Políticas públicas: como nasce uma lei que muda a sua vida - Sociedade Civil
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Resumo

  • A política transformou-se numa batalha de representações — quem domina o ciclo noticioso da semana, quem ganha o confronto simbólico do dia — enquanto, por baixo, o trabalho de base que demora anos e não dá manchete simplesmente deixou de se fazer.
  • a de que conexão é o mesmo que envolvimento, visibilidade é o mesmo que poder e discurso é o mesmo que organização.
  • Aqui tenho de me travar a mim mesmo, antes que esta coluna deslize para a lamentação fácil de que a esquerda abandonou a sociedade.

Houve um tempo em que a esquerda vivia nos sítios onde as pessoas viviam. Estava no sindicato à porta da fábrica, na coletividade do bairro, na associação recreativa, na cooperativa, na sede onde se jogava às cartas e se discutia a vida. Não eram apenas estruturas políticas. Eram a maneira como a esquerda ouvia o país todos os dias, sem precisar de uma sondagem para isso. Essa rede capilar — essas mediações, como lhes chamam os sociólogos — fazia o trabalho silencioso de ligar o partido ao quotidiano. E quase toda desapareceu.

O que veio no seu lugar tem nome técnico: democracia de público. Em português simples, trocámos o militante pelo gestor de comunicação. A mobilização de quem ia bater à porta deu lugar à assessoria de imprensa, à campanha profissionalizada, à narrativa curta para as redes. Onde havia gente a organizar gente, passou a haver gente a produzir conteúdo sobre gente. A política transformou-se numa batalha de representações — quem domina o ciclo noticioso da semana, quem ganha o confronto simbólico do dia — enquanto, por baixo, o trabalho de base que demora anos e não dá manchete simplesmente deixou de se fazer.

E instalou-se uma ilusão perigosa, que não é só nossa mas que nos apanhou em cheio: a de que conexão é o mesmo que envolvimento, visibilidade é o mesmo que poder e discurso é o mesmo que organização. Publicar uma bandeira é confundido com fazer política. Um fio de mensagens indignadas dá a sensação de combate sem que nada se mova fora do ecrã. O problema não é a indignação estar errada — muitas vezes está certíssima. O problema é que ela se basta a si própria. Esgota-se no aplauso de quem já pensa como nós e nunca chega a virar pressão real sobre uma empresa, uma autarquia, um governo.

Aqui tenho de me travar a mim mesmo, antes que esta coluna deslize para a lamentação fácil de que a esquerda abandonou a sociedade. Não abandonou, e os dados desmentem quem o diz com ligeireza: comparada com a direita, a esquerda mantém ligações claramente mais densas a associações, sindicatos e organizações cívicas. Continuamos mais entrelaçados no tecido social do que os nossos adversários alguma vez estiveram. A questão não é ausência. É outra, e é mais incómoda: as velhas mediações orgânicas morreram, e nós convencemo-nos de que a comunicação as podia substituir. Não saímos da sociedade. Deixámos de saber estar nela à maneira antiga — e não aprendemos uma maneira nova.

Porque a sociedade também mudou debaixo dos nossos pés. Já não há um movimento operário único, uma central que agregue toda a gente, uma estrutura com quem se negoceie em nome de todos. Há dezenas de causas dispersas, voláteis, nascidas e mortas nas plataformas, muitas vezes sem líder com quem falar. E perante este associativismo descentralizado e informal, a esquerda partidária paralisa. Não sabe dialogar com o que não tem cara nem cartão de filiado, teme perder o controlo institucional, e por isso ou ignora estes movimentos ou tenta tutelá-los. Eles, que recusam tutela por definição, afastam-se. Geramos frustração dos dois lados e empurramos para a desilusão gente que devia ser nossa aliada natural.

Reconstruir isto não é fazer o luto romântico da sede sindical dos anos setenta. Essa não volta, e bem. É inventar a capilaridade outra vez, com as ferramentas de agora. Presença territorial verdadeira, não campanhas de aterragem de quinze em quinze dias. Fóruns locais permanentes onde se ouça, em tempo real, quem se queixa do centro de saúde, do transporte que não passa, da casa que não conserva. Transformar a militância em serviço cívico — horas de voluntariado a sério em vez de horas a defender o partido nos comentários. É trabalho ingrato. Não rende likes, não dá entrevista, não se vê ao fim de um mês. Rende ao fim de uma década. E é exatamente por isso que tem sido sempre adiado em favor da próxima polémica.

A esquerda não se perdeu por falta de razão nem por falta de gente disposta. Perdeu-se por ter confundido o ruído com o trabalho. Por ter achado que estar visível era estar presente. Voltar a ligar-se ao país não exige um slogan melhor — exige a paciência de fazer o que nenhum algoritmo recompensa. Essa paciência é, hoje, o gesto mais radical que nos resta.

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