Resumo
- Em Gaza, é um campo de morte, luto e trauma — onde a infância deixou de ser infância e passou a ser sobrevivência.
- ONGs como a Save the Children, Defense for Children International e Anera continuam a distribuir kits escolares, brinquedos e apoio psicológico — mesmo em zonas de risco.
- O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional inclui a perseguição sistemática de crianças como crime de guerra e crime contra a humanidade.
Na Faixa de Gaza, mais de metade da população tem menos de 18 anos. Em qualquer outro lugar, isso seria uma promessa de futuro. Em Gaza, é um campo de morte, luto e trauma — onde a infância deixou de ser infância e passou a ser sobrevivência.
Desde o início da ofensiva militar israelita, em outubro de 2023, foram mortas mais de 14 mil crianças, segundo dados atualizados da UNRWA e da UNICEF. Outras milhares ficaram feridas, órfãs ou desaparecidas sob os escombros. As que sobreviveram carregam cicatrizes físicas e psicológicas que durarão para sempre.
Sem escola, sem abrigo, sem pais
A UNICEF estima que mais de 80% das escolas de Gaza foram total ou parcialmente destruídas, tornando o regresso às aulas um sonho distante. Milhares de crianças vivem agora em abrigos sobrelotados, sem acesso a livros, lápis, professores ou espaços seguros para brincar.
Ao mesmo tempo, calcula-se que pelo menos 17 mil crianças tenham perdido um ou ambos os pais — muitas a viver com tios, vizinhos ou completamente sozinhas. Algumas foram separadas durante os bombardeamentos e ainda não foram identificadas.
“Recebemos casos de bebês encontrados junto a cadáveres, sem qualquer identificação. Não sabemos os nomes. Não sabemos quem os procura”, relata uma enfermeira voluntária do Crescente Vermelho Palestiniano.
Corpos feridos, mentes quebradas
Além dos números chocantes, há feridas invisíveis: ansiedade extrema, mutismo, autolesão, insónia, medo crônico. A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a situação como “emergência psicológica de larga escala”.
Muitos hospitais foram destruídos ou estão a funcionar sem equipamento adequado. Próteses para membros amputados, medicamentos para epilepsia infantil, fraldas e leite em pó tornaram-se artigos de luxo.
Segundo a Médicos Sem Fronteiras, uma em cada cinco crianças hospitalizadas sofre ferimentos incapacitantes que exigirão reabilitação física e emocional por anos.
Onde há vida, há resistência
Apesar do cenário devastador, há sinais de coragem e resiliência que desafiam o desespero. Professores voluntários começaram a dar aulas improvisadas em tendas, usando terra como quadro e paus como giz. Crianças organizam pequenos teatros, desenham nos escombros, contam histórias umas às outras.
ONGs como a Save the Children, Defense for Children International e Anera continuam a distribuir kits escolares, brinquedos e apoio psicológico — mesmo em zonas de risco.
Um menino de 10 anos, que perdeu os pais num ataque aéreo, disse recentemente a um jornalista: “Quero aprender para contar ao mundo o que aconteceu. Se eu morrer, alguém tem de saber.”
Uma infância roubada é um crime irreversível
O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional inclui a perseguição sistemática de crianças como crime de guerra e crime contra a humanidade. Usar crianças como escudo, privá-las de comida, saúde, educação e abrigo, não é apenas uma tragédia — é uma violação do direito internacional.
E no caso de Gaza, não há como alegar ignorância.
As imagens circularam. Os números foram confirmados. Os nomes foram lidos em voz alta por milhares de crianças pelo mundo fora.
O futuro precisa de justiça e reconstrução
Gaza não precisa apenas de cimento e geradores. Precisa de escolas, bibliotecas, parques, psicólogos, abraços e segurança. Precisa de devolver às crianças o direito de serem apenas isso: crianças.
Cada dia que passa sem cessar-fogo, sem justiça e sem reconstrução, é mais um dia em que a infância morre à vista de todos.
Porque quem não protege uma criança, destrói o amanhã. E em Gaza, esse amanhã está a ser apagado à bomba.