Resumo
- Foi a 27 de Julho de 2025, num resort de golfe escocês com o nome do dono — Turnberry, propriedade de Donald Trump —, que Ursula von der Leyen apertou a mão do presidente dos Estados Unidos e fechou o acordo comercial que iria, durante exactamente nove meses, definir as relações comerciais entre as duas maiores economias do planeta.
- A justificação foi a alegação, sem provas apresentadas, de que a UE não estava a cumprir o acordo que ele próprio tinha assinado.
- Não porque exporte muito para os EUA em termos absolutos — exporta menos do que a Alemanha, a Itália, a Irlanda, a França, a Bélgica, a Espanha — mas porque os setores que exporta são particularmente sensíveis à tarifa.
O acordo comercial assinado entre Ursula von der Leyen e Donald Trump no campo de golfe escocês, em Julho de 2025, é hoje criticado por sectores económicos europeus como uma rendição mal disfarçada. A nova tarifa de 25% sobre automóveis dá-lhes razão.
Foi a 27 de Julho de 2025, num resort de golfe escocês com o nome do dono — Turnberry, propriedade de Donald Trump —, que Ursula von der Leyen apertou a mão do presidente dos Estados Unidos e fechou o acordo comercial que iria, durante exactamente nove meses, definir as relações comerciais entre as duas maiores economias do planeta. A tarifa horizontal sobre as exportações da União Europeia para os EUA ficaria fixada em 15% — abaixo dos 30% inicialmente ameaçados, acima dos 0% que durante décadas tinham caracterizado o comércio transatlântico de vários produtos.
A 1 de Maio de 2026, num post no Truth Social, o mesmo Trump anunciou que iria, "na próxima semana", subir para 25% as tarifas sobre os automóveis e camiões europeus. A justificação foi a alegação, sem provas apresentadas, de que a UE não estava a cumprir o acordo que ele próprio tinha assinado.
Entre as duas datas, o discurso oficial em Bruxelas foi sempre o mesmo: "A deal is a deal". Um acordo é um acordo.
A frase, repetida em conferências de imprensa e em resposta a perguntas incómodas, começa a perder credibilidade. Não porque a Europa tenha mudado de posição. Pelo contrário. Porque aquele que assinou do outro lado nunca a teve.
A teoria do "vapourware"
Scott Lincicome, do Center for Trade Policy Studies do Cato Institute — um think-tank libertário, dificilmente acusável de simpatias europeias — usou em declarações à AFP uma palavra que ficou: estes acordos são vapourware. Software que se anuncia mas nunca chega a ser produzido. Acordos que existem apenas em apertos de mão "e na esperança de que Trump não se zangue com qualquer coisa".
A leitura é cínica e é precisa. A Section 232 do Trade Expansion Act de 1962 — invocada agora para justificar os 25% sobre automóveis — permite ao executivo americano impor direitos aduaneiros por motivos de segurança nacional sem necessidade de aprovação do Congresso. É uma arma jurídica permanente, que o presidente pode acionar quando lhe convier, e que não é afectada pelas decisões do Supremo Tribunal sobre a IEEPA. O acordo de Turnberry não a desactivou. Apenas a deixou em sossego enquanto Trump quisesse.
Quem assinou em Turnberry sabia disto. Ou não sabia, e devia saber.
A retaliação que não veio
Em Março de 2025, quando Trump ameaçou tarifas de 200% sobre vinho, champanhe e bebidas espirituosas europeias, a Comissão Europeia anunciou um pacote retaliatório de 26 mil milhões de euros sobre produtos americanos. Bourbon, motas, máquinas de lavar, cortadores de relva. A lista era extensa e politicamente calibrada — atingia estados republicanos. Era uma ameaça séria, com poder dissuasor real.
Esse pacote foi, sucessivamente, suspenso, adiado, esvaziado. O acordo de Turnberry encerrou formalmente a sua possibilidade. A UE optou por uma postura defensiva, na convicção — ou na esperança — de que a estabilidade negocial valia mais do que o confronto.
Paulo Amorim, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas Espirituosas (ANCEVE), foi um dos primeiros a colocar a crítica em termos directos: "A Europa não quis fazer retaliação e julgo que foi um erro estratégico. Ficou numa posição muito menorizada e von der Leyen presta-se a um papel lamentável ao ir ter com o presidente dos EUA a um hotel que tem na Escócia."
A frase ficou registada em Agosto de 2025. Hoje, lida à luz dos 25% sobre automóveis, soa profética.
A posição estrutural de Portugal
Portugal é, num bloco que escolheu não retaliar, um dos estados-membros mais expostos por valor relativo. Não porque exporte muito para os EUA em termos absolutos — exporta menos do que a Alemanha, a Itália, a Irlanda, a França, a Bélgica, a Espanha — mas porque os setores que exporta são particularmente sensíveis à tarifa.
O vinho português joga num segmento de preço onde 5 pontos percentuais decidem a permanência ou a saída de uma prateleira. A cortiça vive do vinho europeu. O calçado opera com margens estreitas. O têxtil migrou para nichos de valor acrescentado precisamente para escapar à concorrência asiática — agora vê-se a competir, ainda assim, em desvantagem face a concorrentes da Ásia tarifados a 10%.
Lisboa não tem, por si só, alavancagem negocial em Bruxelas. Tem 21 deputados no Parlamento Europeu, dois comissários influentes na história recente, e uma tradição diplomática de coalizões com países pequenos do Sul. A retaliação europeia, se vier, dependerá do alinhamento França-Alemanha-Itália. Nenhum dos três tem, neste momento, fôlego político para liderar o confronto.
O que Portugal pode fazer (que não está a fazer)
A primeira opção é a diversificação acelerada de mercados — o discurso oficial das associações setoriais. É uma estratégia que dá frutos no médio prazo (três a cinco anos) mas não resolve o problema imediato. Os mercados asiáticos, a América Latina, o Médio Oriente: todos exigem investimento promocional e tempo de implantação que Portugal não tem reserva para fazer simultaneamente.
A segunda opção é a pressão coordenada com outros estados-membros expostos — Itália, Irlanda, Países Baixos — para forçar Bruxelas a uma postura mais firme. Esta exige liderança política que, no actual quadro de Lisboa, não é evidente.
A terceira opção é a aceleração e desburocratização do programa Reforçar, que ViniPortugal e outras associações já criticaram pela "ineficácia no terreno". Os 10 mil milhões aprovados em Abril de 2025 são úteis se forem acessíveis. A taxa real de execução, à data, não é pública.
O preço de Turnberry
Há uma leitura, popular em certos círculos europeus, segundo a qual o acordo de Turnberry foi o melhor possível dadas as circunstâncias — e que sem ele a tarifa horizontal seria de 30% em vez de 15%. É possível. Não é demonstrável.
O que é demonstrável é que o acordo não impediu, em nove meses, que Trump invocasse uma lei diferente para subir tarifas a 25% sobre o setor automóvel — quebrando, na prática, o espírito do que tinha sido assinado. A "previsibilidade" que a Comissão usou como argumento para defender Turnberry revelou-se uma palavra sem peso jurídico nem peso político.
A questão final, para Portugal e para a Europa, não é se o acordo de Turnberry foi bom ou mau. É outra: que postura adopta um bloco económico de 450 milhões de habitantes, com PIB superior ao americano, quando o seu maior parceiro comercial muda as regras a meio do jogo, sem aviso e sem custos?
A resposta tem sido, até hoje, o silêncio cuidadoso. E a aceitação envergonhada.