma visível — não em notas escondidas — tudo o que imita jornalismo sem o ser.

3) Auditoria independente e dados de alcance
Sem dados, discute-se sensação. E sensação é o terreno preferido da desinformação. O relatório aponta sinais de simultaneidade/coordenação no universo Meta na segunda volta, o que reforça a necessidade de auditoria externa às plataformas quando há padrões anómalos de ampliação.

4) Literacia mediática aplicada, não cerimonial
O que resulta não são “palestras sobre fake news”. Resulta treino prático: origem do vídeo, data, localização, cortes, legendas, “sondagens” sem ficha técnica. O relatório dá exemplos de “contexto falso” (como o vídeo PETA 2018 do Egito usado como se fosse Portugal) que são perfeitos para ensinar método.
Uma marca de realidade: numa Junta de Freguesia, o que pega não é a teoria. É quando alguém abre o telemóvel e aprende a procurar a origem em dois passos.
Daquela promessa, restou apenas o eco.

O que falha: medidas bonitas que não mudam comportamento
— Desmentidos tardios e longos: chegam quando a história já correu três vezes e já ganhou “verdade social”.
— Campanhas morais (“não partilhe”): culpam o cidadão e não mexem nos incentivos do algoritmo.
— Respostas fragmentadas: cada entidade fala por si, em ritmos diferentes, e a desinformação aproveita o intervalo.

Poderiam argumentar que isto é pedir demasiado e que não há recursos para tudo. A concessão honesta é esta: sim, há limites — orçamento, pessoal, tempo, e a tentação de regular em excesso é real. Mas o custo de não fazer nada é mais alto: normaliza-se o ataque ao árbitro. E o relatório mostra que 41,2% dos casos foram ataques à imprensa e jornalistas.
A frase de impacto: sem coordenação, a democracia responde aos soluços e a mentira avança a correr.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

IMIGRAÇÃO EM SUSPENSO: O QUE MUDA (E O QUE SE MANTÉM) DEPOIS DO CHUMBO DA LEI DOS ESTRANGEIROS

Partilha
Partilha Resumo Explicamos o que está suspenso, o que continua em vigor…

CICDR vs. OSCE: que padrões europeus de combate ao ódio se refletem nos casos portugueses?

Partilha
Nos últimos anos, Portugal tem vindo a enfrentar um fenómeno inédito na sua história democrática: o crescimento de discursos políticos com marca discriminatória explícita. Em resposta, o país começou a mobilizar os seus mecanismos institucionais de contenção — com destaque para a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR), que desde 2020 tem proferido deliberações contra figuras públicas por declarações de natureza racista, segregadora ou xenófoba. Contudo, os padrões que sustentam essas deliberações não são exclusivamente nacionais. São também o reflexo de compromissos internacionais, nomeadamente com entidades como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), cuja atuação no domínio dos direitos humanos, nomeadamente através do ODIHR (Office for Democratic Institutions and Human Rights), tem servido como referência para muitos países.