Resumo
- Com perfis altamente activos em Facebook, YouTube, Instagram e TikTok, o partido e os seus militantes geram milhares de interacções diárias, muitas vezes a partir de conteúdos sensacionalistas ou provocatórios.
- Relatórios recentes da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos indicam falhas recorrentes na rastreabilidade de apoios recebidos por partidos de extrema-direita, incluindo eventos pagos por entidades externas, gastos não declarados em redes sociais e financiamento de estruturas juvenis sem contabilidade clara.
- Estas redes fornecem apoio jurídico, formação em técnicas de manipulação de opinião pública e acesso privilegiado a plataformas de comunicação alternativa — com forte impacto entre o eleitorado jovem.
Por detrás do discurso de ódio, um ecossistema de financiamento, cliques e poder
A hostilidade contra imigrantes e minorias étnicas não nasce no vazio. É cultivada, amplificada — e, muitas vezes, financiada. Em Portugal, a ascensão do discurso xenófobo não é apenas uma tendência política ou cultural: é também um negócio. Quem está a lucrar com o medo? E como se financia a máquina que transforma preconceito em influência?
Por trás dos discursos inflamados e das declarações polémicas de figuras da extrema-direita, há uma teia mais complexa: doações opacas, plataformas digitais rentáveis, campanhas de desinformação e agências de comunicação política especializadas em manipular algoritmos e emoções.
Da retórica à receita
O partido Chega tem sido o principal veículo da retórica anti-imigração em Portugal. A sua narrativa assenta numa fórmula simples: nacionalismo agressivo, bode expiatório racial, combate à “invasão” cultural. A novidade é a profissionalização desta mensagem, que circula por canais com elevada eficácia digital — e retorno económico.
As redes sociais são o principal palco. Com perfis altamente activos em Facebook, YouTube, Instagram e TikTok, o partido e os seus militantes geram milhares de interacções diárias, muitas vezes a partir de conteúdos sensacionalistas ou provocatórios. Estes conteúdos são, frequentemente, monetizados através de publicidade automatizada, merchandising partidário ou contribuições directas de apoiantes.
“Há um incentivo económico para produzir indignação”, afirma o analista de media digitais Diogo Oliveira. “Cada vídeo que viraliza com uma declaração xenófoba gera tráfego, e o tráfego é convertido em dinheiro e influência.”
Além disso, o Chega tem recorrido a plataformas de crowdfunding político, maioritariamente não auditadas, para financiar campanhas e eventos. Os detalhes sobre os montantes recebidos e a sua proveniência permanecem pouco transparentes.
Financiamento partidário e zonas cinzentas
Em teoria, os partidos em Portugal estão sujeitos à Lei do Financiamento dos Partidos Políticos, que estabelece limites para doações e obriga à apresentação de contas detalhadas ao Tribunal Constitucional. Na prática, as zonas de opacidade são muitas.
Relatórios recentes da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos indicam falhas recorrentes na rastreabilidade de apoios recebidos por partidos de extrema-direita, incluindo eventos pagos por entidades externas, gastos não declarados em redes sociais e financiamento de estruturas juvenis sem contabilidade clara.
“Há um défice de fiscalização, sobretudo no universo digital”, alerta a jurista Ana Morgado. “As campanhas feitas por influencers alinhados com ideologias xenófobas escapam a qualquer controlo legal.”
O modelo é eficaz: associações “cívicas” de fachada organizam conferências ou lives com figuras públicas, atraem patrocinadores privados e movimentam redes de apoio político — tudo à margem da contabilidade partidária.
O papel das plataformas tecnológicas
Empresas como Meta (Facebook, Instagram) e Google (YouTube) beneficiam financeiramente da polarização política. Os algoritmos favorecem conteúdos que geram reacções emocionais intensas — raiva, medo, indignação — e mantêm os utilizadores engajados por mais tempo. A extrema-direita domina esta linguagem.
Vídeos com mensagens xenófobas, mesmo quando reportados por utilizadores, permanecem online durante dias. Enquanto isso, acumulam milhares de visualizações, comentários e partilhas — e rendem lucros publicitários tanto para os produtores de conteúdo como para as plataformas.
Apesar de iniciativas anunciadas para combater a desinformação e o ódio, as grandes tecnológicas têm sido acusadas de conivência ou, no mínimo, negligência.
“O discurso do ódio tornou-se um modelo de negócio”, denuncia a investigadora Joana Gonçalves, autora de um estudo recente sobre extremismo digital em Portugal. “Enquanto houver lucro na polarização, o problema vai persistir.”
Ligações internacionais
A lógica de financiamento da xenofobia é também transnacional. Partidos e movimentos de extrema-direita portugueses mantêm relações com redes europeias que partilham estratégias, dados e até recursos materiais.
A Fundação ID (Identidade e Democracia), ligada à extrema-direita europeia, já financiou projectos em Portugal. Congressos e encontros promovidos por think tanks como o Europa Cristã ou o Instituto Salazar atraem representantes de partidos xenófobos da Hungria, Itália, Polónia e França.
Estas redes fornecem apoio jurídico, formação em técnicas de manipulação de opinião pública e acesso privilegiado a plataformas de comunicação alternativa — com forte impacto entre o eleitorado jovem.
A desinformação como combustível
Campanhas virais de desinformação têm sido fundamentais para a difusão da xenofobia. Casos de crimes cometidos por imigrantes são exagerados, descontextualizados ou inventados, e circulam rapidamente nos grupos de WhatsApp, Telegram e Facebook.
Estudos da Universidade Nova de Lisboa identificaram páginas e grupos com milhares de seguidores dedicados a disseminar conteúdos racistas e conspiracionistas, com ligações indirectas a estruturas partidárias. O rastro do financiamento é, muitas vezes, impossível de seguir.
“Há uma indústria da mentira com objectivos políticos claros”, afirma o jornalista Pedro Coelho. “E, ao contrário do jornalismo sério, essa indústria é lucrativa, rápida e difícil de desmontar.”
E o Estado?
A resposta institucional continua tímida. A ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) não tem jurisdição sobre plataformas digitais estrangeiras. A PSP e a PJ têm unidades de cibercrime, mas não estão vocacionadas para monitorizar discurso político em redes sociais.
Já a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial tem recursos limitados e escassa capacidade sancionatória. Em 2024, apenas 7% das queixas apresentadas por discurso de ódio resultaram em processos sancionatórios.
A ausência de regulação eficaz abre espaço para a impunidade — e, mais grave ainda, para a rentabilização sistemática do racismo.
A máquina que transforma ódio em capital
O medo vende. E há quem saiba como transformá-lo em votos, dinheiro e poder. Por detrás da ascensão da xenofobia em Portugal não estão apenas ideologias radicais, mas também estratégias empresariais, interesses privados e plataformas cúmplices.
Desconstruir esta engrenagem exige transparência, regulação e literacia mediática. Exige que o jornalismo investigativo siga o rastro do dinheiro e que a sociedade civil exija responsabilidade — não apenas pelos discursos, mas pelas estruturas que os tornam lucrativos.
Porque o que está em causa não é apenas a verdade, mas a própria saúde da democracia.