Resumo
- Quando chegou o momento da libertação, na manhã de quinta-feira, a embaixadora portuguesa e o cônsul tentaram contactar os dois médicos à saída do centro de detenção.
- A Ordem dos Médicos invocou, no início da semana, a Convenção de Genebra e as normas da Associação Médica Mundial para reclamar a proteção dos dois colegas.
- À chegada ao Porto, os dois médicos vão encontrar a família, a Ordem e a possibilidade — ainda em aberto — de uma queixa-crime ao abrigo do princípio da jurisdição universal por tratamentos desumanos.
Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias regressam esta sexta-feira ao Porto, via Istambul, depois de quatro dias detidos por Israel na sequência da interceção da flotilha Global Sumud em águas internacionais. As famílias dizem que estão fisicamente bem, mas marcados.
Os dois médicos portugueses detidos pela marinha israelita aterram esta sexta-feira no aeroporto Sá Carneiro, no Porto, em voo proveniente de Istambul. Chegam quatro dias depois de o navio onde seguiam — o Tenaz — ter sido capturado em águas internacionais, ao largo do Chipre, no dia 18 de maio.
À RTP Antena 1, a irmã de Beatriz Bartilotti resumiu a primeira conversa após a libertação numa frase: “Ela diz que está bem. Que foram três dias de muita violência.” Os dois médicos não fazem parte do grupo de detidos que precisou de cuidados de urgência. Estão de saúde, mas não estão iguais aos que partiram de Marmaris a 14 de maio.
O que aconteceu entre segunda e quinta
O Tenaz integrava a Global Sumud Flotilla, uma missão humanitária civil composta por dezenas de embarcações e participantes de vários países. O objetivo era romper o bloqueio israelita à Faixa de Gaza e entregar mantimentos.
A interceção começou de manhã, dia 18, e estendeu-se até ao dia seguinte. A marinha israelita capturou quase meia centena de barcos e levou os ocupantes para o porto de Ashdod. Daí, foram transferidos para a prisão de Ktziot, no sul de Israel. Os portugueses passaram quatro dias sem contacto regular com a família e com representação consular.
Quando chegou o momento da libertação, na manhã de quinta-feira, a embaixadora portuguesa e o cônsul tentaram contactar os dois médicos à saída do centro de detenção. Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, foram impedidos pelas autoridades israelitas. “Eles estão bem, embora obviamente bastante marcados pela situação vivida nos últimos dias”, disse à Lusa.
O bloqueio do acesso consular motivou novo protesto formal de Portugal. O primeiro tinha sido apresentado ainda na segunda-feira, com a convocação do embaixador israelita em Lisboa.
Belém e a fotografia que correu o mundo
Na quarta-feira à noite, Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel e figura da extrema-direita do governo Netanyahu, publicou na rede X um vídeo dos ativistas amarrados e ajoelhados. As imagens circularam pelas chancelarias europeias durante a madrugada.
O Presidente da República recebeu nesse dia os familiares dos dois portugueses. “Visionámos humilhações públicas de seres humanos e tratamentos indignos que merecem total repúdio e condenação”, afirmou António José Seguro no encerramento de uma cerimónia oficial. A União Europeia classificou o tratamento como inaceitável.
O caso destes médicos não é o primeiro. Três semanas antes, a 29 e 30 de abril, outros portugueses tinham sido detidos numa interceção anterior da mesma flotilha. Nuno Gomes denunciou publicamente, após o regresso, ter sido sujeito a maus-tratos que qualificou como tortura. O Tenaz escapou à primeira operação, voltou à Turquia para se juntar à nova frota, e foi capturado em maio na segunda tentativa.
A pergunta que fica
A Ordem dos Médicos invocou, no início da semana, a Convenção de Genebra e as normas da Associação Médica Mundial para reclamar a proteção dos dois colegas. “Os médicos devem ser protegidos e respeitados em todas as circunstâncias”, afirmou o bastonário em comunicado. “Nunca podem ser alvo de violência, intimidação ou qualquer forma de condicionamento, independentemente do contexto político ou militar.”
O Governo israelita classificou a flotilha como provocação destinada a quebrar o bloqueio a Gaza. Portugal insiste que a interceção ocorreu em águas internacionais e constitui violação do direito internacional.
À chegada ao Porto, os dois médicos vão encontrar a família, a Ordem e a possibilidade — ainda em aberto — de uma queixa-crime ao abrigo do princípio da jurisdição universal por tratamentos desumanos. Falta saber se a vão apresentar. Falta saber, também, o que fica do protesto português depois do protesto.
Fontes
- RTP — “Três dias de muita violência”: ativistas portugueses chegam a Portugal
- RTP — ativistas portugueses detidos por Israel deverão ser deportados
- Renascença — Paulo Rangel condena tratamento dado por Israel a ativistas
- Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha — declaração conjunta sobre a Global Sumud Flotilla
- Conselho da União Europeia — Conselho dos Negócios Estrangeiros, abril de 2026
- Euronews — debate sobre suspensão do Acordo UE-Israel
- Amnistia Internacional — apelo à proteção da Global Sumud Flotilla