Resumo
- Em apenas quatro semanas de monitorização, o estudo do LabCom-UBI e do Observatório de Desinformação Política (ODEPOL) mostra que 71,4% dos 14 casos identificados usam vídeo e só 28,6% recorrem a fotografias.
- Milão – contexto falsoA 1 de janeiro de 2026, Ventura partilha imagens reais de festejos de Ano Novo na Piazza del Duomo, em Milão, apresentando-as como “um grupo de muçulmanos a invadir cerimónias cristãs de Natal” e alertando para a “islamização da Europa”.
- SNS – fabricação de dados em vídeoDurante e após o debate de 17 de novembro, a campanha insiste em vídeos e declarações que sugerem que o SNS dá prioridade a imigrantes e sofre “turismo de saúde” em massa.
Os vídeos falsos tornaram-se a arma principal da desinformação nas presidenciais de 2026. Em apenas quatro semanas de monitorização, o estudo do LabCom-UBI e do Observatório de Desinformação Política (ODEPOL) mostra que 71,4% dos 14 casos identificados usam vídeo e só 28,6% recorrem a fotografias. Ao todo, estes conteúdos somam 7,7 milhões de visualizações nas principais redes sociais, de X a TikTok.
Não é um detalhe técnico. Em eleições com entre 5 e 6 milhões de votantes efetivos, o número aproxima-se de uma visualização de desinformação vídeo por eleitor – em média, claro, mas com forte concentração em certos círculos. E quase sempre com a mesma lógica: um clip curto, uma legenda agressiva, um inimigo claro.
Vídeo manda, texto segue atrás
A predominância dos vídeos falsos não surpreende os investigadores. O dossiê sublinha que o vídeo é a ferramenta preferencial “pela capacidade de gerar resposta emocional imediata e pela dificuldade acrescida de moderação automática por IA”.
Há um mecanismo simples em jogo:
- O utilizador vê uma imagem “real”, em movimento.
- Lê uma frase por cima – muitas vezes alarmista.
- Assume que a legenda descreve o que está a ver.
Num estudo internacional, investigadores mostraram que o vídeo pode aumentar a sensação de autenticidade face ao texto, mesmo quando o ganho de persuasão política é pequeno. As pessoas não mudam necessariamente de posição partidária, mas acreditam mais no que veem em ecrã do que no que lêem num parágrafo. (OUP Academic)
No feed de um estudante universitário em Coimbra, a sequência é familiar: abre o TikTok “só para ver umas piadas”, o algoritmo atira-lhe um vídeo inflamado sobre imigração, depois outro sobre o SNS supostamente “de portas abertas” para estrangeiros. Entre um e outro, há um tutorial de ginásio. Tudo misturado, tudo com o mesmo formato vertical, tudo a pedir apenas o gesto automático de deslizar o dedo.
Milão, Amesterdão e o SNS: três formas de manipular vídeo
O estudo detalha três casos paradigmáticos de desinformação vídeo associados à campanha de André Ventura: Milão, Amesterdão e o “bar aberto” do SNS.
- Milão – contexto falso
A 1 de janeiro de 2026, Ventura partilha imagens reais de festejos de Ano Novo na Piazza del Duomo, em Milão, apresentando-as como “um grupo de muçulmanos a invadir cerimónias cristãs de Natal” e alertando para a “islamização da Europa”. A cerimónia não existia, a hora não batia certo, mas o vídeo ultrapassou 1 milhão de visualizações. A mentira estava só na legenda, não no píxel. - Amesterdão – manipulação de causa
Outro clip mostra a Vondelkerk a arder, em Amesterdão, com legendas que sugerem um ataque islâmico a uma igreja. A realidade: o edifício funciona como centro cultural desde 1977 e o fogo teve origem provável em fogo de artifício lançado na rua. A narrativa do “ataque ao Cristianismo” foi fabricada em cima de imagens reais. - SNS – fabricação de dados em vídeo
Durante e após o debate de 17 de novembro, a campanha insiste em vídeos e declarações que sugerem que o SNS dá prioridade a imigrantes e sofre “turismo de saúde” em massa. Os dados oficiais mostram o contrário: a utilização por não residentes é residual, cerca de 0,7%, e muitas vezes faturada. Aqui, o vídeo serve de veículo para números inventados.
