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Resumo

  • Gaza, 7 de agosto de 2025 — O colapso do sistema humanitário das Nações Unidas em Gaza, substituído por um modelo securitário liderado pela Gaza Humanitarian Foundation (GHF), expôs uma nova aliança operacional entre os Estados Unidos e Israel, em que a ajuda alimentar deixa de ser missão humanitária e passa a instrumento de controlo populacional.
  • O Congresso norte-americano aprovou em maio um pacote de 1,8 mil milhões de dólares para “apoio humanitário e segurança alimentar” em zonas de conflito, dos quais mais de 600 milhões foram canalizados para a GHF.
  • A expulsão tácita das agências da ONU de Gaza — nomeadamente da UNRWA, WFP e OCHA — foi possível graças à retirada sistemática de permissões, financiamento e canais de acesso logístico, promovida por Israel com o silêncio cúmplice dos EUA e de países europeus.

Gaza, 7 de agosto de 2025 — O colapso do sistema humanitário das Nações Unidas em Gaza, substituído por um modelo securitário liderado pela Gaza Humanitarian Foundation (GHF), expôs uma nova aliança operacional entre os Estados Unidos e Israel, em que a ajuda alimentar deixa de ser missão humanitária e passa a instrumento de controlo populacional. A denúncia é feita pela Médicos Sem Fronteiras (MSF), cujo relatório publicado esta semana revela uma estratégia concertada de militarização da assistência, com consequências letais.

Com milhares de mortos e feridos em centros de distribuição de alimentos, a pergunta impõe-se com urgência: estarão os EUA e Israel a utilizar a fome como arma política? E se sim — em nome de quê?

Uma fundação opaca, mas bem armada

A Gaza Humanitarian Foundation surgiu em abril de 2025, como resposta ao colapso da missão humanitária coordenada pela ONU. A sua criação foi anunciada simultaneamente em Jerusalém e Washington, envolta em linguagem de “eficiência logística” e “responsabilidade operacional”.

No terreno, porém, o cenário é outro. A GHF opera apenas quatro centros de distribuição, em vez dos mais de 400 anteriormente geridos com apoio da ONU. Os postos são vigiados por forças de segurança privadas norte-americanas, com armamento pesado, cães de ataque e equipamento de dispersão de multidões.

Segundo o relatório da MSF, helicópteros Apache, drones de vigilância, tanques Merkava e soldados israelitas coordenam o perímetro externo dos centros. A entrada é limitada, arbitrária e frequentemente violenta. A fundação, apesar de se apresentar como ONG, não responde perante nenhum organismo humanitário internacional e recusa prestar contas.

Ajuda com selo estratégico

Fontes diplomáticas consultadas por jornalistas internacionais admitem que a GHF não é apenas uma iniciativa humanitária, mas parte de uma estratégia mais ampla de gestão da crise de Gaza sob domínio israelita, com aval logístico dos EUA.

A substituição das Nações Unidas — tidas como “ineficientes” — por um modelo privado e militarizado não é nova na agenda de segurança nacional americana. O mesmo se viu no Iraque, no Afeganistão e em partes da Síria. A inovação, agora, é que a “ajuda” se converte em ferramenta de disciplinamento populacional e controlo de movimentos.

“O que os Estados Unidos estão a apoiar em Gaza não é uma missão de assistência — é uma extensão da política de cerco com roupagem humanitária”, denuncia um ex-funcionário da UNRWA que pediu anonimato.

Fome fabricada, financiamento garantido

O Congresso norte-americano aprovou em maio um pacote de 1,8 mil milhões de dólares para “apoio humanitário e segurança alimentar” em zonas de conflito, dos quais mais de 600 milhões foram canalizados para a GHF. No mesmo mês, a Administração Biden celebrou publicamente o “compromisso com o povo palestiniano”.

No entanto, o conteúdo da ajuda distribuída contradiz essa retórica. Os relatos no terreno revelam rations de baixa qualidade, impossíveis de cozinhar por falta de gás ou eletricidade, entregues em locais de acesso quase impossível. O resultado? Uma população que continua faminta — e cada vez mais vulnerável.

Segundo a MSF, o sistema atual “não combate a fome — gere-a como ferramenta de controlo”. A organização alerta que as filas de acesso aos postos se tornaram zonas de humilhação coletiva e repressão violenta, gerando mais trauma do que nutrição.

E a ONU, onde está?

A expulsão tácita das agências da ONU de Gaza — nomeadamente da UNRWA, WFP e OCHA — foi possível graças à retirada sistemática de permissões, financiamento e canais de acesso logístico, promovida por Israel com o silêncio cúmplice dos EUA e de países europeus.

A Organização das Nações Unidas, por sua vez, viu-se marginalizada, sem capacidade de reação. As suas equipas foram forçadas a abandonar centenas de centros comunitários, armazéns e escolas. Em seu lugar, surgiu a GHF — sem legitimidade internacional, mas com capacidade de operar sem escrutínio.

“Foi um golpe branco no sistema humanitário global”, afirma uma fonte ligada à OCHA. “De um dia para o outro, passámos de um sistema baseado em neutralidade para um modelo militarizado e impune.”

Parceria ou conivência?

A responsabilidade por esta engenharia da fome não pode ser imputada apenas a operadores no terreno. As decisões são políticas. E as suas consequências, mortais.

O financiamento norte-americano, a logística israelita e a ausência de escrutínio formam um triângulo letal que esvazia o conceito de ajuda humanitária. Gaza tornou-se um laboratório geopolítico onde o sofrimento é sistematizado, mascarado por comunicados de imprensa e narrativas de “eficiência”.A pergunta já não é se este modelo deve ser revisto — mas sim se os seus autores serão alguma vez responsabilizados.

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