Crise humanitária em Gaza: a guerra regional afastou os olhos, não a fome - Sociedade Civil
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Resumo

  • Trouxe a troca de reféns e prisioneiros, o regresso da ajuda humanitária e uma linha de demarcação a que Israel chamou "Linha Amarela".
  • Mas a violência não parou, e o mapa continua a ser redesenhado a favor de um dos lados.
  • A 28 de maio, um ataque noturno israelita a estruturas e tendas de deslocados em Gaza City matou 10 pessoas, segundo as autoridades de saúde locais.

Oito meses de cessar-fogo em Gaza: a trégua que coexiste com bombardeamentos e expansão territorial

Há um cessar-fogo em Gaza desde 10 de outubro de 2025, e na última semana morreram lá pelo menos 20 pessoas em ataques israelitas, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. A frase contém a contradição que define este momento: a trégua existe no papel e falha no terreno.

O acordo nasceu do plano de 20 pontos da Administração Trump. Trouxe a troca de reféns e prisioneiros, o regresso da ajuda humanitária e uma linha de demarcação a que Israel chamou "Linha Amarela". A pausa foi real. O fim da guerra, não.

A linha que se move

Quando o cessar-fogo entrou em vigor, Israel controlava 53% da Faixa de Gaza. O plano norte-americano previa retiradas faseadas que reduziriam esse controlo para cerca de 40% e, depois, para 15%. Nada disso aconteceu.

Em fevereiro, o então ministro da Defesa Israel Katz declarou que Israel não recuaria "um milímetro" antes do desarmamento do Hamas. No final de maio, num colonato do Vale do Jordão, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que Israel controla agora 60% do território. A linha temporária moveu-se — não para trás, como previa o acordo, mas para dentro dos bairros residenciais de Gaza, com novas posições militares e fortificações de betão para lá dos limites combinados.

A pergunta que o leitor de Lisboa pode fazer é simples: então isto ainda é um cessar-fogo? A resposta honesta é que se tornou uma categoria ambígua. As hostilidades caíram de forma drástica face aos dois anos de guerra aberta. Mas a violência não parou, e o mapa continua a ser redesenhado a favor de um dos lados.

Os mortos da última semana

A cronologia recente é seca. A 28 de maio, um ataque noturno israelita a estruturas e tendas de deslocados em Gaza City matou 10 pessoas, segundo as autoridades de saúde locais. A 4 de junho, um novo bombardeamento na mesma cidade fez nove mortos, cinco deles da mesma família, de acordo com socorristas em Gaza. A 5 de junho, um ataque na zona de Mawasi, a oeste de Khan Younis, atingiu tendas de deslocados; agências fotográficas e fontes médicas palestinianas reportaram pelo menos uma rapariga morta e 11 feridos.

Estes números exigem uma advertência que não é detalhe técnico. Provêm do Ministério da Saúde de Gaza, gerido pelo Hamas, e não foram, até ao fecho desta peça, verificados de forma independente pelas Nações Unidas. Reportam-se como reportados.

As Forças de Defesa de Israel confirmaram operações nestas datas. No caso de 4 de junho, afirmaram ter atingido comandantes do "mecanismo de segurança geral" do Hamas. Sobre o ataque em Khan Younis, não houve comentário imediato. A versão israelita é, de forma consistente, a de que visa militantes — uma posição que faz parte do quadro tanto quanto os números das vítimas.

Uma trégua, dois lados a disparar

Convém não simplificar. Uma análise do grupo J Street sobre os primeiros seis meses do cessar-fogo concluiu que ambos os lados violaram o acordo. Combatentes do Hamas, escondidos em túneis do lado controlado por Israel, atacaram soldados israelitas de forma intermitente; quatro militares israelitas morreram nesses ataques desde o início da trégua. Do lado israelita, a mesma análise contabilizou mais de 700 palestinianos mortos no mesmo período.

Daquele plano de paz de 20 pontos, anunciado com solenidade em outubro, restou sobretudo a pausa inicial. As metas seguintes — retirada, força internacional de estabilização, reconstrução — ficaram em grande parte por cumprir. A trégua segura aguenta-se. A paz que prometia, essa, continua adiada.

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