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Resumo

  • O número de mortos palestinianos, superior a 62 mil até agosto de 2025, a esmagadora maioria mulheres e crianças, só pôde ser legitimado no espaço público através de uma máquina de desinformação globalmente amplificada.
  • Lançada a 10 de outubro de 2023 pela i24News, replicada por contas oficiais do Estado israelita e por líderes como Joe Biden, a alegação acumulou dezenas de milhões de visualizações antes de ser desmentida.
  • Financiada pelo Ministério dos Assuntos da Diáspora de Israel e executada por uma empresa de relações públicas em Tel Aviv, mobilizou centenas de contas falsas, jornais inventados e até imagens de afro-americanos geradas por IA para enfraquecer a solidariedade entre movimentos negros e palestinianos.

O que acontece quando a mentira deixa de ser apenas propaganda episódica e se transforma numa arma de guerra tão letal quanto os mísseis? A resposta está no conceito de “alethocide”, desenvolvido por investigadores internacionais para descrever a destruição sistemática e orquestrada da verdade como parte integrante de conflitos armados. No caso de Gaza, após os ataques de 7 de outubro de 2023, essa dinâmica atingiu uma escala que muitos já classificam como inédita. O número de mortos palestinianos, superior a 62 mil até agosto de 2025, a esmagadora maioria mulheres e crianças, só pôde ser legitimado no espaço público através de uma máquina de desinformação globalmente amplificada.


O assassinato da verdade

O termo alethocide deriva de aletheia (verdade, em grego) e -cide (matar, em latim). O relatório “Alethocide: Desinformação na Guerra Israel-Gaza” define-o como a destruição sistemática da verdade para permitir a violência em massa. Mais do que propaganda, é um processo de assassinato do real, que transforma ficções em consensos políticos e, pior, legitima massacres.

Um exemplo foi a narrativa dos “40 bebés decapitados” alegadamente por combatentes do Hamas. Lançada a 10 de outubro de 2023 pela i24News, replicada por contas oficiais do Estado israelita e por líderes como Joe Biden, a alegação acumulou dezenas de milhões de visualizações antes de ser desmentida. Mesmo assim, em julho de 2024, Benjamin Netanyahu voltou a repetir no Congresso dos EUA que “bebés foram queimados vivos”. Como explicar esta reincidência? Porque a falsidade já tinha cumprido a sua função: criar indignação moral e justificar a escalada militar.


Pallywood e os “bebés do ódio”

Ao mesmo tempo que fabricava atrocidades do lado palestiniano, a máquina de desinformação negava as suas próprias. O tropo “Pallywood”, inventado durante a Segunda Intifada, ressurgiu em 2023 com força. A tese: palestinianos encenam mortes, usam bonecas como cadáveres, criam manipulações visuais. A acusação, sem provas, serviu para anestesiar o público ocidental contra imagens de crianças mutiladas em Gaza.

Quando a matança se tornou impossível de ocultar, a retórica deu um salto ainda mais sombrio: da negação à desumanização. Em novembro de 2023, as IDF divulgaram fotos de um exemplar de Mein Kampf alegadamente encontrado no quarto de uma criança palestiniana. Dias antes, a diplomacia israelita tinha publicado cartoons a contrapor “bebés israelitas criados com amor” a “bebés de Gaza criados com ódio”. A mensagem implícita era brutal: até as crianças palestinianas seriam terroristas em potência. Como combater uma narrativa que justifica a morte preventiva de bebés?


Operações secretas e ataques à ajuda humanitária

As provas de que o alethocide não é acidental, mas sim planeado, surgiram com a revelação da Operação STOIC. Financiada pelo Ministério dos Assuntos da Diáspora de Israel e executada por uma empresa de relações públicas em Tel Aviv, mobilizou centenas de contas falsas, jornais inventados e até imagens de afro-americanos geradas por IA para enfraquecer a solidariedade entre movimentos negros e palestinianos. Uma das metas explícitas era enfraquecer a ligação entre o Black Lives Matter e a causa palestiniana.

Outra frente foi o ataque à UNRWA, a principal agência da ONU em Gaza. Através de relatórios de inteligência não verificados, artigos de jornais ocidentais e anúncios pagos à Google, Israel acusou funcionários da agência de ligações ao Hamas. Resultado: cortes de 450 milhões de dólares em financiamento, em plena catástrofe humanitária. Mais tarde, relatórios da ONU concluíram que não havia provas robustas para sustentar as acusações. Mas o dano estava feito: fome, hospitais sem meios, deslocados sem abrigo.


A cumplicidade global

O relatório mostra como este assassinato da verdade não opera no vazio. Ele é amplificado por moduladores poderosos:

  • Governos aliados, sobretudo os EUA, que repetem alegações sem provas.
  • Meios de comunicação ocidentais que, segundo estudos, deram 16 vezes mais cobertura a mortes israelitas do que palestinianas.
  • Plataformas tecnológicas como a Meta, acusada de censurar sistematicamente conteúdos pró-palestinianos enquanto deixava proliferar incitamento em hebraico.
  • Contratos como o Projeto Nimbus, que liga Google e Amazon ao fornecimento de serviços de IA às forças israelitas, revelam até que ponto gigantes digitais se tornaram atores políticos da guerra.

Implicações jurídicas

Pode o alethocide ser considerado crime internacional? Os juristas dividem-se. Mas o relatório argumenta que campanhas sistemáticas de desumanização e falsificação, orquestradas por Estados, podem ser enquadradas como incitamento ou cumplicidade em genocídio. Afinal, o Artigo III da Convenção de 1948 criminaliza o incitamento público a genocídio. Se a mentira cria o ambiente para matar, a mentira não é neutra. É arma.


Uma guerra contra a realidade

O que está em jogo vai além de Gaza. O alethocide, ao normalizar atrocidades, ameaça o próprio conceito de verdade histórica e de direito internacional. Num tempo em que imagens, tweets e anúncios podem valer tanto quanto bombas, a primeira vítima da guerra volta a ser, como dizia Hiram Johnson em 1917, “a verdade”. Só que agora essa morte é planeada, industrializada, globalmente partilhada.

E a pergunta impõe-se: se permitirmos que a verdade seja assassinada em Gaza, o que restará para proteger qualquer outra vítima de guerras futuras?


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