Resumo
- Na manhã de 1 de janeiro de 2026, ainda com o país a meio gás depois da passagem de ano, começou a circular um clip filmado na Piazza del Duomo, em Milão.
- O que o estudo do LabCom-UBI e do Observatório de Desinformação Política (ODEPOL) veio mostrar é simples e devastador.
- – a inexistência de qualquer cerimónia religiosa naquele momento;– o facto de a praça ser espaço público laico;– o enquadramento de Ano Novo, igual em tantas outras cidades europeias.
Na manhã de 1 de janeiro de 2026, ainda com o país a meio gás depois da passagem de ano, começou a circular um clip filmado na Piazza del Duomo, em Milão. Nas redes de André Ventura, o vídeo de Milão surgia com uma legenda inequívoca: um “grupo de muçulmanos” a invadir “cerimónias cristãs de Natal”, sinal da alegada “islamização da Europa”. Em poucas horas, o vídeo Milão Ventura ultrapassou 1 milhão de visualizações e tornou-se um dos casos mais marcantes de fake news sobre imigração desta campanha presidencial.
O que o estudo do LabCom-UBI e do Observatório de Desinformação Política (ODEPOL) veio mostrar é simples e devastador: real era o vídeo; falsa, a história que o embalava. Não havia cerimónia cristã, não havia invasão, não havia ataque religioso – havia festejos de Ano Novo numa praça central italiana.
Do clip italiano ao grito de “islamização”
O ponto de partida é banal. Um telemóvel grava, na noite de Ano Novo, jovens a celebrar na Piazza del Duomo. Há gente a subir à estátua equestre de Vítor Emanuel II, há gritos, há confusão, veem-se bandeiras de Marrocos e do Egito a ondular no meio da multidão. Imagens que qualquer europeu reconhece como parte do ritual contemporâneo da passagem de ano: demasiado álcool, algum vandalismo, muito barulho.
Dias depois, a equipa de investigação do ODEPOL faz o caminho ao contrário: usa pesquisa inversa de imagem, cruza registos de agências internacionais, confirma localização, data e contexto. Resultado: eram mesmo festejos de Ano Novo ao ar livre, não uma missa, não uma procissão, não uma celebração religiosa interrompida.
A diferença nasce quando aquele clip italiano é reexportado com nova embalagem portuguesa. Nas redes do candidato do Chega, o vídeo Milão Ventura aparece com uma narrativa completa: “cerimónias cristãs de Natal”, “muçulmanos a invadir”, “Europa a ajoelhar”. A imagem é a mesma; a história, outra.
O que o vídeo mostra — e o que apaga
Num grupo de família em Vila Nova de Gaia, a cena repetiu-se como em tantos outros telemóveis do país. A “tia” do grupo envia o vídeo de Milão com um “isto está a ficar impossível”. Um sobrinho abre, vê jovens a gritar, gente em cima de estátuas, bandeiras estrangeiras. Não ouve nada sobre Natal, não vê nenhum padre, nenhuma cruz, nenhum altar. Mas lê a legenda. “Devem estar mesmo a destruir isto tudo”, comenta. Ninguém pergunta de onde veio o clip, ninguém clica no link da RTP que, horas depois, desmente a história.
É aqui que a estratégia de contexto falso se torna tão eficaz.
O vídeo mostra de facto comportamentos desordeiros; mostra uma praça europeia ocupada por jovens de origem migrante; mostra, enfim, algo que encaixa no medo pré-existente de quem já acha que “isto está a mudar depressa demais”.
É verdade que aquele tipo de celebração levanta questões de segurança e convivência urbana em qualquer cidade. Não é tudo inventado, não é tudo idílico. Mas uma coisa é um problema de ordem pública em noite de Ano Novo; outra, muito diferente, é a imagem fabricada de “muçulmanos a invadir cerimónias cristãs”.
Na passagem do clip pelo discurso de Ventura, o que se apaga é justamente o que o tornaria menos explosivo:
– a inexistência de qualquer cerimónia religiosa naquele momento;
– o facto de a praça ser espaço público laico;
– o enquadramento de Ano Novo, igual em tantas outras cidades europeias.
Como se fabrica um “contexto falso”
O caso Milão é o único, entre os 14 principais episódios mapeados pelo ODEPOL, que cai na categoria de “contexto falso”: conteúdo real, legenda enganadora. Os investigadores descrevem o processo como “recontextualização maliciosa”.
A receita, simplificada, é esta:
- Encontrar imagens fortes, de preferência com símbolos reconhecíveis – aqui, uma grande praça europeia, uma estátua monumental, bandeiras de países maioritariamente muçulmanos.
- Apagar o contexto original – data, motivo da celebração, cidade, enquadramento noticioso.
- Inventar um novo enredo, alinhado com a narrativa que se quer vender – invasão, perseguição, guerra religiosa, complô.
- Colar uma legenda que pareça plausível para quem já está predisposto a acreditar – “cerimónias cristãs”, “islamização da Europa”, “Europa ajoelhada”.
- Lançar o vídeo em plataformas de alto conflito político, como o X, e replicá-lo depois em Instagram, TikTok, grupos de WhatsApp.
Do lado de quem vê, o processo é o inverso: primeiro a emoção, depois – se vier – a dúvida. A maior parte das vezes, a dúvida não chega.
“Mas o vídeo não era verdadeiro?”
É a pergunta que mais se ouviu depois de surgirem os fact-checks: “Mas o vídeo não é mesmo de Milão? Não estão ali bandeiras de países muçulmanos?”
Sim, o vídeo de Milão é verdadeiro enquanto registo de uma noite caótica numa praça europeia. Sim, há comportamentos criticáveis, há uma ideia de “perda de controlo” que incomoda muita gente.
O que é falso é o enredo que lhe foi colado: não havia “cerimónias de Natal”, não havia “invasão de muçulmanos” a um espaço religioso, não havia prova de qualquer ataque organizado à fé cristã. A fake news sobre imigração constrói-se aqui num ponto muito específico: a passagem de um problema de convivência urbana para um suposto ataque civilizacional.
Há, ainda, uma concessão que importa fazer: nem todos os que partilharam o vídeo Milão Ventura o fizeram de má-fé. Muitos acreditaram genuinamente que estavam a alertar para um perigo real, confiaram no texto por cima do clip, não tiveram tempo ou ferramentas para confirmar. Isso não os transforma em propagandistas profissionais – mas transforma-os, queiram ou não, em peças da engrenagem.
Um milhão de visualizações depois: o que fica
O relatório do LabCom sublinha que este único caso ultrapassou 1 milhão de visualizações, num universo total de 7,7 milhões associadas à desinformação na campanha. A escala impressiona, mas o que assusta é outra coisa: a velocidade com que uma história fabricada passa a fazer parte do senso comum.
Dias depois, em entrevistas de rua em Setúbal e Bragança, repórteres ouviram frases quase copiadas da legenda original: “Eles já invadem igrejas na Itália”, “isto é a islamização da Europa que vem aí”. Nem todos tinham visto o clip; bastou-lhes ouvir falar dele.
No fim, o caso Milão funciona como uma espécie de manual condensado sobre a nova desinformação política:
– Imagens reais, emoções reais, medo real.
– Contexto manipulado, enredo inventado, alvo escolhido – os migrantes, os muçulmanos, o “outro”.
Quando um milhão de pessoas vê a mesma mentira contada sobre as mesmas imagens, a mentira deixa de ser apenas um erro e começa a ser um ambiente. E é nesse ambiente, saturado de indignação e desconfiança, que cada eleitor terá de decidir em quem acredita quando entrar sozinho na cabine de voto.