Palantir e tecnofascismo: o software que quer governar - Sociedade Civil
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Resumo

  • O seu software ajuda o ICE norte-americano a operacionalizar deportações, o NHS britânico a integrar dados clínicos, a NATO a acelerar decisão militar e governos a transformar bases dispersas em mapas de ação.
  • Em abril de 2025, o Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos assinou um contrato de 29,8 milhões de dólares com a Palantir para desenvolver o ImmigrationOS, sistema concebido para apoiar a gestão do ciclo de imigração e deportação.
  • Quando uma plataforma privada se torna o sistema nervoso de um serviço público, a democracia passa a discutir menos a política e mais os termos de utilização.

A Palantir já não vende apenas software. Vende uma doutrina política: integrar dados, acelerar decisões e fundir Estado, guerra e mercado. A questão democrática é simples: quando uma empresa privada se torna infraestrutura de deportações, hospitais e operações militares, quem governa?

A Palantir Technologies começou como empresa de análise de dados para defesa e intelligence. Hoje é outra coisa: uma arquitetura de poder. O seu software ajuda o ICE norte-americano a operacionalizar deportações, o NHS britânico a integrar dados clínicos, a NATO a acelerar decisão militar e governos a transformar bases dispersas em mapas de ação.

O problema não é apenas tecnológico. É político. A Palantir representa uma hipótese de Estado: um Estado que vê tudo, cruza tudo, prevê tudo e entrega a empresas privadas a camada técnica que torna essa visão possível.

O que a Palantir faz

A linguagem comercial da empresa é limpa: plataformas, ontologias, interoperabilidade, dados em tempo real, inteligência artificial, decisão operacional. Traduzido: a Palantir pega em bases de dados que antes estavam separadas e transforma-as numa rede pesquisável de relações entre pessoas, instituições, lugares, objetos e eventos.

No produto Foundry, esta capacidade é vendida a empresas, hospitais, administrações públicas e cadeias logísticas. No produto Gotham, é vendida a defesa, polícias, serviços de informação e estruturas militares. A diferença de mercado é real. A lógica técnica é parecida: transformar dados dispersos em decisão.

Num hospital, isto pode significar saber onde há camas, listas de espera e recursos clínicos. Numa fronteira, pode significar identificar pessoas para detenção. Num teatro de guerra, pode significar apoiar sistemas de seleção de alvos. A ferramenta não decide sozinha. Mas muda radicalmente a escala, a velocidade e a opacidade da decisão humana.

ICE: a deportação como fluxo de dados

Em abril de 2025, o Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos assinou um contrato de 29,8 milhões de dólares com a Palantir para desenvolver o ImmigrationOS, sistema concebido para apoiar a gestão do ciclo de imigração e deportação. A imprensa norte-americana descreveu-o como uma ferramenta para rastrear informação sobre imigrantes sem documentos ou com vistos caducados.

A Palantir já trabalhava com o ICE há mais de uma década. O que mudou foi o contexto político. Sob uma administração que prometeu acelerar deportações, um sistema de fusão de dados deixa de ser apenas ferramenta administrativa. Torna-se infraestrutura de perseguição burocrática.

O risco democrático está aqui: uma pessoa deixa de ser vista como cidadão, trabalhador, vizinho ou doente. Passa a ser um conjunto de registos correlacionáveis: morada, matrícula, chamada, transação, perfil, probabilidade. O Estado não precisa de odiar para perseguir. Basta classificar.

NHS: quando a saúde entra na mesma arquitetura

No Reino Unido, o NHS adjudicou à Palantir um contrato de até 330 milhões de libras para a Federated Data Platform. A promessa oficial é integrar dados, reduzir atrasos e melhorar gestão clínica. A crítica de profissionais de saúde, sindicatos e organizações de direitos digitais é outra: entregar a infraestrutura de dados clínicos de milhões de pessoas a uma empresa cuja reputação foi construída em defesa, vigilância e segurança.

A Palantir insiste que não quer explorar dados de pacientes e que os dados ficam sob controlo público. A resposta é insuficiente porque a questão principal não é só posse. É dependência. Quem desenha a infraestrutura desenha as perguntas possíveis, os atalhos, as permissões, as prioridades e os modos de ver.

Quando uma plataforma privada se torna o sistema nervoso de um serviço público, a democracia passa a discutir menos a política e mais os termos de utilização.

