25 de Abril: os números que mostram o que a revolução mudou em Portugal - Sociedade Civil
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Resumo

  • Em 25 de abril de 1974, quando os cravos apareceram nos canos das espingardas, Portugal era um dos países mais atrasados da Europa Ocidental em quase todos os indicadores sociais que hoje se usam para medir a qualidade de vida de uma nação.
  • Três anos depois, em setembro de 1979, a Lei 56/79 criou o Serviço Nacional de Saúde — gratuito, universal, acessível a todos os cidadãos independentemente da sua condição social ou económica.
  • Para a sua avó, que em 1970 era analfabeta e vivia numa aldeia do Minho, votar pela primeira vez em 1975 foi o maior acto político da sua vida.

Em 25 de abril de 1974, quando os cravos apareceram nos canos das espingardas, Portugal era um dos países mais atrasados da Europa Ocidental em quase todos os indicadores sociais que hoje se usam para medir a qualidade de vida de uma nação. O que mudou não foi apenas o regime político. Mudou a vida concreta de milhões de pessoas — em como nasciam, em quanto viviam, no que aprendiam e no que podiam fazer.

Os números estão na PORDATA. Não precisam de adjectivos.

O Portugal que existia antes

Em 1970 — quatro anos antes da revolução — 25,7% da população portuguesa era analfabeta. Um em cada quatro adultos não sabia ler nem escrever. Desses 1,8 milhões de analfabetos, 64% eram mulheres. Nas aldeias do interior, era normal uma criança terminar a escola primária — quatro anos de escolaridade — e não voltar a entrar numa sala de aula.

O ensino superior era um privilégio de classe. Nos Censos de 1970, apenas 49 mil pessoas em Portugal tinham frequentado uma universidade — menos de 1% da população com 15 ou mais anos. Quem não tinha posses, não estudava além do básico. Quem não estudava, não subia. Era um sistema fechado por design.

Na saúde, os números eram ainda mais duros. Em 1974, Portugal registava 38 mortes por cada 1.000 nascimentos vivos — a pior mortalidade infantil de toda a Europa Ocidental. A média europeia era de 21. Morria o dobro. Em 1970, apenas 38% dos partos aconteciam em estabelecimentos de saúde. Os outros nasciam em casa, sem médico, sem enfermeiro, sem equipamento de emergência. As mulheres do campo pariam como pariam as suas avós.

O que a revolução desbloqueou

A 25 de abril de 1974, o MFA — Movimento das Forças Armadas — derrubou o regime do Estado Novo. A PIDE, a polícia política que prendia e torturava opositores, foi abolida nesse mesmo dia. Os sindicatos independentes, ilegais desde Salazar, tornaram-se legais. A censura — a “tesoura” que cortava jornais antes de sair para a rua — acabou.

Mas as conquistas mais duradouras não foram as que chegaram em abril. Foram as que vieram a seguir, construídas lentamente sobre os alicerces que a revolução tornou possíveis.

A Constituição de 1976 consagrou o direito universal à saúde, à educação e ao trabalho digno. Três anos depois, em setembro de 1979, a Lei 56/79 criou o Serviço Nacional de Saúde — gratuito, universal, acessível a todos os cidadãos independentemente da sua condição social ou económica. Era a primeira vez na história de Portugal que um trabalhador rural do Alentejo tinha direito ao mesmo médico que um empresário de Lisboa.

Os dados de 2022 — cinquenta anos depois

Em 2022, a mortalidade infantil em Portugal era de 2,6 por cada 1.000 nascimentos. A média europeia era de 3,3. Portugal estava no top 10 mundial. Do pior da Europa ao melhor do mundo, em cinquenta anos.

A taxa de analfabetismo desceu de 25,7% em 1970 para 3,1% em 2021. São 293 mil pessoas — ainda demasiadas, mas um sexto em comparação com as quase dois milhões de 1970. O número de alunos no ensino superior saltou de 82 mil em 1978 para 446 mil em 2023. Cinco vezes mais. O número de médicos por cada 100 mil habitantes aumentou quase cinco vezes. Em 2021, havia 564 médicos e 771 enfermeiros por cada 100 mil portugueses.

Nenhum destes números existiria sem o 25 de Abril.

O que os dados não medem

Há conquistas que os indicadores sociais capturam mal. A dignidade de poder discordar em voz alta. O direito de se manifestar numa praça pública sem risco de prisão. A liberdade de escolher quem governa — e de o poder retirar. A possibilidade de uma mulher assinar um contrato sem pedir licença ao marido.

Uma professora de 28 anos que nasceu em 1998 nunca viveu um dia de ditadura. Para ela, votar é banal. Para a sua avó, que em 1970 era analfabeta e vivia numa aldeia do Minho, votar pela primeira vez em 1975 foi o maior acto político da sua vida.

Toda a distância entre essas duas mulheres chama-se 25 de Abril.

O que 80% dos portugueses sabem

Uma sondagem publicada em 2024, no contexto do 50.º aniversário, mostrou que oito em cada dez portugueses declaravam orgulho no 25 de Abril. É uma das mais altas taxas de aprovação de qualquer evento histórico alguma vez medida em Portugal.

Os 20% restantes não são todos revisionistas. Alguns são jovens que nunca aprenderam o que havia antes. Outros são cidadãos insatisfeitos com o presente que projectam o descontentamento no passado.

O antídoto para o revisionismo não é a celebração ritual. É o número concreto. É o 38‰ de mortalidade infantil contra o 2,6‰. É o 25,7% de analfabetismo contra o 3,1%. É a professora de 28 anos que não sabe o que existia antes — e que, se soubesse, perceberia melhor o que tem.

Os dados não precisam de bandeiras. Falam por si.

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