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Resumo

  • Organizações como a Anti-Defamation League (ADL) e o Ministério dos Assuntos da Diáspora de Israel têm promovido, nos últimos anos, uma definição de antissemitismo que inclui a crítica a Israel ou à sua fundação como forma de discriminação.
  • A ONG Human Rights Watch alertou, em relatório de 2022, que “o uso da definição da IHRA está a ser instrumentalizado para suprimir o discurso legítimo sobre violações de direitos humanos em Israel e nos territórios ocupados.
  • Nos Estados Unidos, o apoio incondicional a Israel por parte de sectores cristãos evangélicos — muitos com historial antissemita — mostra que a solidariedade com o Estado israelita nem sempre é movida por empatia com os judeus, mas por agendas geopolíticas e religiosas.


“A liberdade de expressão termina onde começa o ódio” — frase comum nas democracias ocidentais. Mas e quando o próprio conceito de ódio é manipulado para silenciar a crítica legítima?

Vivemos numa era em que a crítica a Estados é cada vez mais confundida com ataques a povos. No epicentro deste dilema, o caso de Israel e da Palestina levanta uma questão incómoda e urgente: onde termina o antissionismo e começa o antissemitismo? E mais importante ainda: quem desenha essa linha?

Num mundo saturado de desinformação e tensões identitárias, a confusão entre antissionismo e antissemitismo tornou-se uma poderosa arma política. Uma acusação capaz de destruir carreiras, encerrar debates e transformar o contraditório democrático em tabu. É preciso, pois, esclarecer conceitos — e compreender o que está em jogo.

Antissionismo não é negação do Holocausto

Para começar, é vital distinguir os termos. O antissemitismo é um preconceito racial, religioso e cultural contra os judeus enquanto povo. Historicamente, alimentou perseguições, pogroms e culminou na Shoá, o Holocausto nazi. É um crime moral e, em muitos países, legalmente punível.

O antissionismo, por sua vez, é uma oposição política ao sionismo como ideologia de Estado, isto é, à doutrina que justifica a existência de Israel como Estado exclusivamente judeu. Há judeus antissionistas. Há sionistas não judeus. Há palestinianos judeus. Esta realidade factual desmonta a equivalência automática tantas vezes invocada por sectores políticos e mediáticos.

O historiador israelita Ilan Pappé afirma que “reduzir toda crítica a Israel à categoria de antissemitismo é um insulto aos que sofreram o verdadeiro antissemitismo”. O mesmo ecoa Norman Finkelstein, académico judeu e filho de sobreviventes do Holocausto: “Israel usa o Holocausto como escudo moral para justificar o injustificável.”

A manipulação do conceito: quem beneficia?

Organizações como a Anti-Defamation League (ADL) e o Ministério dos Assuntos da Diáspora de Israel têm promovido, nos últimos anos, uma definição de antissemitismo que inclui a crítica a Israel ou à sua fundação como forma de discriminação. Esta abordagem foi institucionalizada através da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance), cuja definição alargada de antissemitismo foi adoptada por vários governos europeus e universidades.

O problema é que esta definição, apesar de não ser juridicamente vinculativa, tem sido usada para criminalizar activismo político e académicos, especialmente aqueles que apoiam a campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções). Universidades britânicas têm sido pressionadas a cancelar conferências. Professores têm sido investigados. Estudantes têm perdido bolsas.

A ONG Human Rights Watch alertou, em relatório de 2022, que “o uso da definição da IHRA está a ser instrumentalizado para suprimir o discurso legítimo sobre violações de direitos humanos em Israel e nos territórios ocupados.”

Silenciamento e auto-censura

O resultado deste ambiente é um efeito paralisante sobre o discurso público. Jornalistas hesitam em escrever sobre Gaza. Deputados evitam usar palavras como “apartheid” — mesmo quando são as próprias organizações israelitas (como a B’Tselem) a fazê-lo. Activistas palestinianos vivem sob ameaça permanente de difamação e isolamento.

Falámos com Dalia, estudante universitária palestiniana na Europa, que viu o seu grupo académico suspenso após organizar um debate sobre colonatos israelitas. “Fui acusada de antissemitismo por citar relatórios da ONU. Foi como um julgamento sem defesa”, relata.

Este tipo de repressão simbólica não é apenas um ataque à liberdade de expressão — é uma distorção profunda do próprio conceito de antissemitismo, que deveria proteger, e não silenciar.

A esquerda dividida, a direita instrumentaliza

Curiosamente, quem mais tem beneficiado desta confusão é a extrema-direita global, que simultaneamente apoia Israel enquanto mantém discursos xenófobos e racistas contra judeus, muçulmanos, africanos e migrantes em geral.

Nos Estados Unidos, o apoio incondicional a Israel por parte de sectores cristãos evangélicos — muitos com historial antissemita — mostra que a solidariedade com o Estado israelita nem sempre é movida por empatia com os judeus, mas por agendas geopolíticas e religiosas.

A jornalista Michelle Goldberg escreveu no New York Times: “É possível amar Israel e odiar judeus. O que se vê hoje é um apoio instrumental a Israel para servir interesses próprios — e calar vozes críticas.”

É possível criticar Israel sem ser antissemita?

Sim. Deveria, aliás, ser um direito básico. A crítica a um governo — seja israelita, turco, iraniano ou português — não equivale a ódio ao seu povo. Quando a crítica é baseada em factos, centrada em políticas concretas e formulada dentro do espaço democrático, deve ser protegida e não punida.

É urgente recuperar esta distinção, sobretudo porque ela serve não apenas os interesses do debate democrático, mas a memória histórica das vítimas reais do antissemitismo. Transformar esse sofrimento em arma política é, no mínimo, uma forma de profanação.

Conclusão: a coragem de falar claro

A crítica legítima ao apartheid, à ocupação e à repressão deve ser defendida com rigor e clareza. O antissemitismo é real, grave e inaceitável. O antissionismo é uma posição política válida e, por vezes, ética. Confundir os dois é manipulação — e essa manipulação tem vítimas.

Se queremos proteger o discurso livre, o pluralismo e a dignidade humana, temos de recusar o uso do antissemitismo como mordaça política. Há uma linha. Ela existe. Mas não é onde nos querem fazer crer que está.

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