NATO e guerra: Maven como sinal europeu

Em março de 2025, a Agência de Comunicações e Informação da NATO anunciou a aquisição do Palantir Maven Smart System NATO para uso no Allied Command Operations. A própria NATO apresentou a compra como avanço na modernização das suas capacidades de guerra, com integração de inteligência artificial, dados e apoio à decisão operacional.

Portugal é membro da NATO. Isto não prova que militares portugueses específicos operem diretamente sistemas Palantir. Prova algo mais estrutural: a infraestrutura de decisão militar da Aliança entrou num modelo de guerra assistida por plataformas privadas de IA e fusão de dados.

A fronteira entre software de apoio e doutrina militar torna-se mais fina. A guerra passa a depender de plataformas que prometem rapidez, síntese e superioridade informacional. Quem controla a infraestrutura controla a forma como o campo de batalha aparece ao comando.

O manifesto: quando a empresa diz ao que vem

Em abril de 2026, a Palantir publicou na rede X um resumo em 22 pontos do livro The Technological Republic, de Alex Karp e Nicholas Zamiska. O texto defende que Silicon Valley tem uma dívida moral com o Estado que a tornou possível, apela à participação das tecnológicas na defesa nacional e apresenta o poder militar baseado em software como centro da nova ordem ocidental.

Não é apenas marketing. É doutrina. O manifesto recusa a ideia de uma tecnologia neutra e pede às tecnológicas que escolham lado: o lado do Estado, da defesa, do Ocidente, da força. É aqui que a discussão sobre tecnofascismo deixa de ser exagero retórico e passa a ser análise política.

O filósofo Mark Coeckelbergh, da Universidade de Viena, descreveu o manifesto como exemplo de tecnofascismo. O termo é forte e deve ser usado com precisão. Não significa que Palantir reproduza o fascismo histórico. Significa outra coisa: a combinação entre nacionalismo tecnológico, militarização da IA, culto da eficiência, desconfiança do pluralismo liberal e concentração de poder infraestrutural fora do escrutínio democrático.

O que é tecnofascismo

Tecnofascismo não é um uniforme, uma saudação ou um partido único. É uma forma de poder que dispensa parte da estética autoritária clássica porque já tem infraestrutura. Não precisa de gritar. Configura. Não precisa de censurar tudo. Ordena a visibilidade. Não precisa de prender todos. Prediz quem deve ser observado primeiro.

A sua promessa é sedutora: segurança, eficiência, decisão rápida, soberania tecnológica, defesa do Ocidente. O seu custo é menos visível: normalização da vigilância, privatização da capacidade estatal, opacidade algorítmica, redução da pessoa a perfil de risco.

É por isso que a Palantir é caso central. Não porque seja a única empresa capaz de o fazer, mas porque é a que diz com mais clareza que a democracia liberal deve aceitar uma fusão entre tecnologia, Estado e guerra para sobreviver.

Portugal não está fora desta história

Portugal não tem, em fonte pública consultável, contrato direto conhecido com a Palantir. Mas isso não basta para tranquilizar. O Estado português está a integrar dados na saúde, na imigração, na segurança e na defesa. A NATO já comprou tecnologia Palantir. Grandes integradores com parcerias globais com a empresa operam em Portugal. O PRR financiou transição digital em áreas sensíveis como a saúde.

A pergunta correta não é apenas “há contrato com a Palantir?”. É mais ampla: que plataformas de fusão de dados usa o Estado português, com que fornecedores, com que subcontratados, com que auditorias, com que limites, com que avaliação da Comissão Nacional de Proteção de Dados e com que escrutínio parlamentar?

Sem essa resposta, o cidadão fica a saber menos sobre o Estado do que o Estado sabe sobre o cidadão.

O alerta democrático

O perigo da Palantir não é o de uma máquina autónoma que decide tudo sozinha. Esse cenário é cinematográfico demais. O perigo real é mais banal: ministros, polícias, militares, gestores hospitalares e agências públicas passarem a depender de uma infraestrutura privada para ver a realidade.

Quando isso acontece, a política muda de lugar. Sai do parlamento, do regulamento, da deliberação pública, e entra no contrato, na API, no painel de controlo e no modelo de permissões. A democracia continua formalmente intacta, mas perde capacidade de saber como se decide.

A pergunta final não é se a Palantir é fascista. Essa pergunta é pobre. A pergunta certa é se democracias frágeis conseguem sobreviver quando entregam a empresas privadas a capacidade técnica de vigiar, classificar, antecipar e dirigir populações inteiras.

O tecnofascismo não chega sempre com botas. Às vezes chega como solução de interoperabilidade.

Fontes

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