Terapias de conversão: porque não funcionam e que danos causam - Sociedade Civil
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Resumo

  • Em 2021, a APA voltou ao tema com uma resolução que enquadra as SOCE como práticas que assentam em estigma e não em medicina — e reforça a necessidade de abordagens afirmativas e baseadas em evidência.
  • A nível das Nações Unidas, relatórios descrevem as chamadas terapias de conversão como intrinsecamente discriminatórias e associadas a violações da integridade e autonomia pessoais, num espectro que vai de coerção emocional a maus-tratos.
  • revisões sistemáticas publicadas em revistas científicas apontam para ausência de eficácia robusta e para associação a resultados negativos de saúde mental — incluindo stress, sintomas depressivos e suicidariedade, sobretudo quando a pressão vem de contextos familiares e comunitários.

A ideia vende-se há décadas com um verniz de “tratamento”: se alguém sofre por ser gay, bissexual ou trans, então o problema seria a orientação ou a identidade. A ciência diz o contrário. As terapias de conversão (SOCE) partem de um pressuposto falso — que existe algo a corrigir — e, quando entram na vida de uma pessoa, deixam rasto: vergonha, ansiedade, depressão, isolamento. E, em especial entre jovens, aparecem associadas a maior risco de ideação suicida e comportamentos suicidários.

Em Portugal, a discussão ganhou um ponto final jurídico em 2024, com a criminalização de atos dirigidos à alteração ou repressão da orientação sexual e da identidade/expressão de género. Mas a pergunta continua a chegar às redações, aos consultórios e às famílias: “Afinal, isto resulta?”

O que a evidência diz sobre “resultar”

A American Psychological Association (APA) já em 2009 afirmava haver evidência insuficiente de que as tentativas de mudança de orientação sexual funcionem, e recomendava que profissionais evitassem prometer que uma pessoa poderia “mudar” de gay para heterossexual.

Em 2021, a APA voltou ao tema com uma resolução que enquadra as SOCE como práticas que assentam em estigma e não em medicina — e reforça a necessidade de abordagens afirmativas e baseadas em evidência.

Aqui convém ser claro: quando alguns defensores falam em “mudança”, muitas vezes referem comportamento (celibato, relações heterossexuais por conformidade, supressão) e não atração ou orientação. Isso não é um detalhe técnico; é o coração do engano. Da promessa de “cura”, fica a vida apertada num papel que não é seu.

“Faz mal?” Os danos não são acessórios

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/PAHO) foi direta: estas práticas não têm justificação médica e representam uma ameaça séria à saúde e ao bem-estar, podendo pôr vidas em risco.

A nível das Nações Unidas, relatórios descrevem as chamadas terapias de conversão como intrinsecamente discriminatórias e associadas a violações da integridade e autonomia pessoais, num espectro que vai de coerção emocional a maus-tratos.

E depois há o que a investigação sintetiza: revisões sistemáticas publicadas em revistas científicas apontam para ausência de eficácia robusta e para associação a resultados negativos de saúde mental — incluindo stress, sintomas depressivos e suicidariedade, sobretudo quando a pressão vem de contextos familiares e comunitários.

Uma frase curta, mas verdadeira: o dano não é um efeito colateral — é parte do mecanismo.

A objeção previsível: “Mas e se a pessoa escolher?”

Poderiam argumentar que existe “consentimento”, que alguém pede ajuda para alinhar a vida com a fé, ou que se trata de “aconselhamento” e não de terapia. Há zonas cinzentas na linguagem, sim — e é por aí que estas práticas sobrevivem.

Mas há dois factos que não desaparecem com semântica: (1) não há diagnóstico a tratar, porque orientação sexual não é doença; (2) quando o processo é desenhado para reprimir quem a pessoa é, a probabilidade de sofrimento aumenta. Consentimento, quando nasce de medo, rejeição, dependência económica ou ameaça de expulsão de casa, é uma palavra frágil.

Concessão honesta: nem todas as experiências relatadas por quem passou por SOCE são iguais. Há quem descreva “alívio” temporário. Só que esse alívio costuma vir do silêncio e da conformidade — e isso tem custo, às vezes anos depois.

Serviço ao leitor: sinais de alerta e apoio

Se alguém lhe promete “mudar” orientação/identidade, se insiste em “reprimir desejos”, se usa culpa, medo ou humilhação como método — desconfie. Em Portugal, desde 2024, atos dirigidos à alteração ou repressão da orientação sexual e da identidade/expressão de género são crime, com agravamentos em certas situações.

Se estiver em sofrimento ou em risco, procure ajuda já: SNS 24 (808 24 24 24), opção 4 para aconselhamento psicológico.

E uma nota de redação — também ética: num tema assim, evita-se o adjetivo fácil e escreve-se com precisão, porque o leitor não precisa de choque; precisa de chão.

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