Resumo
- a emissora pública israelita promoveu um apelo direto ao voto máximo, e a Eurovisão considerou esse apelo incompatível com as novas regras e com o espírito da competição.
- Green distinguiu o caso de uma campanha paga de grande escala por terceiros, mas deixou claro que o apelo direto a usar todos os votos disponíveis num artista não estava em conformidade com as regras nem com o espírito do concurso.
- A agência EFE noticiou que o pacote de reformas foi aprovado por larga maioria e que, uma vez aprovado, a UER considerou desnecessária uma nova votação específica sobre a participação de Israel.
A delegação israelita voltou a testar os limites políticos e regulamentares da Eurovisão. A emissora pública KAN difundiu vídeos em várias línguas a pedir ao público que usasse os 10 votos disponíveis em Noam Bettan, representante de Israel com a canção “Michelle”. A organização do festival reagiu em 20 minutos e mandou retirar os conteúdos.
O episódio ocorreu antes da primeira semifinal, realizada a 12 de maio, mas ganhou novo peso depois da final de sábado, 16 de maio, em Viena: Israel terminou em segundo lugar, atrás da Bulgária, vencedora da Eurovisão 2026 com “Bangaranga”, de DARA. A canção israelita ficou, mais uma vez, no centro da disputa entre cultura, diplomacia, voto popular e propaganda.
Segundo noticiou o The Independent, os vídeos foram partilhados pela KAN na sexta-feira, 8 de maio, e incentivavam os espectadores a usar todos os votos permitidos no representante israelita. A mensagem terá sido gravada em várias línguas, incluindo francês, alemão, inglês, grego e italiano.
A diferença face a 2025 é importante. No ano passado, a polémica incidiu sobre campanhas promocionais pagas por uma agência ligada ao Governo israelita, que apelavam ao voto máximo na candidatura de Israel. Em 2026, não está demonstrado que este novo vídeo tenha integrado uma campanha paga de grande escala. O que está confirmado é outra coisa: a emissora pública israelita promoveu um apelo direto ao voto máximo, e a Eurovisão considerou esse apelo incompatível com as novas regras e com o espírito da competição.
O que disse Martin Green
Martin Green, diretor do Eurovision Song Contest, explicou que a organização foi alertada a 8 de maio para vídeos com instrução expressa para votar 10 vezes em Israel. Segundo o responsável, a delegação da KAN foi contactada em 20 minutos e recebeu ordem para interromper a distribuição e remover os vídeos das plataformas onde tinham sido publicados. A emissora terá acatado rapidamente o pedido.
A justificação da organização é reveladora. Green distinguiu o caso de uma campanha paga de grande escala por terceiros, mas deixou claro que o apelo direto a usar todos os votos disponíveis num artista não estava em conformidade com as regras nem com o espírito do concurso. A KAN respondeu que a campanha não tinha sido financiada por qualquer grupo específico.
Em termos formais, a Eurovisão tratou o episódio como aviso. Em termos políticos, o caso mostra que a fronteira entre promoção artística e operação nacional de influência continua por resolver.
As regras mudaram por causa de Israel
As novas regras da Eurovisão 2026 foram aprovadas em dezembro de 2025, em assembleia-geral da União Europeia de Radiodifusão. O objetivo declarado era restaurar confiança, transparência e neutralidade depois da polémica em torno da votação de 2025. Entre as alterações principais: redução do número máximo de votos por pessoa de 20 para 10 e regresso dos júris profissionais às semifinais, dividindo peso com o televoto.
A agência EFE noticiou que o pacote de reformas foi aprovado por larga maioria e que, uma vez aprovado, a UER considerou desnecessária uma nova votação específica sobre a participação de Israel. A votação decorreu por escrutínio secreto. A RTP, enquanto membro da UER, integrou essa assembleia.
A consequência foi imediata. Espanha, Irlanda, Países Baixos e Eslovénia anunciaram retirada da competição; a Islândia viria a juntar-se ao boicote. A decisão abriu uma edição marcada por ausências políticas e regressos competitivos: Bulgária, Roménia e Moldávia voltaram ao concurso depois de períodos de afastamento.
Autopromoção pública, não apenas publicidade
O ponto central não é apenas saber se houve dinheiro pago em anúncios. A pergunta mais séria é outra: até onde pode ir uma emissora pública na promoção nacional de uma candidatura quando essa participação já está politicamente contaminada pela guerra em Gaza e pelo lugar de Israel no conflito?
A Eurovisão sempre permitiu promoção das canções. Todos os países fazem campanha, lançam vídeos, entrevistas, atuações e conteúdos sociais. Mas há uma diferença entre promover uma música e instruir o público a usar o número máximo de votos permitido. É essa diferença que a UER tentou agora marcar — tarde, e por reação.
A contradição permanece: a organização afirma defender neutralidade, mas continua a lidar com Estados, emissoras públicas, agendas diplomáticas e campanhas nacionais. Chamar “apolítico” a um concurso entre bandeiras tornou-se cada vez menos credível.
Portugal ficou pelo caminho
Portugal, representado pelos Bandidos do Cante com “Rosa”, foi eliminado na primeira semifinal, a 12 de maio. A final realizou-se a 16 de maio, na Wiener Stadthalle, e terminou com vitória da Bulgária. Segundo a própria Eurovisão, DARA somou 516 pontos, combinando 204 pontos dos júris e 312 do televoto. Israel ficou em segundo lugar com “Michelle”, de Noam Bettan.
O resultado encerrou a competição, mas não encerrou a crise institucional. Pelo contrário: reforçou a pergunta que acompanha a Eurovisão desde 2024. Se a organização admite que campanhas de apelo ao voto máximo violam o espírito do concurso, porque é que só reage depois de a campanha circular?
A resposta provável é a mesma de sempre: porque a Eurovisão quer continuar a ser festa, mas já não consegue fingir que não é palco político.