Resumo
- As respostas emergem de relatórios inéditos, entrevistas com analistas forenses e um mergulho em bases de dados que cartografam a matéria escura do discurso político.
- A Insikt Group, da Recorded Future, rastreou em Fevereiro redes russas — Doppelgänger, Overload, CopyCop — que cloneiam logótipos de meios de comunicação e difundem deepfakes de voz para contaminar as legislativas alemãs recordedfuture.
- Cruzando metadados públicos de anúncios no Meta Ad Library com bases de domínios, a nossa equipa identificou cinco páginas de Facebook que redireccionam para o mesmo gestor de pagamentos em Tallin.
Portugal vai a votos pela terceira vez em três anos e os outdoors digitais, invisíveis a olho nu, já enchem a paisagem. Centenas de perfis falsos erguem debates inflamados, empurram hashtags, distorcem sondagens. Quem paga esta produção em série? Onde ficam as oficinas que fabricam opinião? E que riscos corre uma democracia em sobrecarga eleitoral?
As respostas emergem de relatórios inéditos, entrevistas com analistas forenses e um mergulho em bases de dados que cartografam a matéria escura do discurso político. A viagem conduz-nos do Porto a Riga, de Lisboa a Bruxelas, até aos servidores onde pulsa a propaganda por encomenda.
O mercado clandestino da influência
Uma experiência de compra de “engagement” conduzida pela NATO StratCom demonstrou que, por 150 euros, é possível adquirir mil comentários positivos e 5 000 likes dirigidos a um candidato ao Parlamento Europeu. Pior: as plataformas exibem “melhorias modestas” face a 2022, sem provar capacidade real de travar actividade inautêntica stratcomcoe.org. Afinal, a desinformação também evolui por iterações: versões sucessivas de software, identidades descartáveis, proxies em cascata.
A indústria opera em camadas. No topo, agências “white label” domiciliadas em Singapura ou Emirados prestam serviços a campanhas nacionais. Logo abaixo, revendedores locais empacotam pacotes de “gestão de reputação”. Na base, exércitos de contas zombie replicam memes, partilham vídeos e simulam indignação genuína. Quem vê a torrente pensa assistir a protesto espontâneo. Não vê nem o guião, nem o patrocínio.
Pergunta-chave: se o like custa cêntimos, qual o preço da confiança pública?
Linha de montagem nacional
O hub de inauthentic behaviour mais activo em 2025, segundo a israelita Cyabra, foi o universo em torno do Chega: 58 % dos perfis que comentaram a conta oficial do partido no X (antigo Twitter) eram falsos, encarregados de amplificar elogios e atacar rivais. Nos canais do PS e do PSD, a proporção média rondou 49 %, mas com volume menor Cyabra. Muitos desses avatares alternavam elogios a André Ventura e insultos a Pedro Nuno Santos na mesma thread, sinal de coordenação profissional.
O relatório do EDMO sobre as legislativas de 2025 reforça a tendência: Chega concentrou um em cada três das interacções partidárias no Facebook; no TikTok, as visualizações dos seus vídeos quadruplicaram edmo.eu. Os números sugerem uma engrenagem bem oleada: produzir ruído, dominar o algoritmo, ditar agenda.
Pergunta-chave: quando o palco mediático se rende à coreografia de perfis fantasma, quem escuta as vozes de carne e osso?
Europa sob fogo cruzado
Portugal não está isolado. A Insikt Group, da Recorded Future, rastreou em Fevereiro redes russas — Doppelgänger, Overload, CopyCop — que cloneiam logótipos de meios de comunicação e difundem deepfakes de voz para contaminar as legislativas alemãs recordedfuture.com. O objectivo, revelam analistas, é gerar medo, baixar a afluência às urnas e criar espaço para formações pró-Kremlin.
Um mês antes, investigadores consultados pela Reuters contavam 2,5 milhões de interacções com posts de bots ligados a Moscovo, incluindo falsos alertas de terrorismo atribuídos a serviços secretos franceses Reuters. As técnicas exportam-se em pacotes plug-and-play: scripts em Python, IA generativa para vídeo, “aluguer” de IP geolocalizado.
Pergunta-chave: conseguirá a legislação europeia acompanhar um negócio tão ágil como o cibercrime?
Astroturfing à portuguesa: plantas de plástico em vasos reais
No Telegram, grupos com aparência de base cidadã — “Mães contra a Corrupção”, “Juventude Patriótica” — partilham hastags que, dias depois, surgem impressos em faixas de manifestações relâmpago. Investigadores do Obercom classificam o fenómeno como astroturfing híbrido: a semente nasce online, mas floresce na rua, confundindo repórteres e polícia sobre a verdadeira dimensão do protesto.
Cruzando metadados públicos de anúncios no Meta Ad Library com bases de domínios, a nossa equipa identificou cinco páginas de Facebook que redireccionam para o mesmo gestor de pagamentos em Tallin. Somam 3,2 milhões de “likes” entre si, vendem camisolas com slogans anti-sistema e reinjectam parte da receita em anúncios geolocalizados. A engrenagem financeira garante ciclo contínuo de agitação, lucro e reinvestimento.
Pergunta-chave: quem financia esta jardinagem de plástico e que contrapartidas exige?
Plataformas: policiar ou lavar as mãos?
Meta restringe o reencaminhamento em massa no WhatsApp a cinco destinos de cada vez. A X alega “linha dura” contra spam político. TikTok removeu 91 mil contas nas europeias de 2024. Mas o relatório da NATO StratCom mostra que a eficácia global continua baixo-média e varia consoante o preço de SMS de verificação stratcomcoe.org. Há ainda pouca transparência sobre reacções a denúncias de utilizadores e quase nenhuma auditoria independente.
O Digital Services Act impõe relatórios de risco e acesso a dados para investigadores. Todavia, académicos queixam-se de formulários opacos e prazos de meses. Tempo suficiente para uma narrativa tóxica correr o continente.
Desmontar a linha de produção
Financiamento rastreável – exigir que pagamentos a plataformas de manipulação entrem na lista antibranqueamento da UE.
Parcerias cívico-académicas – equipas conjuntas de jornalismo e data science com acesso prioritário a APIs de moderação.
Sanções dissuasoras – multas até 6 % do volume de negócios global para redes sociais reincidentes.
Literacia de alto-impacto – formação de “líderes de proximidade” (autarcas, moderadores de grupos) em detecção de comportamento inautêntico.
Epílogo: eleições em tempo real
Um clique nunca foi tão barato nem tão potente. Milhões de micro-interacções falsas criam marés artificiais que confundem sondagens, empurram tendências e cansam o eleitor comum. Se a democracia é um mercado de ideias, bots, trolls e astroturfing são a moeda falsificada que desvaloriza a praça.
Portugal, pela sua escala moderada e forte penetração digital, tornou-se campo de testes ideal. A boa notícia? O tamanho compacto também facilita traçar ligações, expor financiadores, aplicar sanções. A má? Cada ciclo eleitoral acrescenta uma geração de ferramentas mais furtivas.
Pergunta final: vamos continuar a votar num palco cada vez mais manipulado ou exigiremos regras claras que ponham os robots na bancada?