Partilha

Resumo

  • O colapso do Elevador da Glória, ícone da mobilidade e do património de Lisboa, não pode ser reduzido a um relatório técnico ou a uma investigação criminal.
  • se há negligência na manutenção, se houve cortes sucessivos em investimento, se a fiscalização falhou, é porque a autarquia não colocou a segurança dos lisboetas acima das folhas de Excel e do discurso da “eficiência”.
  • Uma cidade é feita de vidas humanas, de trabalhadores que mantêm o transporte a funcionar e de cidadãos que acreditam que um elevador histórico é seguro.

Um acidente com mortos e feridos nunca é apenas uma fatalidade técnica. É um choque coletivo que expõe prioridades políticas, escolhas de gestão e a forma como uma cidade cuida – ou descuida – do que é seu. O colapso do Elevador da Glória, ícone da mobilidade e do património de Lisboa, não pode ser reduzido a um relatório técnico ou a uma investigação criminal. O que está em causa é responsabilidade política. E essa tem um nome: Carlos Moedas.

O presidente da Câmara de Lisboa não pode, hoje, refugiar-se atrás da Carris, dos engenheiros de manutenção ou da fatalidade. A Carris é pública. Depende da Câmara. E a Câmara é liderada por Moedas. A linha de comando é clara: se há negligência na manutenção, se houve cortes sucessivos em investimento, se a fiscalização falhou, é porque a autarquia não colocou a segurança dos lisboetas acima das folhas de Excel e do discurso da “eficiência”.

Moedas tem feito carreira em dois eixos: a promessa de gestão empresarial na política e a ideia de que Lisboa pode ser gerida como uma start-up. Ora, uma cidade não é um laboratório de inovação financeira. Uma cidade é feita de vidas humanas, de trabalhadores que mantêm o transporte a funcionar e de cidadãos que acreditam que um elevador histórico é seguro. O que aconteceu no Glória é, portanto, a tradução brutal de uma opção política: cortar onde não se vê, adiar o investimento onde não dá votos, transferir responsabilidades para o abstrato “outro”.

Não se trata apenas de pedir a demissão de um administrador da Carris ou de criar mais uma comissão de inquérito. Trata-se de exigir ao presidente da Câmara uma assunção clara: quando há tragédias desta dimensão, o topo da pirâmide responde. Não basta ir ao local deixar flores ou fazer declarações de pesar. O que Lisboa precisa é de um presidente que saiba dizer: “falhámos, e eu sou responsável”.

A responsabilidade política não é uma figura retórica. É o que distingue líderes que governam com seriedade daqueles que governam de costas voltadas para a realidade. Carlos Moedas não pode sacudir a Glória do seu currículo. É nele que fica inscrita a tragédia.

You May Also Like

A Tríade de Guterres: cessar‑fogo, reféns e ajuda — há caminho?

Partilha
Partilha Resumo Apesar de dez resoluções discutidas no Conselho de Segurança entre…

SNS: como o 25 de Abril criou o melhor sistema de saúde de Portugal

Partilha
Em 1974, Portugal tinha a pior mortalidade infantil da Europa. Hoje está no top 10 mundial. Chamou-se Lei 56/79 — o SNS, directa conquista do 25 de Abril. O que está em jogo quando se discute o seu futuro.

Alethocide em Gaza: quando a guerra se trava contra a verdade

Partilha
Partilha Resumo O número de mortos palestinianos, superior a 62 mil até…

Crianças do Pós-Império: O Legado Colonial na Juventude Afrodescendente

Partilha
São jovens, nascidos em Portugal, falam português sem sotaque e sabem de cor as letras de ProfJam ou Soraia Ramos. Cresceram entre a escola pública e os centros comerciais, os transportes suburbanos e os bairros periféricos. São portugueses — mas raramente tratados como tal.