Resumo
- Vinte e cinco dos cinquenta e oito deputados que o Chega elegeu em Maio de 2025 já se cruzaram, directa ou indirectamente, com a justiça ou estiveram envolvidos em casos polémicos, segundo levantamento da CNN Portugal.
- A pergunta é se estamos perante o que estatisticamente acontece em qualquer partido com cinquenta e oito deputados — ou perante uma falha de selecção de candidatos que se repete por estar inscrita na forma como o partido cresceu.
- José Paulo Sousa, deputado regional do Chega no Açores, foi apanhado a conduzir com 2,25 gramas de álcool por litro de sangue — mais do dobro do valor a partir do qual a condução constitui crime.
Quatro candidatos detidos por crimes sexuais contra menores. Um ex-deputado acusado de vinte e um crimes de furto. Dirigentes a contas com a justiça. O slogan tornou-se número.
Vinte e cinco dos cinquenta e oito deputados que o Chega elegeu em Maio de 2025 já se cruzaram, directa ou indirectamente, com a justiça ou estiveram envolvidos em casos polémicos, segundo levantamento da CNN Portugal. Quatro candidatos do partido foram detidos por crimes sexuais contra menores em pouco mais de um ano. O ex-deputado Miguel Arruda foi acusado, em Janeiro de 2026, de vinte e um crimes de furto qualificado no Aeroporto Humberto Delgado. A pergunta deixou de ser se há casos. É outra.
A pergunta é se estamos perante o que estatisticamente acontece em qualquer partido com cinquenta e oito deputados — ou perante uma falha de selecção de candidatos que se repete por estar inscrita na forma como o partido cresceu.
A resposta honesta: o material disponível permite levantar a pergunta. Não permite ainda fechá-la.
A tipologia
Os casos públicos distribuem-se por categorias distintas. A mais grave, pelo carácter dos crimes e pela vulnerabilidade das vítimas, é a dos crimes sexuais envolvendo menores. Nuno Pardal Ribeiro, deputado municipal por Lisboa e antigo vice-presidente da distrital, foi acusado pelo Ministério Público em Fevereiro de 2025 de dois crimes de prostituição de menores agravados após encontros com um rapaz de 15 anos. Rui Pedro Teixeira Moreira, candidato autárquico pela Azambuja em 2021 e 2025, foi detido pela Polícia Judiciária em Dezembro de 2025 por abuso sexual de menores e pornografia infantil. Ivo Faria, cabeça de lista à União de Freguesias de Antime e Silvares S. Clemente em Fafe, foi detido em Março de 2026 — a PJ apreendeu equipamentos informáticos onde identificou centenas de ficheiros. Pedro Pessanha Fernandes, quarto da lista por Lisboa em 2025, é alvo de investigação do Ministério Público por uma alegada denúncia de violação de uma jovem de 15 anos.
Quatro casos. Três detenções judiciais. Um inquérito em curso.
A segunda categoria é o crime patrimonial e contra a segurança rodoviária. Miguel Arruda, deputado pelos Açores eleito em 2024, foi acusado em Dezembro de 2025 de subtrair vinte e uma malas no aeroporto de Lisboa entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025; vendia parte do conteúdo na plataforma Vinted, com remessas a partir do gabinete que ocupava na Assembleia da República. José Paulo Sousa, deputado regional do Chega no Açores, foi apanhado a conduzir com 2,25 gramas de álcool por litro de sangue — mais do dobro do valor a partir do qual a condução constitui crime.
A terceira é a das relações com estruturas extremistas organizadas. A Operação Irmandade, a 20 de Janeiro de 2026, conduziu à detenção de três militantes do Chega no quadro do desmantelamento do grupo neonazi 1143. Um mês depois, o deputado Rui Afonso foi acusado de compra de votos internos a elementos do mesmo grupo.
A quarta categoria, mais difusa, integra dívidas pessoais por liquidar, falsas presenças, falsificação de assinaturas em listas, prestação de declarações falsas em tribunal. Atinge nomes como Eduardo Teixeira, Filipe Melo, Luís Fernandes ou Rui Paulo Sousa.
A tese do "caso isolado" — e o que a contradiz
A resposta-padrão do Chega, repetida em cada episódio, é a do "caso isolado" gerido com firmeza. André Ventura disse-o a 6 de Fevereiro de 2025, na sequência do caso Pardal Ribeiro: as penas que o partido defende para "corruptos e bandidos" valem também para os casos internos. Incluindo, segundo a posição programática do partido, a castração química para crimes sexuais contra menores.
A tese do caso isolado depende de uma premissa: que cada situação é independente das outras. A acumulação documentada — quatro detenções por crimes sexuais contra menores em quinze meses, todos envolvendo eleitos ou candidatos do mesmo partido — começa a tornar essa premissa difícil de sustentar sem dado comparativo. O Chega tem cinquenta e oito deputados. PSD e PS somam mais de duzentos. Que números têm para os mesmos crimes, no mesmo período?
A pergunta óbvia é se há comparação publicada que permita responder. A resposta, à data desta peça, é não. Nenhuma das redacções portuguesas que levantaram casos do Chega publicou levantamento equivalente para os outros partidos. A ausência dessa comparação enfraquece o argumento do "padrão sistémico" — e simultaneamente prejudica a defesa do partido, porque torna impossível demonstrar que se trata de coincidência estatística.
O que falha — e onde
Há uma zona em que a defesa do partido tem peso. Em vários casos, foi o próprio Chega que afastou os visados — Miguel Arruda passou a deputado não-inscrito, Pardal Ribeiro renunciou ao mandato. Em outros, o sistema judicial agiu antes do partido o poder fazer. A capacidade de detectar problemas antes de chegarem ao tribunal — o que em ciência política se chama vetting — é o que está em causa.
Vetting falhado pode resultar de incompetência, de pressa de crescimento ou de escolha deliberada de admitir tudo o que se chega. O material público não permite distinguir entre as três hipóteses. Mas permite, e isso é matéria cívica, perguntar quais são os critérios de admissão e quem responde por eles.
Limpar Portugal era o slogan. O slogan continua. O que mudou foi o significado.