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Resumo

  • Sob o pretexto da segurança e da inovação, estas corporações estão a fornecer ferramentas de inteligência artificial, computação em nuvem e reconhecimento facial que sustentam um regime de controlo total sobre a população palestiniana.
  • A Microsoft, através da subsidiária Microsoft Israel, está envolvida em projectos de integração de dados civis com dados de segurança, o que permite a monitorização contínua da população.
  • O software desenvolvido para segmentar e controlar palestinianos em Gaza está agora a ser promovido como solução para vigilância urbana, controlo fronteiriço e segurança cibernética em cidades europeias e norte-americanas.

Em Gaza, os algoritmos matam em silêncio. Cada rosto digitalizado, cada padrão de movimento analisado, cada clique monitorizado pode transformar-se em sentença. A revolução tecnológica, anunciada como promessa de progresso, converteu-se na mais eficaz ferramenta de dominação. No centro deste novo regime de controlo, estão empresas como Google, Amazon, Microsoft e Palantir – todas implicadas num sistema de vigilância que, segundo o mais recente relatório da ONU From economy of occupation to economy of genocide, configura um verdadeiro apartheid digital.

Sob o pretexto da segurança e da inovação, estas corporações estão a fornecer ferramentas de inteligência artificial, computação em nuvem e reconhecimento facial que sustentam um regime de controlo total sobre a população palestiniana. A tecnologia não substituiu os checkpoints – expandiu-os até ao interior das casas, dos telemóveis e das rotinas mais íntimas.


Do Vale do Silício para as Ruas de Rafah

O Project Nimbus, desenvolvido em parceria por Google e Amazon com o governo israelita, é o símbolo máximo desta simbiose entre tecnologia e ocupação. Sob este contrato multimilionário, Israel obtém acesso a ferramentas avançadas de machine learning, análise preditiva e armazenagem de dados em servidores isolados de jurisdições internacionais.

A investigação da ONU revela que os dados recolhidos por drones, câmaras em colonatos, sensores em fronteiras e perfis digitais são processados para construir mapas de risco algorítmicos. Estes mapas são usados, segundo múltiplas fontes, para seleccionar alvos para ataques — mesmo que esses “alvos” não tenham cometido qualquer acto. Basta corresponderem a um padrão de comportamento “suspeito”.

Especialistas ouvidos para o relatório, como a engenheira digital palestiniana Yara Asfour, alertam: “Estamos a ser reduzidos a metadados. Um erro algorítmico pode equivaler a uma condenação à morte.”


Biometria, segregação e acesso condicionado

Mas a vigilância não se resume ao espaço aéreo ou ao digital. Sistemas biométricos instalados em pontos de controlo entre a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza registam impressões digitais, reconhecimento facial e voz. A Microsoft, através da subsidiária Microsoft Israel, está envolvida em projectos de integração de dados civis com dados de segurança, o que permite a monitorização contínua da população.

Palantir, conhecida pelo seu software Gotham utilizado pela CIA, é apontada como uma das principais fornecedoras de soluções de big data ao exército israelita. As suas ferramentas permitem a criação de perfis individuais de palestinianos com base em cruzamento de dados escolares, familiares, médicos e financeiros.

O acesso a Gaza está hoje condicionado por este sistema invisível: o algoritmo determina quem pode sair, quem pode receber cuidados médicos, quem pode renovar a sua autorização de residência. A ocupação digital tornou-se tão eficaz quanto as muralhas de cimento.


Tecnologia de exportação: do apartheid à inovação

O mais alarmante é que esta tecnologia testada em contexto de repressão está a ser exportada como inovação. O software desenvolvido para segmentar e controlar palestinianos em Gaza está agora a ser promovido como solução para vigilância urbana, controlo fronteiriço e segurança cibernética em cidades europeias e norte-americanas.

A tecnologia que hoje vigia Gaza poderá vigiar amanhã migrantes em Calais, activistas em Lisboa ou estudantes em São Paulo. A fronteira entre “inovação” e “repressão” dissolve-se quando o lucro dita a ética.

O relatório da ONU denuncia esta exportação como um ciclo vicioso: os contratos em Gaza servem de piloto; os lucros, de capital inicial; os mercados internacionais, de expansão. Tudo alimentado por regimes de impunidade empresarial.


Resistência dentro das empresas

Nem todos estão em silêncio. Movimentos como No Tech for Apartheid ganharam força dentro do Google e da Amazon. Engenheiros, programadores e gestores recusaram trabalhar em projectos associados à ocupação israelita. Alguns foram despedidos. Outros continuam a lutar por cláusulas éticas nos contratos de fornecimento.

Em declarações à imprensa internacional, um engenheiro anónimo afirmou: “O nosso código está a ser usado para matar. Não entrámos para a tecnologia para isso.” A repressão de vozes internas revela o quão frágil é a retórica ética destas empresas.


Conclusão: o futuro é agora – e é vigiado

A ocupação da Palestina já não se faz apenas com soldados e tanques. Faz-se com servidores, sensores e softwares. Gaza tornou-se o primeiro território da história a viver sob um regime totalitário algorítmico. E os seus habitantes, os primeiros a sofrerem a violência de um apartheid automatizado.

O futuro da Palestina pode muito bem ser o espelho do futuro de todos. Se não travarmos o apartheid digital agora, será tarde de mais quando o algoritmo bater à nossa porta.


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