Resumo
- Em Lisboa, um motorista de distribuição que enche o depósito duas vezes por semana começou a pagar mais 5,7 cêntimos por litro no gasóleo a partir de 9 de março.
- A EPCOL — associação que representa as empresas petrolíferas em Portugal — confirmou que o aumento previsto para 9 de março era de cerca de 25 cêntimos no gasóleo simples e 7 cêntimos na gasolina simples.
- Em contrapartida, países como a Alemanha ou a Polónia, mais dependentes de gás natural liquefeito (GNL) importado do Catar e dos Emirados Árabes Unidos — cuja exportação passa também pelo Estreito de Ormuz — estão a enfrentar pressões adicionais sobre os preços da electricidade.
Guerra no Irão sobe combustíveis em Portugal 25 cêntimos
A guerra que ainda não vês, mas já pagas na bomba de gasolina
O conflito no Médio Oriente disparou o preço do petróleo para mais de 100 dólares por barril. Em Portugal, o impacto já chegou às bombas — e o governo estuda medidas de emergência.
A guerra começou a 28 de fevereiro de 2026. Em Lisboa, um motorista de distribuição que enche o depósito duas vezes por semana começou a pagar mais 5,7 cêntimos por litro no gasóleo a partir de 9 de março. Por depósito de 60 litros, são mais 3,42 euros. Por mês, mais de 27 euros. Por ano — se o conflito durar — mais de 320 euros. Sem aviso. Sem culpa. Apenas porque um estreito de 54 quilómetros, a mais de 5.000 quilómetros de distância, está efectivamente bloqueado.
Portugal não tem fronteira com o Irão. Não tem tropas no Médio Oriente. Importa apenas 2% do seu petróleo directamente da região do Golfo Pérsico. Mas isso, como rapidamente ficou claro, não chega para ficar imune.
Como o petróleo chega ao preço de rua
Os preços dos combustíveis em Portugal são fixados de acordo com as cotações internacionais do crude. O barril Brent — a referência europeia — estava em torno dos 70 dólares antes de 28 de fevereiro. Na primeira semana de março, disparou para mais de 84 dólares. Em momentos de maior tensão, chegou aos 110 dólares.
O mecanismo é simples: Portugal compra petróleo refinado em mercados internacionais cujo preço reflecte o crude global. Quando o barril sobe em Londres ou Nova Iorque, sobe também no depósito de abastecimento da refinaria de Sines dias depois.
A EPCOL — associação que representa as empresas petrolíferas em Portugal — confirmou que o aumento previsto para 9 de março era de cerca de 25 cêntimos no gasóleo simples e 7 cêntimos na gasolina simples. Na semana anterior, a gasolina já tinha acumulado uma subida de 3,8 cêntimos e o gasóleo de 5,7 cêntimos.
O que o governo está a fazer
O primeiro-ministro admitiu, a 7 de março, que o executivo poderia avançar com uma redução extraordinária e temporária do ISP — o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos. A medida, usada anteriormente durante a crise energética de 2022 provocada pela invasão russa da Ucrânia, funciona assim: quando o IVA adicional cobrado pelo Estado por força do aumento dos preços ultrapassa um determinado limiar, o governo devolve parte dessa receita através de uma redução do imposto específico.
O executivo, à data de publicação deste artigo, ainda aguardava dados mais estáveis sobre a evolução dos preços antes de tomar uma decisão final. A lição da crise ucraniana, que custou ao Estado centenas de milhões de euros em receita fiscal, pesa na equação.
A vantagem das renováveis
Há um factor que atenua o impacto em Portugal face a outros países europeus. Cerca de 70% da electricidade consumida em Portugal é já produzida a partir de fontes renováveis — eólica, solar e hídrica. Isso significa que o choque do petróleo afecta sobretudo os transportes e o aquecimento a gás, não a factura da luz.
Em contrapartida, países como a Alemanha ou a Polónia, mais dependentes de gás natural liquefeito (GNL) importado do Catar e dos Emirados Árabes Unidos — cuja exportação passa também pelo Estreito de Ormuz — estão a enfrentar pressões adicionais sobre os preços da electricidade.
O cenário que ninguém quer ver
O economista Paulo Rosa, do Banco Carregosa, foi directo numa análise publicada no ECO a 3 de março: se o petróleo atingir 150 dólares por barril — um cenário que se tornaria plausível em caso de bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz — “dificilmente Portugal escaparia de uma recessão”.
Um barril a 150 dólares significaria gasolina acima de dois euros por litro, provavelmente mais próxima de 2,20 ou 2,30 euros. O gasóleo poderia ultrapassar os dois euros. Para uma família com dois carros e aquecimento a gás, o acréscimo mensal seria da ordem dos 100 a 150 euros — dinheiro que deixaria de circular na economia local.
A questão não é apenas energética. É também sobre poder de compra. Menos dinheiro nos bolsos das famílias significa menos consumo nos restaurantes, nas lojas, nos serviços. A inflação regressa. O BCE hesita antes de cortar juros. O crédito à habitação, que muitos portugueses acompanham ansiosos desde 2022, não desce tão depressa quanto esperavam.
Uma família em Setúbal, uma guerra no Golfo
Ana Rodrigues tem 42 anos, trabalha na administração pública em Setúbal e percorre 34 quilómetros por dia no seu Volkswagen Polo a gasóleo. Com o aumento de 25 cêntimos por litro no gasóleo, o seu custo mensal em combustível sobe cerca de 18 euros. Não é uma tragédia. É, diz ela, “mais uma coisa que vai ficando”.
“Já tínhamos subido a prestação da casa, os supermercados, as propinas do miúdo. Agora isto.” Pausa. “Não sei de onde se vai tirando.”
É uma observação trivial. É também a síntese mais precisa de como a guerra chega a Portugal: não com bombas, mas com 18 euros a menos numa conta bancária de classe média.
A incerteza que domina tudo
A verdade incómoda — que economistas e governos dizem mas raramente com esta clareza — é que ninguém sabe o que vai acontecer a seguir. O FMI disse que o impacto “dependerá da duração”. O Chatham House sublinhou que a economia global já sobreviveu à Ucrânia e às tarifas de Trump. Goldman Sachs estima que cada 10% de aumento no preço do petróleo se traduz em 0,3 pontos percentuais de inflação adicional na Zona Euro.
Se o barril estabilizar entre 70 e 80 dólares nas próximas semanas, o choque será absorvido. Se o bloqueio do Estreito de Ormuz se prolongar — e o tráfego caiu já 70%, de acordo com dados de rastreamento marítimo — o cenário muda de figura.
O que está claro é que a dependência de Portugal de um mercado global de energia que passa por um único corredor marítimo de 54 quilómetros não é uma abstracção geopolítica. É uma vulnerabilidade estrutural. E cada vez que essa vulnerabilidade é activada, são as famílias portuguesas que pagam a factura.