O silêncio editorial português sobre a tortura sexual a palestinianos: anatomia de uma omissão - Sociedade Civil
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Resumo

  • Entre o ataque do Hamas em outubro de 2023 e a investigação do New York Times em maio de 2026, a desproporção mediática portuguesa sobre violência sexual num e noutro lado do conflito tornou-se difícil de ignorar.
  • A investigação publicada por Nicholas Kristof no New York Times em maio de 2026, sobre o padrão sistémico de violência sexual contra detidos palestinianos, teve circulação limitada no espaço mediático português.
  • Diz que tudo o que é preciso para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam.

Entre o ataque do Hamas em outubro de 2023 e a investigação do New York Times em maio de 2026, a desproporção mediática portuguesa sobre violência sexual num e noutro lado do conflito tornou-se difícil de ignorar. Não é maldade. É estrutura.

A investigação publicada por Nicholas Kristof no New York Times em maio de 2026, sobre o padrão sistémico de violência sexual contra detidos palestinianos, teve circulação limitada no espaço mediático português.

A omissão contrasta com o que aconteceu em outubro de 2023. Os crimes sexuais cometidos pelo Hamas contra mulheres israelitas durante o ataque ao festival Nova e aos kibutzim foram noticiados em Portugal em peças centrais, manchetes, editoriais, telejornais. A reação editorial portuguesa foi rápida, abundante, justa.

A pergunta não é se uma cobertura está errada. Está certa. A pergunta é por que razão a segunda cobertura — sobre violência sexual sistémica do outro lado — não acontece.

Hipóteses estruturais

A primeira é a mais simples. Lisboa tem três correspondentes permanentes em Bruxelas, dois em Madrid, um em Paris. No Médio Oriente, zero — nem pelos diários, nem pelas televisões. Toda a cobertura passa por agências internacionais (AFP, Reuters, AP) e por leitura crítica dos grandes jornais anglófonos. Quando essas fontes não convergem, o assunto não chega.

O New York Times publicou. O Guardian republicou. O Washington Post não acompanhou. As agências não fizeram síntese imediata. Para um editor português de internacional, a peça caiu numa zona cinzenta — referência única, em coluna de opinião, sobre tema de elevada sensibilidade.

A segunda hipótese é o custo reputacional. Cobrir denúncias de tortura sexual por agentes do Estado israelita expõe o órgão a acusações de antissemitismo. Não porque a peça seja antissemita — não é. Mas porque o ataque virá. E para uma redação portuguesa com recursos limitados de assessoria jurídica e de relações públicas, esse custo é real.

A terceira hipótese é a do diferencial de fontes. Os porta-vozes israelitas em Lisboa têm acesso fácil aos editores portugueses. A representação palestiniana é menos articulada e tem menos recursos. Numa redação a fechar edição, ouve-se primeiro quem responde primeiro.

O que dizem os editores

A resposta-tipo, em conversas informais, tende a oscilar entre dois argumentos. Primeiro: o assunto foi noticiado, sim, mas sem o destaque que talvez merecesse. Segundo: o tema é demasiado sensível para tratamento apressado.

Ambos os argumentos têm fundo de verdade. Nenhum, isoladamente, explica a escala da omissão.

O custo cívico

Pedro Coelho, jornalista de investigação com mais de duas décadas em televisão portuguesa, escreveu repetidamente sobre o ecossistema das agendas mediáticas portuguesas. A sua tese é conhecida: o que não entra na agenda das oito da noite não existe para o cidadão comum.

Aplicada ao tema da violência sexual em Israel e na Palestina, a tese tem consequência. O cidadão português recebeu informação completa sobre os crimes sexuais do Hamas em 2023. Não recebeu informação equivalente sobre o padrão documentado pela ONU, pelo Euro-Med e pela B'Tselem. A sua representação mental do conflito é, por isso, assimétrica.

Essa assimetria não é culpa do cidadão. É produto da estrutura editorial que o serviu.

A pergunta de regresso

Talvez nenhum editor português esteja a omitir deliberadamente. Talvez a omissão seja efeito agregado de decisões individuais defensáveis. Mas o resultado é o mesmo.

Há uma frase, atribuída a Edmund Burke, que circula em manuais de ética jornalística há mais de um século. Diz que tudo o que é preciso para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam.

Não fazer é uma forma de fazer. E o jornalismo, mais do que qualquer outra profissão, sabe-o.

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