Resumo
- Quando mais de 100 jornalistas são assassinados em menos de um ano, e os principais organismos de jornalismo internacional mantêm o silêncio, o que está em causa não é apenas negligência — é cumplicidade.
- Este artigo analisa o comportamento público — ou a ausência dele — de organizações como a BBC, a International Women’s Media Foundation (IWMF), a International Press Institute (IPI), a Reuters Foundation e outras entidades que, perante outros conflitos, se afirmam defensoras intransigentes da liberdade de imprensa.
- Segundo o Comité para a Proteção de Jornalistas (CPJ), o número de jornalistas mortos em Gaza desde Outubro de 2023 é superior ao total de todas as guerras dos últimos cinco anos.
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Quando mais de 100 jornalistas são assassinados em menos de um ano, e os principais organismos de jornalismo internacional mantêm o silêncio, o que está em causa não é apenas negligência — é cumplicidade. A brutal ofensiva de Israel sobre Gaza transformou a Faixa no local mais letal do mundo para quem exerce o jornalismo. Mas onde está a resposta institucional dos gigantes da imprensa global?
Este artigo analisa o comportamento público — ou a ausência dele — de organizações como a BBC, a International Women’s Media Foundation (IWMF), a International Press Institute (IPI), a Reuters Foundation e outras entidades que, perante outros conflitos, se afirmam defensoras intransigentes da liberdade de imprensa.
Mais de 100 jornalistas mortos. Nenhum inquérito exigido.
Segundo o Comité para a Proteção de Jornalistas (CPJ), o número de jornalistas mortos em Gaza desde Outubro de 2023 é superior ao total de todas as guerras dos últimos cinco anos. A maioria são palestinianos. Muitos foram mortos em casa, com as famílias, em ataques deliberados.
Apesar da gravidade, nenhuma organização internacional de referência lançou uma investigação independente sobre os assassinatos. Nem a BBC, que tem parcerias com jornalistas palestinianos; nem a IWMF, que promove a proteção de mulheres jornalistas; nem o IPI, que afirma ser “a voz global da liberdade de imprensa”.
“O silêncio não é neutro. É um posicionamento. E neste caso, é um posicionamento a favor do agressor”, acusa Nour Odeh, jornalista e analista de media.
A lógica do duplo padrão
Quando jornalistas são detidos ou mortos em regimes como o russo, iraniano ou chinês, as reações das organizações internacionais são rápidas, públicas e firmes. Declarações oficiais, cartas abertas, campanhas de pressão e exigência de responsabilização.
Mas quando os mortos são palestinianos, a reação é frequentemente limitada a tweets genéricos de “preocupação” ou notas de rodapé em relatórios anuais.
A BBC, cuja cobertura do conflito tem sido criticada por enviesamento pró-Israel, nunca fez um editorial sobre os jornalistas assassinados em Gaza.
A Reuters Foundation emitiu uma nota sobre a morte do seu repórter Issam Abdallah no Líbano — mas ignorou os palestinianos que colaboravam com a Reuters e foram mortos em Gaza.
A IWMF, que afirma apoiar jornalistas em zonas de risco, não lançou qualquer iniciativa pública específica de apoio a mulheres repórteres em Gaza, muitas das quais continuam a trabalhar sob bombardeamento.
“Onde está a solidariedade que exigem quando é com os seus?”
É a pergunta de Yasmin Qasem, jornalista palestiniana e ex-bolseira da Thomson Foundation. Yasmin perdeu dois colegas em Janeiro. Mandou emails para organizações com as quais já tinha trabalhado. Ninguém respondeu.
“Dizem que a nossa morte é uma tragédia. Mas não nos tratam como jornalistas. Tratam-nos como dano colateral.”
A crítica repete-se entre jornalistas árabes e do Sul Global. Organizações que, em teoria, deviam protegê-los, parecem retraídas sempre que o agressor é um aliado estratégico do Ocidente.
A retórica vazia da “liberdade de imprensa”
“Liberdade de imprensa” tornou-se um conceito esvaziado de sentido real quando aplicado de forma seletiva. A sua validade não pode depender do passaporte da vítima ou da nacionalidade do perpetrador.
Quando jornalistas são mortos em Gaza, sem acesso a justiça, sem repercussão mediática, as organizações que dizem proteger a classe têm a obrigação de agir. Se não o fazem, estão a falhar. Estão a trair.
Para Sara Chitour, diretora da rede Media Against Apartheid, “as organizações internacionais de imprensa estão a aplicar uma lente colonial: protegem os seus, esquecem os outros. Esta é uma falha sistémica, não episódica.”
O medo de perder financiamento?
Parte da explicação pode estar na teia de relações institucionais e financeiras entre estas organizações e governos ou fundações privadas pró-Israel. A dependência de fundos internacionais condiciona a independência política — mesmo de quem devia vigiar os poderes.
O relatório “Media Capture and Donor Complicity”, publicado em 2024, documenta vários casos de autocensura em organizações de media globais com receio de perder financiamento quando se posicionam contra Israel.
O que fazer?
Reconhecer a falha é o primeiro passo. Mas é preciso ação.
As organizações de media devem emitir declarações públicas específicas sobre os jornalistas mortos em Gaza.
Devem pressionar Israel por investigações independentes.
Devem criar fundos de apoio a repórteres locais sobreviventes.
E, acima de tudo, devem ouvir quem está no terreno.
Porque é que isto importa?
Porque o silêncio das instituições ajuda a matar duas vezes: primeiro, o corpo. Depois, a memória.
Num tempo em que a guerra é também mediática, a cumplicidade institucional transforma-se numa arma invisível, mas devastadora.
Não há liberdade de imprensa sem coragem institucional.
E, hoje, essa coragem está em falta.
📍 Este artigo foi baseado em declarações públicas (ou a ausência delas) das organizações referidas, entrevistas com jornalistas palestinianos, relatórios de ONGs e análises académicas sobre media, poder e censura. As organizações citadas foram contactadas para contraditório, mas até à data de publicação não responderam.