Terapias de conversão: sobreviventes contam o impacto na vida e na saúde - Sociedade Civil
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Resumo

  • ” A frase, dita por um homem que aceita falar sem nome e sem rosto, resume o que muita gente imagina ser “aconselhamento” e que, na prática, funciona como engenharia da vergonha.
  • Em Portugal, desde 2024, atos dirigidos a alterar ou reprimir a orientação sexual e a identidade/expressão de género passaram a ter enquadramento criminal.
  • ao escrever sobre terapias de conversão, a redação tem de proteger vítimas, respeitar o contraditório sem abrir palco à desinformação e evitar adjetivos que substituam prova.

“Não me batiam. Só me ensinavam a odiar-me.” A frase, dita por um homem que aceita falar sem nome e sem rosto, resume o que muita gente imagina ser “aconselhamento” e que, na prática, funciona como engenharia da vergonha. Em Portugal, desde 2024, atos dirigidos a alterar ou reprimir a orientação sexual e a identidade/expressão de género passaram a ter enquadramento criminal. Mas a lei não apaga o que ficou para trás — nem protege, por si só, quem ainda está dentro.

O que se segue não é um desfile de horrores para consumo rápido. É um retrato do dano, com cuidado: sem identificar sobreviventes, sem detalhes que os exponham, e com uma pergunta que teima em regressar às redações e às famílias. Como é que isto acontece, em 2026, em bairros normais, com portas normais?

“A sessão era sobre mim, mas eu desaparecia”

A primeira história é de “R.”, 29 anos. Cresceu numa comunidade religiosa onde “ser” era menos importante do que “obedecer”. Começou com conversas a sós com um adulto de referência: “Não te estás a perder, nós ajudamos-te a encontrar o caminho.” A seguir vieram encontros regulares, perguntas ítimas, culpa a conta-gotas. “Diziam que eu tinha de cortar amizades, mudar de escola, parar de ouvir música, evitar sítios.”

Não há um laboratório. Há um método. O corpo torna-se suspeito. O pensamento vira prova. Daquela promessa de cura, restou apenas o eco.

A segunda história é de “M.”, 41 anos, que passou por algo parecido já em adulto, sob o rótulo de “terapia”. Não descreve técnicas cinematográficas; descreve repetição: “A cada sessão eu saía mais vazio. O objetivo era eu deixar de ser, não eu ficar bem.” Quando tentou parar, disseram-lhe que era “resistência” — uma palavra que transforma proteção em pecado.

Poderiam argumentar que isto é “escolha”. A objeção aparece sempre: “Se alguém quer alinhar a vida com a fé, qual é o problema?” A resposta não cabe num slogan. Há escolhas livres. E há escolhas feitas com medo de perder casa, família, pertença, emprego, futuro. Consentimento, quando nasce sob chantagem afetiva, é frágil.

O dano não é abstrato — tem rotina e tem corpo

Ambos relatam o mesmo pacote: ansiedade, insónia, episódios depressivos, isolamento. Um descreve “apagões” de memória em fases de maior pressão; outro fala de ataques de pânico antes de encontros com o “orientador”. O dano não precisa de marcas na pele para existir. É mais silencioso. E, por isso mesmo, mais fácil de negar.

Concessão honesta: nem todos os percursos são iguais. Há quem diga que “aguentou” e seguiu em frente. Há quem nunca diga nada. Mas a ausência de relato não é ausência de dano; é, muitas vezes, sobrevivência.

Uma frase curta, quase seca: ninguém melhora quando aprende a ter nojo de si.

Serviço ao leitor: sinais, apoio, denúncia

Sinais de alerta: promessas de “mudança”; pressão para “reprimir desejos”; isolamento; culpa como ferramenta; ameaças (expulsão de casa, exposição pública, corte de apoio financeiro); “programas” pagos, retiros, aconselhamento com objetivo de apagar orientação/identidade.

Se está em sofrimento, procure apoio clínico e emocional. Em Portugal, o SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico. A CIG, em Lisboa (Rua Professor Gomes Teixeira, 2), tem informação e encaminhamento institucional. Se houver crime, a denúncia faz-se junto de PSP/GNR ou do Ministério Público.

E uma nota final, que é jornalismo e é ética: ao escrever sobre terapias de conversão, a redação tem de proteger vítimas, respeitar o contraditório sem abrir palco à desinformação e evitar adjetivos que substituam prova.

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