Três técnicas diferentes, um padrão comum: aproveitar o reflexo mental “se vi, é verdade”.
“Isto não será exagero? Nem todos os vídeos são deepfakes”
A objeção é justa. Quando se fala em deepfake eleições, a imaginação corre para vídeos gerados por IA com políticos a dizer coisas que nunca disseram. E, no entanto, o estudo do LabCom não identifica casos confirmados de deepfake vídeo nesta campanha; o grosso da desinformação faz-se com imagens reais emolduradas por legendas falsas, cortes seletivos e insinuações.
Também a nível internacional, vários trabalhos avisam contra o pânico fácil: o vídeo, por si só, não é automaticamente muito mais persuasivo do que o texto; às vezes a diferença é mínima. (pnas.org) O problema está menos na capacidade de convencer um adversário político e mais na capacidade de consolidar crenças pré-existentes, dentro de bolhas já radicalizadas.
Ou seja: não é o vídeo que cria o fanatismo, é o vídeo que o alimenta com imagens à medida. E isso torna o terreno mais escorregadio para qualquer tentativa de correção ou diálogo.
Jovens, TikTok e a sensação de “parece verdade”
Entre os 18 e os 35 anos, a porta de entrada para a política passa cada vez mais por plataformas de vídeo curto. O dossiê mostra que, além de X, TikTok aparece associado a 21% dos casos de desinformação, muitas vezes com versões editadas dos mesmos clips originais.
Num comboio urbano à hora de ponta, dois amigos trocam vídeos: um mostra o incêndio em Amesterdão, o outro um clip sobre o SNS “atafulhado de estrangeiros”. Riem, comentam, indignam-se. Ninguém abre um link para uma notícia, ninguém procura o comunicado dos bombeiros holandeses ou o relatório da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde. E, no entanto, saem do comboio com uma certeza nova sobre o estado do país.
É esta a força do vídeo na desinformação eleições: a sensação de realidade, não a prova; a impressão de proximidade, não o escrutínio.
Como resistir a vídeos falsos sem desligar da política
Não há receita perfeita. Se houvesse, 7,7 milhões de visualizações de conteúdos desinformativos não teriam passado quase sem contraditório à mesma escala. Ainda assim, há alguns gestos simples que aumentam a nossa margem de segurança diante da desinformação vídeo:
- Desconfiar de legendas absolutas – sempre que um vídeo promete “a prova definitiva” de qualquer coisa, vale a pena abrandar.
- Procurar a origem – uma pesquisa rápida pelo local, data e palavras-chave (“Vondelkerk fire Amsterdam”, por exemplo) costuma revelar notícias de contexto.
- Separar emoção de verificação – sentir medo, raiva ou nojo é humano; carregar em “partilhar” sem pensar é o passo que transforma um espectador em amplificador.
- Valorizar o jornalismo e o fact-checking em formato vídeo – há estudos que mostram que fact-checks em vídeo podem ser mais claros e menos confusos do que textos longos, sobretudo para públicos menos politizados. (asc.upenn.edu)
No limite, não se trata de abandonar o vídeo – seria irrealista num mundo de Instagram e TikTok. Trata-se de reaprender uma coisa simples que o feed nos desaprendeu: ver não chega, é preciso confirmar.
Porque, neste ciclo eleitoral, a batalha não se faz apenas nas urnas ou nos comícios. Faz-se, sobretudo, nos segundos entre o play e o swipe seguinte – é aí que os vídeos falsos tentam, todos os dias, escolher por nós.